Fruta brasileira que alimenta lêmures ameaça as florestas de Madagascar

Uma pequena fruta doce, apreciada por lêmures ameaçados de extinção, está criando um dilema ecológico em Madagascar. A goiaba-morango (Psidium cattleianum), espécie originária do Brasil, tornou-se uma das plantas invasoras mais problemáticas da ilha e hoje desafia cientistas e conservacionistas, de que controlar sua expansão pode ajudar a restaurar as florestas nativas, mas também pode reduzir uma importante fonte de alimento desses primatas.
Madagascar abriga algumas das florestas mais singulares do planeta, mas apenas cerca de um quarto da cobertura florestal original da ilha ainda permanece. A restauração das áreas degradadas tornou-se prioridade para pesquisadores e organizações ambientais. No entanto, um obstáculo inesperado vem ganhando força nesses ambientes em regeneração, a goiaba-morango.
A planta, considerada uma das 100 piores espécies invasoras do mundo pela União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN), cresce rapidamente em áreas perturbadas. Onde se estabelece, forma densos matagais que sufocam a vegetação nativa, alteram os nutrientes do solo e reduzem a diversidade de insetos.
Um estudo publicado em janeiro na revista Biological Conservation investigou esses impactos em áreas de floresta que vêm se regenerando há cerca de 80 anos. Pesquisadores compararam locais dominados pela espécie invasora com outros relativamente livres dela. Para isso, criaram parcelas de monitoramento, analisaram mudas de árvores, instalaram armadilhas para insetos e coletaram amostras de solo.
Os resultados foram claros: embora mudas de plantas nativas até germinem em áreas invadidas, poucas sobrevivem. Nessas regiões, os cientistas também registraram menor diversidade de invertebrados e menores níveis de carbono e nitrogênio no solo, sinais de que a planta está alterando profundamente o funcionamento do ecossistema.
“Durante muito tempo, alguns ambientalistas pensaram que não era tão rejudicial alimenta os lêmures, então talvez fosse bom”, afirmou Amy Dunham, ecologista da Universidade Rice e uma das autoras do estudo, ao The News York Times. “Agora sabemos que, embora possa proporcionar benefícios de curto prazo para a vida selvagem, também causa danos ecológicos a longo prazo.”
O dilema dos lêmures
O problema é que os famosos primatas de Madagascar parecem gostar bastante da fruta. Estudos anteriores mostram que os lêmures são mais abundantes em áreas com alta densidade de goiabeiras e frequentemente consomem seus frutos. Em pesquisas ainda em preparação, Dunham e colegas também observaram que esses animais, e outros frugívoros, frequentemente preferem a goiaba às frutas nativas.
Isso cria um efeito em cascata: ao escolher a espécie invasora, os animais deixam de dispersar sementes das plantas nativas, dificultando ainda mais a recuperação das florestas. “Recomendações sobre como lidar com espécies invasoras como a goiaba são muito importantes para os gestores do parque”, disse Jonah Ratsimbazafy, primatologista da Universidade de Antananarivo, em Madagascar, que não participou da pesquisa.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2026/o/J/NJxFOAS4OGIr3Ldl8Qxg/captura-de-tela-2026-03-08-143920.png)
Segundo especialistas, espécies invasoras já foram responsáveis por cerca de 60% das extinções registradas globalmente e por quase 90% das extinções em ilhas. Em um lugar como Madagascar, um dos maiores centros de biodiversidade do mundo, o avanço da goiaba-morango pode causar perdas que ainda nem foram detectadas.
“Isso levanta preocupações sobre perdas ocultas que provavelmente não serão detectadas”, afirmou Kerry Brown, ecologista vegetal da Universidade de Kingston, em Londres, que também não participou do estudo.
Controlar a planta, porém, está longe de ser simples. A goiabeira se espalha rapidamente e é difícil de erradicar. Para impedir que volte a crescer, as raízes precisam ser completamente removidas, um processo caro e logisticamente complicado em áreas extensas de floresta.
“A remoção em larga escala seria financeiramente dispendiosa e logisticamente impossível”, disse Brown. Além disso, Madagascar enfrenta limitações financeiras para programas ambientais desse tipo. Campanhas de controle de espécies invasoras costumam receber menos financiamento do que projetos de proteção direta da fauna.
“É mais difícil mobilizar recursos para algo negativo”, explicou Dunham. Diante dessas limitações, os cientistas defendem estratégias mais direcionadas. Uma das principais recomendações é impedir que a goiaba-morango se estabeleça em novas áreas de restauração florestal.
“Quando ainda são mudas, temos que arrancá-las”, disse Dunham. A solução ideal provavelmente envolverá um equilíbrio delicado, de conter a expansão da espécie invasora sem comprometer os lêmures que passaram a depender dela. Afinal, em uma ilha onde a floresta continua desaparecendo, restaurar o ecossistema e ao mesmo tempo garantir alimento para seus primatas, pode ser um dos maiores desafios da conservação nas próximas décadas.
(Por Carina Gonçalves)






