Nova espécie de aranha com “carinha feliz” é descoberta na Ásia; veja fotos

“Doppelgänger” é o termo alemão que faz referência a um acontecimento (quase) fantástico: ter um sósia não-biológico. Hoje, a ciência já comprovou que é estatisticamente possível encontrar alguém idêntico à você (gêmeos univitelinos, não estamos falando de vocês, viu?). E engana-se quem pensa que só existem doppelgängers humanos, porque uma espécie de aranha recém-descoberta veio para quebrar com essa lógica.
Por mais de um século, pesquisadores acreditavam que a aranha-carinha-feliz (Theridion grallator) existia apenas no Havaí. O que eles não imaginavam é que a cerca de 12 mil quilômetros de distância, nas montanhas indianas de Uttarakhand, eles encontrariam a Theridion himalayana, ou melhor, a aranha-carinha-feliz-do-Himalaia.
Além de ambas serem aracnídeos, as sósias possuem uma grande variedade de padrões em seus abdômes que se assemelham a rostos sorridentes (daí o nome “aranhas-carinha-feliz”). Esses padrões se chamam “variações de cor” e, tanto a espécie havaiana quanto a do Himalaia apresentam 32 variedades, agrupadas em cinco categorias.
Porém, no estudo publicado em 24 de abril na revista científica Evolutionary Systematics, os cientistas afirmam que as aranhas desenvolveram seus abdômes – e, consequentemente, as suas carinhas de felicidade – de forma independente. Para eles, esse fator “fornece evidências convincentes de evolução convergente”, nome técnico do processo pelo qual espécies distantes (e sem um ancestral comum recente) desenvolvem características semelhantes.
Sem querer querendo
Curiosamente, os cientistas nem estavam atrás desse achado. “A descoberta foi acidental porque nossa pesquisa era originalmente sobre formigas”, contou Devi Priyadarshini, do Museu Regional de História Natural, em publicação no blog científico Pensoft.
Foi o pesquisador Ashirwad Tripathy quem, por acaso, colocou a lupa certa no lugar certo: ele vinha enviando fotos de aranhas de regiões de alta altitude para identificação, até que uma imagem da parte inferior de uma folha de Daphniphyllum mudou tudo. “Fiquei paralisada porque eu já tinha visto a aranha havaiana durante meu próprio mestrado”, relembrou Priyadarshini.
Na imagem abaixo, você pode ver a variação das carinhas felizes da nova espécie.
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A partir daquele dia de outubro de 2023, o que era um projeto sobre formigas virou uma corrida para entender a “gêmea do Himalaia”. Nos meses seguintes, novas coletas permitiram à equipe reunir 61 exemplares em três localidades de Uttarakhand – Makku, Tala e Mandal –, analisando sexo, estágio de vida, variações de cor e DNA de cada um.
Um sorriso meio Mona Lisa
A análise genética mostrou uma diferença de 8,5% a 12% entre a aranha indiana e a havaiana. Pode parecer pouco, mas, no universo genético, é o suficiente para separar as duas em espécies distintas, ainda que do mesmo gênero, Theridion. Ou seja: elas são primas distantes ou, se você preferir, podemos falar que elas são doppelgängers.
Brincadeiras à parte, a descoberta de que elas não são da mesma espécie é o que explica a tal evolução convergente, isto é, quando duas linhagens sem ancestral comum recente desenvolvem, cada uma por conta própria, soluções parecidas para problemas parecidos. E o problema, nesse caso, é o motivo por trás do sorriso, que ainda intriga os próprios pesquisadores.
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Afinal, por que duas aranhas em lados opostos do planeta “decidiram” estampar o mesmo padrão de carinha feliz nas costas? A resposta mais aceita até agora é que o desenho pode confundir ou afugentar predadores.
Há ainda uma pista ligada ao comportamento reprodutivo desses aracnídeos. A maioria das aranhas himalaianas flagradas com o padrão sorridente eram fêmeas e, logo, as responsáveis por chocar e proteger os sacos de ovos. Nesse contexto, ostentar um “rosto” assustador – quase maníaco, convenhamos – pode ser uma estratégia e tanto para quem não pode só fugir do perigo.
Ainda assim, os cientistas fazem questão de frisar os limites do que já se sabe: “ a razão por trás da expressão do polimorfismo também é muito complexa e singular”, disse Priyadarshini. “Esses padrões definitivamente os ajudam a sobreviver melhor na natureza, o que é compreensível à primeira vista, mas porquê eles recorrem a tais padrões em suas costas e qual função exata eles desempenham em seu ciclo de vida ainda precisa ser decifrado. Isso certamente indica um mistério genético mais profundo”.
Quem ri por último, ri melhor
Se o sorriso já intrigava, outra coincidência deixou a equipe ainda mais curiosa: assim como sua parente havaiana, a aranha do Himalaia tem preferência por plantas de gengibre (espécies de Hedychium). O detalhe é que o gengibre não é nativo do Havaí, o que torna esse hábito compartilhado um enigma evolutivo à parte.
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“Como foi que as aranhas escolheram exatamente uma espécie invasora e o gengibre?”, questionou Priyadarshini. A dúvida é tão grande que a equipe acredita que a T. himalayana pode ser um parente mais velho da T. grallator, mesmo as suas descobertas terem 125 anos de diferença. Não à toa, estabelecer essa possível conexão entre as espécies é o próximo objetivo dos pesquisadores.
Apesar do entusiasmo com a descoberta, os próprios autores tratam boa parte das conclusões como ponto de partida, não como respostas. A função exata dos padrões de cor, a razão da preferência pelo gengibre e o verdadeiro grau de parentesco entre as duas espécies seguem em aberto. É provável que a resposta só venha com levantamentos de campo mais amplos, feitos por novos estudos.
(Por Júlia Sardinha)
Uma aranha-de-cara-feliz recém-descoberta no Himalaia se assemelha muito à espécie icônica do Havaí, mas evoluiu de forma independente, de acordo com evidências de DNA — Foto: Devi Priyadarshini e Ashirwad Tripathy






