Em caso raro, mulher tem infecção por metal após prótese no quadril deslocar

Em caso raro, mulher tem infecção por metal após prótese no quadril deslocar
Imagem do quadril da paciente com a prótese de cobalto e cromo comprometida — Foto: Bajwa et al.

Uma mulher de 56 anos desenvolveu um quadro raro e grave de intoxicação por cobalto — um metal utilizado em alguns tipos de próteses ortopédicas — após complicações envolvendo uma prótese de quadril. O caso, descrito por médicos em artigo publicado na quarta-feira (1º) no New England Journal of Medicine, chamou atenção pela rapidez com que os sintomas evoluíram e pela gravidade da doença, que afetou o sistema nervoso, o coração e a tireoide.

Durante cerca de oito semanas, a paciente passou a sentir uma intensa sensação de formigamento nos pés, que se espalhou para as pernas e, posteriormente, para as mãos. Ao chegar ao hospital, já não conseguia perceber os pés tocando o chão, tropeçava com frequência e precisava se apoiar nas paredes para caminhar. Além disso, desenvolveu perda de memória recente, dificuldade de concentração, irritabilidade, falta de apetite e palpitações cardíacas.

Histórico da prótese revelou origem do problem

Os médicos inicialmente investigaram causas mais comuns para o quadro, como deficiência de vitaminas, doenças autoimunes e inflamações crônicas. Entretanto, nenhum dos exames apontava uma explicação convincente para o conjunto de sintomas.

Ao conduzir a anamnese com a paciente, a equipe descobriu que ela havia recebido uma prótese total de quadril cerca de 20 anos antes, após uma lesão causada por um acidente de carro. Embora mais de 90% desses implantes permaneçam funcionais por pelo menos três décadas, o dela começou a apresentar problemas após 19 anos de uso.

Os principais componentes protéticos na artroplastia total do quadril são mostrados separadamente, montados e em posição dentro da articulação nativa do quadril — Foto: Bajwa et al.
Os principais componentes protéticos na artroplastia total do quadril são mostrados separadamente, montados e em posição dentro da articulação nativa do quadril — Foto: Bajwa et al.

No ano anterior à internação, a prótese sofreu um deslocamento, mas foi recolocada sem necessidade de cirurgia. Mesmo assim, ela continuou sentindo dores e dificuldades para caminhar. Exames de imagem mostraram que um dos componentes da articulação artificial estava se deteriorando, levando à realização de uma cirurgia de revisão cerca de três meses antes do aparecimento dos sintomas mais graves.

Somente quando os médicos tiveram acesso ao relatório dessa cirurgia encontraram a peça que faltava para solucionar o caso. O documento mostrava que o revestimento original de cerâmica da prótese havia se quebrado e sido substituído por outro material, enquanto a cabeça da articulação passou a ser feita de uma liga metálica composta por cobalto e cromo.

Cobalto entrou na corrente sanguínea

A articulação do quadril funciona como um encaixe entre a cabeça do fêmur e a bacia. Em uma prótese, esse movimento depende do contato entre componentes artificiais projetados para reduzir o atrito.

No caso da paciente, porém, pequenos fragmentos de cerâmica permaneceram na articulação mesmo após a primeira cirurgia de revisão. De acordo com os médicos, essas micropartículas passaram a funcionar como um material abrasivo, desgastando rapidamente a nova peça metálica e liberando partículas de cobalto para os tecidos ao redor e, posteriormente, para a circulação sanguínea.

A intoxicação também pode afetar a tireoide, glândula responsável por regular o metabolismo. No caso descrito, isso ajudou a explicar por que a paciente precisou aumentar recentemente a dose do medicamento utilizado para tratar o hipotireoidismo.

Outro achado importante foi o aumento da hemoglobina, proteína presente nos glóbulos vermelhos responsável pelo transporte de oxigênio. O excesso de cobalto mantém ativado um mecanismo biológico que estimula a produção dessas células mesmo quando não há necessidade, elevando artificialmente seus níveis no sangue.

Segunda cirurgia revelou cenário incomum

A rápida evolução da doença intrigou a equipe médica, já que a intoxicação por cobalto associada a próteses costuma se desenvolver ao longo de meses, e não em poucas semanas.

Durante uma nova cirurgia de revisão do quadril, os cirurgiões compreenderam por que o quadro havia avançado tão depressa. Ao abrir a articulação, encontraram uma grande quantidade de líquido cinza metálico e observaram músculos e tecidos ao redor do implante necrosados e impregnados pelo metal.

Os profissionais removeram os tecidos comprometidos, substituíram a peça metálica de cobalto-cromo por outra de cerâmica e trocaram o revestimento da prótese. No mesmo dia, iniciaram um tratamento de quelação, técnica que utiliza medicamentos capazes de se ligar aos metais pesados para facilitar sua eliminação pelo organismo.

Exames confirmaram a gravidade do caso. Antes da cirurgia, a concentração de cobalto no sangue da paciente era de 592 ng/mL, enquanto o valor considerado normal é inferior a 10 ng/mL. O nível de cromo também estava elevado: 62,4 ng/mL, ante valores de referência inferiores a 0,2 ng/mL.

Recuperação do envenenamento

A recuperação da paciente foi lenta e parcial. Nos meses seguintes, ela voltou a caminhar com menos dificuldades e conseguiu reduzir a medicação para a tireoide à dose anterior.

No entanto, parte dos sintomas neurológicos persistiu. Duas semanas após receber alta, passou a apresentar zumbido constante nos ouvidos, uma manifestação frequentemente associada à intoxicação por cobalto devido aos danos provocados nas estruturas responsáveis pela audição.

Um ano após a internação, a paciente relatava menos dor, melhora da capacidade de caminhar e episódios menos frequentes de zumbido. Mesmo assim, ela ainda não se sentia totalmente recuperada da condição.

Caso reforça cuidados em cirurgias de revisão

Os autores destacam que o uso de ligas de cobalto-cromo em próteses de quadril diminuiu “substancialmente” nos últimos 15 anos, embora esses materiais ainda sejam empregados em algumas cirurgias de revisão. Segundo eles, quando ocorre intoxicação, ela costuma estar relacionada ao desgaste mecânico prolongado do implante e envolve principalmente o cobalto, e não o cromo.

Na avaliação da equipe, o caso demonstra como resíduos microscópicos de cerâmica podem acelerar o desgaste de componentes metálicos, aumentando rapidamente a liberação de cobalto para o organismo. No caso da mulher, o atrito diário com os resíduos de cerâmica da sua prótese de quadril anterior acelerou significativamente o desgaste da cabeça femoral de cromo-cobalto, o que, por sua vez, acelerou a liberação de cobalto, causando sua doença tóxica sistêmica.

Por Arthur Almeida

Astrogildo Aécio Nunes

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