Nova tinta de tatuagem liga e desliga suas cores de acordo com a luz

Cientistas da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos, inventaram o PhotoTat, um sistema de tintas para tatuagem cujas cores aparecem e desaparecem em resposta à luz. A ideia pode evitar as dolorosas sessões de remoção de tatuagem em pessoas que já não gostam mais da aparência dos desenhos que carregam na pele, já que é possível criar novos desenhos, traços e cores para as tatuagens já existentes.
“O que me empolga é essa possibilidade de uma única tatuagem ser quantas tatuagens você puder imaginar”, disse Carson Bruns, pesquisador da Universidade do Colorado envolvido no estudo, em comunicado. Um artigo que descreve a tecnologia foi publicado em 9 de outubro na revista científica Matter&Light.
Antes de entender o que torna a tal PhotoTat especial, você precisa saber que essas novas tintas “têm a mesma aparência e textura de uma tinta de tatuagem normal”, como explica Bruns. As diferenças, porém, estão na forma como elas interagem com a luz: ao iluminar as tatus tecnológicas por um tempo entre dois a três segundos usando luz ultravioleta ou visível intensa, é possível ativar ou desativar os pigmentos delas. Isso significa fazer um desenho sumir, como você vê na foto acima.
Como a tecnologia funciona
Lembra que a cor branca é um conjunto de todas as cores do arco-íris? Se a sua resposta foi não, aqui vai uma dica: mentalize o álbum The Dark Side of the Moon (1973), do Pink Floyd. Na capa do álbum, um feixe de luz branca incide em um prisma (um triângulo bidimensional, o da capa) e o que “sai” do outro lado são, justamente, todas as cores do arco-íris. Apenas essa imagem já te exemplifica dois fenômenos físicos: a refração e a dispersão da luz.
Nas entrelinhas desses processos, há outra coisa curiosa que chamamos de “comprimentos de onda de luz”, isto é, a distância (que costuma ser ridiculamente pequena) entre dois pontos consecutivos de um mesmo feixe de luz. Cada cor tem uma medida diferente, e é aqui que a “magia” acontece.
As três cores primárias são compostas por corantes fotocrômicos, palavra bonita para dizer que eles são sensíveis à luz. Essa sensibilidade, por sua vez, é o que explica o “ligar” e o “desligar” das tatuagens feitas com as tintas da PhotoTat, atrelado, claro, às exposições à comprimentos de ondas distintos.
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Para fazer a tinta da nova tatuagem tecnológica, os pesquisadores escolheram corantes ativados por luz de 365 nm, por ser uma tecnologia amplamente disponível em diodos emissores de luz (LEDs). Além disso, essa luz está na extremidade de menor energia do espectro ultravioleta, uma consideração importante para minimizar os danos à pele inerentes a uma tatuagem, tanto que elas não são ativadas se estiverem cobertas com protetor solar.
Sabendo os comprimentos dos corantes utilizados como básicos, a equipe de cientistas partiu para outros testes. Quando colocadas sob a luz branca, por exemplo, as cores primárias foram desativadas juntas. Então, a equipe de cientistas passou a analisar as ativações e desativações de forma mais seletiva, ou seja, com luzes coloridas. Paras essas demonstrações, as tatuagens foram feitas em um braço de silicone e um projetor a laser foi apontado às marcas.
Essa característica é o que tornou a PhotoTat atraente para pessoas que desejam tatuagens, mas hesitam quanto à sua permanência, bem como para pessoas que amam suas tatuagens, mas ocasionalmente precisam escondê-las por causa do trabalho, relações sociais ou família.
Era das tatuagens fotocrômicas
Tintas para tatuagem que mudam de cor não são uma novidade no mercado. Embora Bruns tenha afirmado que a sua principal motivação para estudá-las seja desenvolver uma tecnologia em prol da autoexpressão individual, essas substâncias foram inicialmente desenvolvidas para aplicações biomédicas.
Segundo o pesquisador, a primeira tentativa de aperfeiçoamento dessa tecnologia chegou ao mercado sob o nome de Magic Ink. O problema, porém, é que apenas uma cor era oferecida, algo muito diferente das cores primárias – magenta, amarelo e azul –, e que ainda podem ser misturadas entre si, do PhotoTat.
Ainda assim, a comercialização dessas tintas não está totalmente disponível. Bruns compartilhou que há detalhes que precisam ser aperfeiçoados. Entre as mudanças, ele destacou a adequação do corante azul, que não é um ciano puro e, logo, apresenta uma gama de tonalidades diferentes com o tempo. “Precisamos de um ciano com alta resistência à fadiga antes mesmo de eu estar pronto para submetê-lo a todos os testes necessários”.
Até o momento, a tinta roxa foi a única aprovada para venda. O valor ainda é salgado: US$ 100 (cerca de R$ 500) por um frasco pequeno. Custo esse que, a propósito, é outro desafio que a equipe deseja superar por meio de mais pesquisas e desenvolvimento da tecnologia.
A tecnologia PhotoTat não foi testada apenas nos braços de silicone, mas também na pele do próprio pesquisador. Ele decidiu tatuar uma série de escamas de peixe em suas pernas, com diferentes formações de tinta em cada uma. Gravadas já há dois anos, Bruns contou estar feliz com a sua arte. “Adoro essas tatuagens mais do que as dezenas que fiz com profissionais, porque elas são minha própria arte e também meu caderno de anotações”. Você pode ver o resultado dos testes na foto abaixo:
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A sensibilidade à luz também fez com que os pesquisadores precisassem pensar em como evitar que a tinta estragasse antes mesmo de ser utilizada. Daí surgiram as cápsulas em nanopartículas de polimetilmetacrilato (PMMA). Trata-se de um plástico semelhante ao vidro, de grau médico, já utilizado em implantes médicos e preenchimentos dérmicos.
Os pigmentos também poderão ser utilizados para outros fins que não apenas estéticos. Pacientes submetidos à radioterapia, por exemplo, às vezes recebem tatuagens permanentes que ajudam os médicos a alinhar com precisão os feixes de radiação. Embora úteis, essas marcas permanecem após o tratamento, lembrando o paciente de sua experiência. Essas tatuagens tornariam essas marcas invisíveis, caso o paciente desejasse.
Em outros cenários médicos, como cirurgias, elas também poderiam ser utilizadas, permitindo que cirurgiões fizessem marcações. Há, ainda, uma tatuagem do tipo dosímetro – destinada à astronautas e engenheiros nucleares –, que mede a quantidade de radiação ultravioleta à qual uma pessoa é exposta. Já outra é capaz de mudar de cor quando exposta à radiação gama perigosa.
(Por Júlia Sardinha)






