Saudades do Filósofo-andarilho das Américas

(*) Suziene Cavalcante
Amo o homem que atravessou o século c’a barba cheia de estradas… E os olhos cansados de enxergar demais. Andarilho das Américas profundas e vastas! Ensinou que a inteligência não é monopólio das elites ácidas, ó não, jamais!
Tuas canções e Arte conhecem os aeroportos da saudade! Ó dá-me notícias de tempos que, no relógio, não cabem, pois são percursos da genialidade de tua consciência!
Nas veias de tuas canções fenomenais correm rios continentais, o sangue das montanhas magistrais, em quão opulência!
Teus horizontes musicais nunca couberam na moldura dos mortais, pois são estreitas demais tais conveniências!
Naquele rapaz latino-americanos cabiam milhões de corações pulsando…
Cabiam migrantes, os estudantes, os trabalhadores anelantes, e os jovens sonhando!
Os filhos das periferias sofríveis, os habitantes das fronteiras invisíveis, os privilegiados e os pobres indizíveis, juntos cantando!
Saudades de ti, Belchior estupendo!
Artista genial que pensou o Continente por dentro!
Havia terra em sua voz de farol… Terra que conhece o apreço e o preço do Sol… E os dedos dos ventos!
Em tuas obras sem fim, a filosofia desceu das torres de marfim, e caminhou pelas ruas assim… Sem eventos!
Tua voz continua caminhando, gerações cruzando… Viajantes e peregrinos encontrando… Nas esquinas do tempo!
Amo sua inteligência agreste e seu canto filosófico…
sua nordestinidade que nos veste…de lucidez de retirante cósmico! Ah, seu modo de transformar fome, solidão e País em canto feliz e incógnito!
Havia, em ti, algo de Universo e algo de sertão! Algo de terra vermelha e algo de Constelação… Dúvidas férteis à descoberta e à explanação…dos códigos!
Quando as cidades ficaram metálicas, quando os afetos viraram vitrine, quando a juventude foi vendida, incálita,
em suaves prestações que não definem… Um homem cantando verdades como quem acende candeeiros que ardem na escuridão da Arte, ó latina-americanidade insigne!
Ó cantor das estradas sem mapa!
Ó peregrino dos sonhos inquietos!
Gênio que interrogava a vida vasta! Acendias fogueiras na noite da alma, por certo!
Tu sabias que a sabedoria, no pódio, não moraria… Mas na travessia, no aprendizado de cada dia, no longe e no perto!
Da dúvida fizeste melodia, da saudade filosofia, da estrada tua moradia… Teu violão levava livros e poesia e séculos!
Chamaram de reclusão o que talvez fosse apenas uma filosófica versão,
um modo mais inteligente de respirar a introspecção… Pois a fama
também traz solidão e deserto!
Tu fizeste da música popular uma mesa de encontros brilhantes… Nela puseram-se a sentar filósofos e estudantes, trabalhadores e viajantes, andarilhos e amantes!
Todos reunidos pela mesma fome: a fome de compreender a vida, a chegada, a ida, a partida, os encontros e a despedida, os homens!
Teus versos chegavam como pássaros ordeiros, que atravessam janelas abertas, trazendo notícias de época d’um Continente inteiro…
Cidades febris, amores imperfeitos, esperanças teimosas, sonhos acesos…
Que raro prodígio habitava teu ofício, ó gênio conciso, quase perfeito!
Sabias que os aplausos sequestram a alma, às vezes! Sabias que a indústria fala alto, sim a indústria cultural dos palcos também dá “sobressaltos” na essência dos seres!
E transformam Arte em estampas “inofensivas”…
Belchior, mesmo só, era maior que todos ao redor, de camisa ou palitó, com letras expressivas!
Mas Belchior escapou com arte. Escapou como escapam os cavalos selvagens! Os rios antigos, as onças feridas,os santos andarilhos da vida…
Ó poeta da continentalidade!
Respondeu, em versos, perguntas centenárias!
Não se rendeu a um mundo apaixonado por máscaras!
Que tuas canções revisitem essa geração solitária!
Ó genialidade!
Ó Belchior, gênio de um milênio fervente! Não te celebro apenas como cantor. Celebro-te como uma estrada que caminhou eloquente…E cada pessoa que, tua voz escutou, de fato encontrou uma paisagem diferente!
Tua voz nos lembra dos viajantes gregos… Dos profetas medievais, dos andarilhos d’um sertão aceso!
Tua música nunca pediu seguidores. Pede viajantes! Barba ao vento, bigode por fazer… E cabelos esvoaçantes!
Trouxeste-nos filosofia de esquina, literatura de calçada… Intelectualidade que desatina, universidade de beira de estrada!
Ó ser das palavras errantes e fortes!
Misturastes o sertão, o chão e a metrópole… A filosofia, o violão e acordes! A biblioteca e a calçada, o silêncio e a multidão desenhada…em seu porte!
Quem tem luz natural não precisa de artefato irreal, tampouco de número convencional ou holofotes!
Tu sabias, com Belchioridade, que o coração humano é maior do que qualquer cidade!
Por isso cantaste os que partem. Mas não oferecia repouso a tua Arte… Oferecia movimento!
Era um convite permanente à aventura de existir.
O próprio Dante Alighieri conseguiste traduzir… De modo musical, filosofal a sonir… Que exemplo!
Tu compreendeste algo raro que nos inflama: Que a juventude não é uma idade. É uma chama.
Trazias no olhar a vastidão dos que amam… Que esplêndido!
Ó Belchior, houve um dia, sem avisar, em que deixaste os palcos, como um navegante, a sonhar, que, do porto, põe-se a afastar, para ouvir melhor o rumor do mar!
Muitos procuraram teu rosto. Poucos compreenderam tua poesia. Talvez estivesses perseguindo a mais difícil das melodias: aquela que nasce
quando cessam todas as euforias!
A música do silenciar!
Talvez estivesses aprendendo, com muita atenção, a escutar a própria alma e o próprio coração. E que concerto extraordinário deve ter sido sua opção, sua auto-assembleia!
Descobridos de mundos preciosos, de continentes invisíveis aos olhos… Pensador que não pediu licença aos “poderosos”…
Bela epopéia!
Cantaste os caminhantes de sóis severos… Como os ventos da caatinga, teus versos são refrigério! Filho do Nordeste profundo e eterno!
Ó voz eterna!
Um homem, uma alma, e o infinito como plateia.
Suziene Cavalcante: Poeta brasileira
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