Preço do etanol começa a subir após quatro meses em queda

Após quatro meses de forte desvalorização dos preços do etanol no país, levando prejuízo até para as empresas mais eficientes do setor, o mercado começou a reagir na última semana. Segundo analistas, a demanda começou a “acordar” após um longo tempo com preços de etanol mais vantajosos do que a gasolina nos postos.
De acordo com levantamento de preços da consultoria Datagro, o preço do etanol hidratado ao produtor em São Paulo subiu 8,2% na semana, a R$ 2,1955 o litro, enquanto o preço do anidro avançou 6,6%, a R$ 2,5078 o litro, já descontados os impostos. No mercado de Paulínia, a principal praça de combustíveis do país, o preço do etanol hidratado nos terminais subiu 10,3% na semana, para R$ 2,2597 o litro, também sem impostos, segundo dados da Datagro.
O movimento quebrou a trajetória de queda dos preços do biocombustível neste ano. Entre o início de abril e a primeira semana de agosto, o indicador Cepea/Esalq para o etanol hidratado vendido pelas usinas paulistas acumulou baixa de 29%, o que surpreendeu até os mais pessimistas no mercado. Ao longo do último trimestre, a pressão ocorreu em meio ao forte crescimento da produção do Centro-Sul, tanto das novas usinas de etanol de milho, como do maior direcionamento da cana-de-açúcar para a produção do biocombustível em detrimento do açúcar.
Porém, mesmo com a forte queda do etanol e da ampla vantagem competitiva frente a gasolina, os motoristas de carros flex ainda não haviam migrado para o renovável. Em importantes Estados consumidores, o etanol hidratado, vendido nas bombas, chegou a ser vendido por menos de 60% do valor da gasolina – bem abaixo da paridade entre os dois combustíveis, de 70%.
Segundo Plinio Nastari, presidente da Datagro, a recuperação dos preços da última semana ocorreu “por conta de uma reação do consumo, que é reflexo da própria vantagem de preço do etanol em relação a gasolina”. Em algumas cidades, o litro do etanol hidratado vendido nas bombas chegou a ficar abaixo de R$ 3, o que também despertou a atenção do consumidor. “Esses preços convidam muito o consumidor a utilizar o combustível renovável”, disse.
Benefícios fiscais
O setor também foi favorecido na semana passada pela aprovação do projeto de lei 114/2026, que prevê medidas para compensar as perdas do biocombustível com o apoio que o governo está dando à gasolina.
O PL, que segue agora para sanção, prevê subsídio de R$ 1,2 bilhão para compensar perdas sofridas entre 25 de maio e 11 de agosto com o subsídio dado à gasolina, além de um mecanismo que permite a isenção fiscal do etanol em caso redução da carga tributária de ao menos 30% sobre a gasolina – como está ocorrendo agora. O projeto ainda previu a possibilidade dos produtores de etanol utilizarem até R$ 750 milhões em créditos de PIS/Cofins para compensar outros tributos federais.
A discussão da medida em Brasília gerou reação nos mercados. Para Willian Hernandes, sócio da consultoria FG/A, a tramitação influenciou até o preço do açúcar na bolsa de Nova York. O contrato do demerara para março já subiu 14,7% desde o início do mês, e chegou a 16,82 centavos de dólar a libra-peso na sexta-feira (14), o maior valor em cerca de um ano.
Se todos os impactos das mudanças tributárias se refletissem diretamente no mercado, o preço do açúcar teria que subir R$ 150 a tonelada, diz. Na semana passada, o preço da commodity já subiu R$ 200 a tonelada. “Parte do aumento do açúcar foi para acompanhar a nova realidade do etanol”, disse.
Para ele, o mercado de açúcar também já começa a refletir outros fatores, como um mix menor de açúcar do que o esperado e uma menor qualidade da cana-de-açúcar que está sendo processada no Centro-Sul, com baixo teor de Açúcares Totais Recuperáveis (ATR), por causa das chuvas em excesso.
Segundo a FG/A, as mudanças tributárias podem melhorar o lucro antes de juros e impostos (Ebit), em média em R$ 7 por tonelada de cana moída no setor.
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