Sepultamento em massa revela massacre de mulheres e crianças há 2,9 mil anos

O passado da humanidade ainda guarda segredos macabros, principalmente aqueles relacionados ao comportamento e às relações humanas no período pré-histórico. Mas, nas últimas décadas, novos registros têm sido descobertos e dado cada vez mais pistas aos arqueólogos. Na década de 1970, por exemplo, 77 corpos de mulheres e crianças foram encontrados em uma vala comum – nomeada Gomolava e datada do século 9 a.C. – no sul de Novi Sad, na Sérvia.
O que parecia ser resultado de uma catástrofe natural, revelou, anos mais tarde, ter ligação com um evento muito mais sinistro: um massacre organizado. E pior: mais de 70% dos corpos eram de mulheres e mais de 60% com menos de 12 anos de idade. A descoberta foi publicada na revista Nature Human Behaviour nesta segunda-feira (23).
Localizado no topo de um antigo monte de assentamento, que se destacava na paisagem plana da região, a cova tem um formato circular com menos de 3 metros de diâmetro. Ossos de gado e de ovelhas dispostos juntos dos restos mortais humanos sugerem que o sepultamento foi acompanhado por uma oferenda de alimentos ou sacrifício de animais.
Também foram encontrados ornamentos pessoais, como broches, enfeites de cabelo, pulseiras e anéis entre os ossos, indicando que os corpos não foram saqueados.
Quem eram essas pessoas?
A nova análise começou há sete anos, quando os pesquisadores decidiram reexaminar os ossos como parte de um estudo sobre a pré-história de Novi Sad. “Esperávamos encontrar uma comunidade rural onde todos morreram quando uma [possível] doença surgiu”, contou Barry Molloy, da University College Dublin (UCD), em comunicado.
A equipe se surpreendeu ao descobrir que um em cada cinco dos indivíduos encontrados apresentava graves traumas esqueléticos, como crânios perfurados e ferimentos por flechas. Acontece que, segundo Linda Fibiger, da Universidade de Edimburgo, muitas lesões fatais não deixam marcas no esqueleto, o que a levou a concluir que todas as mulheres e crianças na sepultura foram provavelmente executadas.
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Agora, os restos mortais estão sob a guarda do Museu de Vojvodina, na cidade onde foram encontrados há mais de cinco décadas. A nova análise também identificou os restos mortais de cerca de 20 homens e meninos, mas Molloy acredita que “não se tratou de uma diferença aleatória”, mas que foi um massacre com um significado ideológico ou simbólico. “Claramente, houve uma escolha sendo feita sobre quem estava sendo morto”.
No entanto, o que chamou a atenção da equipe foi a proporção entre os corpos femininos e masculinos. Isso porque valas comuns resultantes de assassinatos indiscriminados geralmente contêm números iguais de homens e mulheres, enquanto os massacres em tempos de guerra costumam ter mais homens. Mulheres jovens e crianças, por outro lado, estão ausentes dos massacres de prisioneiros, em vez disso, muitas delas são levadas como escravas.
E as surpresas não pararam por aí: com exceção de uma mãe e suas duas filhas pequenas, nenhuma das dezenas de pessoas na vala comum tinha parentesco biológico, como seria de se esperar se uma aldeia ou clã tivesse sido atacado e dizimado. Além disso, isótopos químicos em seus dentes mostraram que eles nem sequer eram da região de Gomolava e que cresceram comendo alimentos diferentes.
Por que mulheres e crianças?
Sejam amigas ou inimigas, mulheres e crianças representavam o futuro das comunidades pré-históricas, além de fonte de mão de obra forçada. Pensando por esse lado, matá-las seria uma escolha estranha. Então, por quê?
De acordo com os autores, selecionar mulheres e crianças para o abate e enterrá-las em um local de destaque pode ter sido uma demonstração pública de poder a grupos rivais e não como resultado de um ataque a uma única aldeia. “Trata-se de um grupo de pessoas de diferentes aldeias, todas mortas no mesmo local, ao mesmo tempo”, disse Molloy.
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Há quase 3 mil anos, no período do enterro, a Bacia de Cárpatos enfrentava um período de turbulência entre variados grupos que experimentavam a criação de gado e a agricultura. Nessa época, começaram a se formar assentamentos nas proximidades da fronteira e, posteriormente, a área se tornou um ponto de conflito entre diferentes formas de utilização da paisagem.
Pesquisas anteriores até revelaram que as pessoas enterradas em Gomolava eram agricultores seminômades, mas com gostos diversificados quanto ao uso da paisagem. “Parece que tínhamos pessoas que gostavam de controlar a paisagem e usá-la para a agricultura, e outro grupo que queria transitar por ela, mantendo-a aberta”, explicou Molloy, o que teria levado, essencialmente, a um conflito pela posse da terra.
A alta proporção de mulheres e crianças mortas no massacre pode ser um sinal de que elas ocupavam um lugar de destaque em sua comunidade agrícola. Para além de serem consideradas o futuro do grupo, elas podem ter exercido um importante papel nas tomadas de decisões, o que as colocou como alvo principal dos ataques. Tanto que os seus corpos dispostos no monte de forma muito semelhante à maneira como um tesouro de armas ou outros objetos de valor poderiam ser exibidos ostensivamente.
Mas Molloy observou que, por ora, ainda há muitas especulações em relação ao número inesperado de mulheres e crianças mortas em Gomolava. Um dos seus argumentos é que não existem fontes escritas que confirmem ter ocorrido esse massacre há 3 mil anos. “Provavelmente nunca saberemos o motivo exato por trás desse evento trágico”.
(Por Júlia Sardinha)






