Fóssil encontrado na Argentina revela dinossauro que se parecia com garça

Fóssil encontrado na Argentina revela dinossauro que se parecia com garça
Representação artística da espécie Kank australis que atingia cerca de 2,5 a 3 metros de comprimento — Foto: Gabriel Díaz Yantén

Um novo fóssil encontrado no sul da Patagônia está mudando a forma como pesquisadores imaginam os dinossauros da família dos velociráptors. Em vez de um predador veloz perseguindo presas terrestres com suas garras em forma de foice, o recém-identificado Kank australis parece ter vivido de modo semelhante às garças modernas, caçando peixes em rios e lagoas há cerca de 70 milhões de anos.

A descoberta, publicada em 28 de maio na revista Journal of Vertebrate Paleontology, foi feita por uma equipe liderada pelo paleontólogo Matías Motta, do Museu de Ciências Naturais Bernardino Rivadavia, em Buenos Aires, na Argentina. Os fósseis foram encontrados na região de Santa Cruz, em uma área conhecida como Formação Chorrillo. Entre os restos preservados estavam dentes, vértebras e ossos dos dedos dos pés.

Os primeiros fragmentos fósseis foram encontrados em 2018, mas estavam muito incompletos para serem identificados como uma nova espécie. A confirmação veio apenas em 2024, quando os pesquisadores encontraram uma vértebra cervical mais preservada, considerada decisiva para reconhecer o animal como um novo unenlagiídeo.

Kank australis pertence ao grupo dos unenlagiídeos, uma família de dinossauros terópodes de pequeno a médio porte descobertos em depósitos do Cretáceo Superior na América do Sul, Antártica, Austrália e Madagascar. Os pesquisadores estimam que a espécie alcançava entre 2,5 e 3 metros de comprimento quando adulta.

Um pescoço de pescador

Como destaca o site Interesting Engineering, o detalhe que mais chamou atenção dos pesquisadores foi a anatomia do pescoço do animal. A vértebra cervical encontrada apresentava estruturas especializadas para a fixação de músculos e proteção de vasos sanguíneos — características semelhantes às observadas em aves aquáticas atuais, como as graças.

Esse osso era notavelmente pneumático (com câmaras de ar internas), o que o tornavam extremamente leve. Isso permitiria que o animal fizesse movimentos rápidos e precisos com o pescoço para capturar peixes em fuga.

“Isso sugere que Kank pode ter sido um pescador ativo, contrastando com a representação comum de aves de rapina como predadores terrestres ágeis, como o Velociraptor do Hemisfério Norte”, disse Motta, em comunicado.

Além disso, o focinho alongado e os numerosos dentes com cristas longitudinais afiadas e pronunciadas reforçam a hipótese de uma dieta baseada em peixes. Os fósseis do dinossauro também foram encontrados próximos a restos de peixes, o que fortalece essa ideia.

A paisagem habitada por K. australis não se parecia com a Patagônia atual, marcada por um clima frio e seco. Há cerca de 70 milhões de anos, no fim do período Cretáceo, a área era caracterizada por um ambiente úmido e repleto de cursos d’água. Os pesquisadores descrevem a região como uma paisagem formada por rios e córregos sinuosos, lagoas sazonais e vegetação aquática como nenúfares.

Nesse ecossistema, o Kank australis dividia espaço com peixes, insetos, moluscos, anfíbios, tartarugas e pequenos mamíferos. Mas também convivia com predadores muito maiores. Um dos principais predadores da região era o Maip macrothorax, um megaraptorídeo com mais de 10 metros de comprimento, que possivelmente caçava o novo dinossauro.

Homenagem a lenda indígena

De acordo com os autores, o nome Kank faz referência a uma lenda do povo Aonikenk, grupo indígena da Patagônia também conhecido como Tehuelche. Segundo o mito, um grande ema ancestral correu tão fortemente que suas pegadas deixaram marcas no céu, formando a constelação Cruzeiro do Sul. Já o termo “australis” significa “do sul”, em referência à localização do fóssil encontrado.

Os cientistas afirmam que a descoberta ajuda a preencher uma lacuna importante no registro fóssil do sul da Patagônia, mostrando que esses primos dos velociráptors estavam distribuídos por diferentes regiões da América do Sul no fim da era dos dinossauros.

Agora, eles planejam novas escavações na Formação Chorrillo para compreender o ambiente e as criaturas que viviam ali naquele período. “O sítio arqueológico onde Kank foi descoberto forneceu informações valiosas sobre o ambiente do Cretáceo Superior no sul da Patagônia, portanto, a continuidade das escavações ali é crucial”, afirmou Motta. “Encontrar mais fósseis de Kank nos ajudará a compreender melhor sua biologia e seu papel ecológico.”

(Por Sarah Macedo)

Astrogildo Aécio Nunes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posso ajudar?