Mapa do cosmos da civilização maia é encontrado no México; fotos

Sob a planície fértil do sul do México, um mapa do cosmos estava escondido há três milênios. O que parecia uma colina comum revelou-se, com a ajuda de tecnologia a laser e escavações, o mais antigo e vasto sítio maia conhecido, um complexo monumental erguido cerca de 1.000 a.C., quando a civilização ainda dava seus primeiros passos.
Chamado Aguada Fénix, o lugar foi construído por mãos anônimas, sem reis, pessoas escravizadas ou palácios. Seu traçado em cruz, alinhado ao sol e decorado com pigmentos coloridos, funcionava como um espelho terrestre do cosmos, um mapa sagrado que orientava tanto o tempo quanto a fé dos antigos maias.
A descoberta foi encabeçada por uma equipe internacional, composta por pesquisadores dos Estados Unidos, México, Panamá, Reino Unido e Japão. Os detalhes de sua análise renderam a publicação de um artigo científico nessa quarta-feira (5) na revista Science Advances. Veja imagens abaixo.
Mapa do cosmos da civilização maia é encontrado no México; fotos
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2025/v/1/NshhDyStSjfGAjWhW1Eg/excavation-and-the-cruciform-cache-with-pigments-takeshi-inomata-and-melina.jpeg)
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2025/e/B/vVqryqQNGAYdzIs9i2OQ/sciadv.aea2037-f3.jpg)
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2025/A/0/U4smxLTEydD4cJ3gAw7Q/sciadv.aea2037-f4.jpg)
O desenho do céu na terra
No centro do platô de Aguada Fénix, arqueólogos liderados por Takeshi Inomata, da Universidade do Arizona, nos Estados Unidos, descobriram uma cova em forma de cruz cuidadosamente escavada sob uma praça retangular. Em cada direção, pigmentos e oferendas marcavam o espaço: azul ao norte, verde ao leste, amarelo ao sul e conchas marinhas a oeste, intercaladas com pequenos machados de argila.
Essa disposição, segundo o especialista, não era decorativa, mas um “cosmograma”, uma representação do universo materializada na paisagem. “Eles acreditavam que o mundo era ordenado segundo esse padrão em cruz, ligado ao movimento do tempo”, afirma o pesquisador à CNN.
Engenharia e fé
As escavações no sítio, realizadas entre 2020 e 2024, identificaram plataformas, calçadas elevadas, canais e corredores, todos conectados ao platô central e orientados pelos eixos norte-sul e leste-oeste. Curiosamente, não há vestígios de palácios, tumbas reais ou estátuas de governantes.
Essa ausência de símbolos de poder hierárquico desafia uma das principais narrativas sobre o desenvolvimento da arquitetura monumental maia. Por décadas, acreditou-se que obras dessa magnitude só seriam possíveis sob o comando de reis ou elites dominantes.
Mas Aguada Fénix mostra o contrário, um feito coletivo, sem coerção nem desigualdade marcante. “Antes deste sítio, não havia construções substanciais, nem mesmo o uso de cerâmica”, explica Inomata.
A arqueóloga Verónica Vázquez López, coautora e professora da University College London, no Reino Unido, reforça que a obra é praticamente invisível ao olhar terrestre. “Hoje, grande parte do platô é usada para agricultura. É tão sutil que só o LiDAR pôde revelá-lo”, destaca ela. Você pode entender mais sobre a tecnologia a laser LiDAR, que permitiu a descoberta, nesta reportagem da GALILEU.
Os cálculos estimam que mais de mil pessoas trabalharam por vários anos na construção, escavando 3,6 milhões de metros cúbicos de terra. A motivação, segundo Inomata, não era política, mas espiritual. “A religião era muito importante e motivava as pessoas a realizar esse trabalho gigantesco”, descreve ele, em entrevista à Scientific American.
Uma nova visão sobre os maias
A importância da descoberta vai além da arqueologia. Ela redefine a compreensão sobre como as sociedades humanas podem criar em larga escala sem sistemas hierárquicos rígidos.
Dessa maneira, Aguada Fénix não é apenas uma ruína ancestral. É um lembrete de que os maias, ainda hoje presentes em comunidades do México e da América Central, concebiam o universo como um equilíbrio entre as direções, as cores e o tempo.
Mais que um sítio arqueológico, o local revela um modo de viver e construir o mundo a partir da cooperação e da fé coletiva – uma visão de cosmos tão profunda quanto a própria terra que a escondeu por milênios.
(Por Arthur Almeida)






