O mato-grossense que parou o Brasil: 42 anos das Diretas Já

por Max Russi*
Eu tinha apenas oito anos, mas percebia em minha cidade as pessoas comentando, torcendo por algo diferente, sem dimensionar a grandeza daquele acontecimento. Alguma coisa estava no ar naquele 25 de abril de 1984. Meus pais acompanhavam pela televisão a movimentação. Motoristas buzinando nas ruas, pessoas se aglomerando em frente ao Congresso Nacional, as galerias do Plenário da Câmara tomadas por homens e mulheres que foram testemunhar um momento capaz de mudar a história do Brasil.
No centro de tudo, um engenheiro civil de Cuiabá, filho de Mato Grosso, com uma proposta simples e revolucionária: deixar o povo escolher o presidente da República. Dante Martins de Oliveira nasceu em Cuiabá em 6 de fevereiro de 1952. Cursou Engenharia Civil na UFRJ, onde se aproximou do movimento estudantil e de grupos de resistência ao regime militar.
De volta ao Mato Grosso, construiu uma trajetória marcada pela coragem. Foi eleito deputado estadual pelo MDB em 1978 e deputado federal pelo PMDB em 1982. Assim que tomou posse, sabia o que precisava fazer. Em 2 de março de 1983, protocolou na Câmara a Proposta de Emenda Constitucional nº 5, para sempre conhecida como a Emenda Dante de Oliveira: restabelecer as eleições diretas para a Presidência da República.
A emenda acendeu uma chama. Nasciam as Diretas Já, um movimento que atravessou partidos, classes e gerações. Pelas ruas do Brasil, o grito era um só: queremos votar para presidente. O país havia encontrado sua voz.
Depois de quase duas décadas de governosmilitares, aquela ideia era dinamite pura. Osmilitares resistiam, o medo era grande. E ainda assim o movimento foi crescendo. Em janeiro de 1984, cerca de 300 mil pessoas lotaram a Praça da Sé (SP). Em abril, mais de um milhão foram à Candelária (RJ) e outro milhão ao Vale do Anhangabaú (SP), a maior manifestação popular da história do país até então. O Brasil estava vivo. A votação foi marcada para 25 de abril de 1984.
O governo militar pressionou seus aliados, proibiu emissoras de transmitir os votos e decretou medidas de emergência em Brasília. Mesmo assim, 298 deputados votaram a favor. Faltaram apenas 22 votos para os dois terços exigidos. A emenda foi derrubada.
O Brasil foi dormir frustrado. Mas algo havia mudado para sempre. Em 1985, o poder voltou às mãos civis.
Com a Constituição de 1988, vieram os direitos. Em 1989, o povo finalmente votou para presidente. A semente plantada por um deputado mato-grossense havia germinado. Dante seguiu sua trajetória. Foi prefeito de Cuiabá em dois mandatos, ministro do governo Sarney e governador de Mato Grosso por dois mandatos. Faleceu em 6 de julho de 2006, aos 54 anos, vítima de pneumonia agravada por diabetes. Partiu cedo, mas com seu lugar na história garantido.
Como deputado estadual e presidente da Assembleia Legislativa de Mato Grosso, me sinto no dever de celebrar esse filho do nosso Estado. Aquela criança de oito anos não sabia que décadas depois ocuparia um cargo na mesma casa legislativa que Dante ajudou a democratizar.
Lembrar dele não é saudosismo. É um compromisso com os valores que ele representou. O voto popular é sagrado, e Mato Grosso deu ao Brasil um de seus maiores presentes.
*Max Russi, deputado estadual e atual presidente a Assembleia Legislativa de Mato Grosso
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