Pré-campanha em MT sai das articulações e vira “carnificina de ataques”; disputa expõe rachas, brigas e ofensas

A pré-campanha em Mato Grosso já registra o tom mais denso, agressivo e conflagrado do Centro-Oeste. Enquanto no Distrito Federal a crise política gira em torno dos desdobramentos institucionais do caso BRB/Master, em Mato Grosso do Sul o governador Eduardo Riedel aparece mais consolidado e, em Goiás, a sucessão de Ronaldo Caiado ainda se move principalmente por pesquisas, bastidores e composição de chapa, o cenário mato-grossense saiu das articulações discretas e entrou em confronto aberto.
O que ainda deveria ser uma fase de acomodação partidária virou uma espécie de “carnificina de ataques” entre aliados de ontem, adversários de hoje e pré-candidatos que disputam o controle da direita no estado. A sucessão ao Governo e a disputa pelas vagas ao Senado passaram a concentrar ataques pessoais, denúncias financeiras, guerra interna em partidos e pressão nacional sobre candidaturas locais.
O epicentro da crise está na sucessão ao Governo. O governador Otaviano Pivetta (Republicanos), candidato a reeleição, passou a mirar diretamente o senador Wellington Fagundes, pré-candidato do PL. Pivetta questiona a experiência administrativa do adversário, ironiza sua trajetória e já levou o embate para o campo pessoal.
Em uma das declarações mais duras, Pivetta sugeriu que Wellington não teria o perfil adequado para estrear no Executivo. “O cara que nunca foi gestor pode ser a primeira vez gestor. Eu não acredito que a terceira idade seja o momento de iniciar isso. Mas não é dos males o pior. Garanto que não”, disse o governador.
O ataque foi além. Pivetta também citou o livro “Os Ben$ que os Políticos Fazem”, do jornalista Chico de Gois, que trata do crescimento patrimonial de políticos brasileiros, entre eles Wellington Fagundes. “Peguem aquele livro, tem um livro que fala sobre ele”, afirmou. Em outro momento, disse que pretende reagir “à altura”, mas “sem abaixar o nível”.
Wellington, por sua vez, tenta se defender sem abandonar o tom eleitoral. Em resposta às críticas, afirmou que Mato Grosso não quer briga pessoal. “Eu não vou responder ofensa com ofensa. Mato Grosso não quer briga pessoal. O que o povo quer saber é de proposta para o Estado”, disse o senador.
Mas o próprio Wellington também subiu o tom. Ao rebater o discurso empresarial de Pivetta, afirmou: “Governar não é apenas fazer bons negócios, Pivetta. Governar é cuidar de pessoas. É definir prioridades. É olhar para quem produz e é olhar principalmente para quem paga a conta”.
O problema de Wellington é que sua candidatura passou a ser pressionada por dentro e por fora. O Republicanos, partido de Pivetta, tenta nacionalizar a negociação com o PL em torno do apoio a Flávio Bolsonaro à Presidência. Em Mato Grosso, isso significaria pressionar o PL a abrir mão da candidatura própria ao Governo. A direção do PL reagiu e reafirmou que Wellington é o candidato do partido.
“Há muito tempo eles estão aqui batendo na mesma tecla: querem ter candidatura única no estado. Isso não é democracia, querem impor as ideias próprias e não dialogar com a população”, afirmou Wellington, após receber apoio do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto.
Ao mesmo tempo que tenta se firmar como candidato, Fagundes sofre revés declaratórios. Prefeitos do seu partido têm anunciado apoio ao adversário. E para complicar, executivos das duas principais cidades do Estado, Cuiabá e Várzea Grande, onde se concentra o maior contingente eleitoral do Estado, não cravam apoio ao senador. Abilio Brunini e Flávia Moretti emitem sinais dubios – o que ajuda a enfraquecer a posição de Wellington.
A disputa não se limita ao PL e ao Republicanos. No União Brasil, o senador Jayme Campos já colidiu com o ex-governador Mauro Mendes, atual presidente estadual do partido. Jayme tenta viabilizar sua candidatura ao Governo, enquanto Mauro trabalha pelo apoio à reeleição de Pivetta. Os dois chegaram a dialogar, embora não se saiba em que nível. Mas, se permanecerem nas atuais posições, a convenção do União Brasil, marcada para 4 de agosto, tende a produzir um dos choques políticos mais duros da pré-campanha em Mato Grosso.
Jayme tem usado o argumento de que o União Brasil não pode abrir mão de candidatura própria para apoiar um nome de outra legenda. “Quem construiu o partido tem o direito de disputar o futuro. O nosso partido não tem dono”, afirmou. Em outro recado direto à direção partidária, disse: “O União Brasil não vai receber candidato emprestado”.
Mauro Mendes reagiu tentando colocar a decisão dentro do rito formal do partido. “Qualquer membro do partido pode pleitear a vaga de senador, de deputado federal, deputado estadual, de governador, de qualquer cargo. As convenções serão realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto”, afirmou. Segundo ele, a definição será tomada pelos convencionais. “Não é Mauro Mendes, nem A, B ou C”, disse.
Esse racha tornou a pré-campanha ainda mais explosiva porque Jayme não disputa apenas uma candidatura. Ele disputa espaço com Mauro dentro do próprio União Brasil. Ao não comparecer ao lançamento da pré-candidatura de Mauro ao Senado, Jayme mandou outro sinal. “Vou continuar cumprindo minha agenda como pré-candidato ao Governo de Mato Grosso pelo União Brasil. Desejo boa sorte ao casal”, afirmou, em referência a Mauro Mendes e Virginia Mendes.
Caso Master
Ao mesmo tempo, Pedro Taques, indicado para disputar o Senado, passou a atacar Mauro Mendes com base nas denúncias envolvendo a Oi e o Banco Master. Em depoimento à CPI do Crime Organizado no Senado, Taques acusou o Banco Master de comandar fraudes em consignados e afirmou que estruturas ligadas ao banco teriam recebido recursos envolvendo consignados, acordo com a Oi e a BR-163.
Taques disse que o Banco Master teria coordenado uma rede de instituições financeiras que enganava servidores e dificultava acesso a informações. O ex-governador também afirmou que 45 mil servidores de Mato Grosso teriam contratos de consignado em empresas satélites ligadas ao Master.
No ponto politicamente mais sensível, Taques acusou o governo Mauro Mendes de repassar R$ 308 milhões de um acordo com a Oi para fundos administrados pelo Banco Master. “Esse terceiro entrou em acordo com o estado, que depositou [o valor] em dois fundos constituídos, geridos e administrados pelo Banco Master: Royal Capital e Lotte Word. E [o dinheiro] chega em empresas beneficiárias do filho, da esposa e de aliados do governador de Mato Grosso [Mauro Mendes]”, disse Taques à CPI.
As acusações são tratadas por aliados de Mauro como parte da disputa política pelo Senado. Mas o fato é que o caso Master se tornou munição eleitoral em Mato Grosso, do mesmo modo que desgasta a sucessão no Distrito Federal.
Outra temperatura
A diferença é a temperatura. No DF, o escândalo BRB/Master atingiu o grupo de Ibaneis Rocha e obrigou Celina Leão a responder pela herança política e administrativa da crise. O BRB entrou em crise após a aquisição de ativos problemáticos do Banco Master e precisou de socorro bilionário. Celina, por sua vez, passou a se diferenciar de Ibaneis. Em entrevista à Folha, disse que estava enfrentando “o problema que ele deixou do BRB de frente” e classificou como “um pouco misógino” o gesto de quem imaginava que poderia governar por meio dela.
Apesar da gravidade do caso no DF, a disputa ainda se dá em chave mais institucional: crise bancária, sucessão, rompimento político e responsabilização administrativa. Em Mato Grosso, o cenário é mais áspero. O ataque é nominal, direto e personalizado. Pivetta ataca Wellington; Wellington rebate Pivetta; Jayme pressiona Mauro; Mauro tenta controlar a convenção; Taques transforma o caso Master em arma contra Mauro.
Na comparação regional, Mato Grosso também se destaca pela intensidade. Em Mato Grosso do Sul, a pré-campanha existe, mas o governador Eduardo Riedel aparece mais consolidado. Levantamentos e análises locais indicam vantagem do atual governador e possibilidade de vitória ainda no primeiro turno, enquanto a oposição tenta se organizar em várias candidaturas.
Em Goiás, a disputa é competitiva, mas menos conflagrada. Daniel Vilela aparece liderando em algumas pesquisas, enquanto Marconi Perillo e Wilder Morais disputam espaço no campo oposicionista. Também há tensão na base governista pela escolha do vice de Daniel, cargo cobiçado por aliados de olho em 2030. Mas, até aqui, o confronto goiano se mantém mais concentrado em pesquisas, bastidores e composição de chapa.
A disputa ainda nem chegou às convenções. O que se vê, no entanto, é um ambiente político muito acima da temperatura observada nas demais unidades estaduais do Centro-Oeste. Em Mato Grosso, a eleição parece ter começado antes da hora — e sem freio.
Redação RDM Brasilia






