Múmia de vigário do século 18 é achada bem preservada graças a método incomum

Múmia de vigário do século 18 é achada bem preservada graças a método incomum
A múmia do religioso em seu caixão na cripta da igreja de St. Thomas am Blasenstein, na Áustria — Foto: Andreas Nerlich

Durante séculos, muitas culturas ao redor do mundo embalsamaram seus mortos. Isso significa que os métodos para realizar esse processo variam bastante a cada região e, consequentemente, algumas técnicas acabam por ser mais conhecidas do que outras.

No primeiro relato de um tipo de embalsamamento até então não documentado, uma equipe internacional de pesquisadores analisou uma múmia bem preservada de uma pequena vila austríaca. A avaliação identificou o corpo e rendeu percepções sobre a abordagem inédita de mumificação, descrita em artigo publicado nesta quinta-feira (1°) na revista Frontiers in Medicine.

“A múmia excepcionalmente bem preservada na cripta da igreja de St. Thomas am Blasenstein é o cadáver de um vigário paroquial local, Franz Xaver Sidler von Rosenegg”, indica Andreas Nerlich, primeiro autor do projeto, em comunicado. “Segundo os registros históricos, ele morreu em 1746”.

De acordo com a investigação, o “excelente estado de preservação” do exemplar deriva de um tipo incomum de embalsamamento, obtido ao encher o abdômen através do canal retal com lascas de madeira, galhos e tecido. A mistura ainda parece contar com cloreto de zinco para secagem interna.

Método único de embalsamento

A equipe realizou análises extensivas, incluindo tomografia computadorizada, autópsia focal e datação por radiocarbono. A parte superior do corpo da múmia estava totalmente intacta, enquanto as extremidades inferiores e a cabeça apresentavam considerável deterioração post-mortem.

Durante a investigação, os pesquisadores encontraram uma variedade de materiais estranhos acumulados na cavidade abdominal e pélvica. Ao abrir o corpo, a equipe identificou lascas de madeira de abeto, fragmentos de galhos, além de diferentes tecidos, incluindo linho e cânhamo. Todos esses materiais eram facilmente encontrados naquela época e região.

Aspecto externo da múmia, visto do lado ventral (A) e dorsal (B), mostrando a parede corporal completamente intacta — Foto: Andreas Nerlich
Aspecto externo da múmia, visto do lado ventral (A) e dorsal (B), mostrando a parede corporal completamente intacta — Foto: Andreas Nerlich

Os pesquisadores acreditam que foi essa mistura de elementos que manteve a múmia em tão boas condições. “Claramente, as lascas de madeira, os galhos e o tecido seco absorveram grande parte do fluido dentro da cavidade abdominal”, afirma Nerlich.

Este método de embalsamamento, no qual os materiais inseridos pelo reto, é diferente dos métodos mais conhecidos, em que o corpo é aberto para ser preparado. “Acreditamos que esse tipo de preservação pode ter sido muito mais difundido, mas não reconhecido em casos em que processos contínuos de decomposição pós-morte podem ter danificado a parede do corpo”, destaca Nerlich.

Identidade da múmia

Dentro da múmia, os investigadores encontraram uma pequena esfera de vidro com furos em ambas as extremidades – talvez uma aplicação a um tecido de origem monástica. Como apenas uma única conta foi encontrada, ela pode ter se perdido durante a preparação do corpo.

Há muito tempo se especulava que a múmia pertencia ao vigário Franz Xaver Sidler von Rosenegg, mas a origem desses rumores era desconhecida. Agora, a nova investigação confirmou essa teoria, demonstrando que a sua morte ocorreu entre os anos de 1734 e 1780, quando ele tinha entre 35 e 45 anos. Essas datas coincidem com a vida de Sidler.

Esquerda: A remoção de partes do material estranho da parede abdominal dorsal revelou uma mistura de tecido branco fragmentado, pequenas lascas de madeira e material vegetal, juntamente com alguns resíduos de tecido amorfo acastanhado. Direita: A esfera estranha redonda detectada na pelve esquerda apresentava um pequeno orifício com uma borda elevada — Foto: Andreas Nerlich
Esquerda: A remoção de partes do material estranho da parede abdominal dorsal revelou uma mistura de tecido branco fragmentado, pequenas lascas de madeira e material vegetal, juntamente com alguns resíduos de tecido amorfo acastanhado. Direita: A esfera estranha redonda detectada na pelve esquerda apresentava um pequeno orifício com uma borda elevada — Foto: Andreas Nerlich

Além disso, os exames sugerem que o vigário paroquial tinha uma dieta de alta qualidade, baseada em grãos da Europa Central, produtos de origem animal e, possivelmente, peixes de água doce. Perto do fim da vida, ele pode ter sofrido com escassez de alimentos, provavelmente devido à Guerra da Sucessão Austríaca.

A ausência de sinais significativos de estresse no esqueleto é compatível com a vida de um padre sem atividades físicas intensas. Havia também evidências de tabagismo de longa data e tuberculose pulmonar perto do fim da vida.

“Temos algumas evidências escritas de que cadáveres eram ‘preparados’ para transporte ou disposição prolongada dos mortos, embora nenhum relatório forneça uma descrição precisa”, conclui Nerlich. “É possível que o transporte do vigário para sua abadia natal tenha sido planejado, o que pode ter falhado por razões desconhecidas”.

(Por Arthur Almeida)

A múmia do religioso em seu caixão na cripta da igreja de St. Thomas am Blasenstein, na Áustria — Foto: Andreas Nerlich

Astrogildo Aécio Nunes

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