Por que mais de 800 mil abelhas foram roubadas de fazendas na Austrália

Por que mais de 800 mil abelhas foram roubadas de fazendas na Austrália
A complexidade do roubo faz com que os apicultores e os investigadores acreditem que a ação não foi feita por amadores — Foto: Pexels

Nas últimas semanas, mais de 800 mil abelhas desapareceram de propriedades rurais no extremo norte de Queensland, na Austrália, em uma série de furtos que mobiliza a polícia e preocupa apicultores da região. Os criminosos retiraram partes essenciais de dezenas de colmeias e, ao que tudo indica, tinham conhecimento especializado sobre a criação desses insetos.

Segundo o jornal The Guardian, 44 colmeias pertencentes a três apicultores foram atingidas, mas a quantidade total de abelhas roubadas ainda pode crescer, já que as propriedades continuam sendo vistoriadas. O caso ganhou ainda mais importância porque ocorre em meio à recente detecção do ácaro Varroa sp. na região.

“Fiquei completamente arrasado porque a quantidade de trabalho envolvida na preparação de colmeias de boa qualidade e com alto padrão é considerável”, afirma o apicultor comercial Jack Laughton à ABC News. “É um choque abrir uma colmeia onde normalmente se esperaria encontrar abelhas saudáveis e não encontrar nada.”

Um roubo que exige conhecimento

Os ladrões não levaram simplesmente as caixas inteiras. Segundo os relatos dos apicultores, eles retiraram os chamados quadros de cria, estruturas onde ficam a rainha, os ovos e as abelhas jovens. A estratégia dificulta a percepção do crime. Isso porque, como a parte externa da colmeia pode permanecer no lugar, o roubo não é necessariamente identificado de imediato.

Os quadros, as crias e as abelhas foram roubados de, pelo menos, 44 colmeias — Foto: Pexels
Os quadros, as crias e as abelhas foram roubados de, pelo menos, 44 colmeias — Foto: Pexels

“Eles provavelmente chegam com um caminhão cheio de equipamentos, basicamente, e transferem nossos quadros para as caixas deles e remontam nossas colmeias, para que nenhum dos apicultores perceba que alguém esteve lá e fez algo do tipo”, conta o produtor de mel Tom Bidner. “Isso não leva dez minutos. É alguém que esteve lá por algumas horas e provavelmente mais de uma pessoa ajudou a realizar isso nesse período.”

A polícia trabalha com a hipótese de que os autores sejam pessoas ligadas à própria atividade. O detetive sargento Ben Cross, da Divisão de Crimes Rurais e Pecuários de Mareeba, destaca que os indícios do caso apontam para uma operação de cunho comercial, e não para um apicultor amador.

Perdas vão além das abelhas

O impacto financeiro não se limita ao valor das colônias. As abelhas também são utilizadas em contratos de polinização, nos quais os apicultores levam suas colmeias para plantações para ajudar na reprodução das plantas.

Em Queensland, esse serviço é especialmente importante durante a produção de frutas, como o abacate. Sem as colônias, os agricultores podem enfrentar queda na polinização e, consequentemente, na quantidade de frutos produzidos.

No caso dos apicultores atingidos, Bidner estima perdas de até US$ 20 mil (R$ 102 mil) apenas em colmeias, além de cerca de US$ 10 mil (R$ 51 mil) em receitas de polinização. Vale salientar que o roubo também ocorreu pouco antes de um dos períodos mais importantes para a produção de mel na região.

Cenário já estava desfavorável às abelhas

A sequência de furtos acontece enquanto os produtores enfrentam outro problema: a chegada do ácaro Varroa sp. Esse pequeno parasita se reproduz associado às colônias de abelhas e pode enfraquecê-las gravemente.

Em 2022, a Austrália confirmou a presença do parasita pela primeira vez e, já no ano seguinte, abandonou a estratégia nacional de erradicação, depois de gastar mais de US$ 100 milhões (R$ 512 milhões) na tentativa de impedir sua disseminação. Pesquisadores, agora, trabalham em alternativas de controle, inclusive tratamentos que usam tecnologia de mRNA.

Para os apicultores locais, a coincidência dos dois problemas é especialmente preocupante. As colônias precisam ser monitoradas por causa do parasita, mas parte desse trabalho foi interrompida pela descoberta dos furtos. “Ainda não detectamos ácaros em nossas colônias, mas deveríamos estar dedicando nosso tempo e energia a isso. Em vez disso, tivemos que voltar nossa atenção a essa onda de roubos”, observa Bidner.

Investigação continua

A polícia ainda tenta determinar quem está por trás dos furtos e para onde as colônias foram levadas. Uma das hipóteses levantadas pelos apicultores é que elas estejam sendo utilizadas em outras propriedades para serviços de polinização. Os investigadores também pedem informações que possam ajudar a localizar as colmeias e identificar os responsáveis.

Enquanto isso, os produtores continuam verificando outras áreas de suas propriedades. “Ainda não acabou”, afirma Bidner. “Temos muitas colônias para examinar pela frente. Estamos nos deslocando e verificando todos os nossos diferentes locais, de forma a mensurar o tamanho do problema.”

(Por Arthur Almeida)

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