Fertilizantes entram no centro das decisões que podem definir o custo da próxima safra

A dependência brasileira de fertilizantes voltou ao centro das discussões sobre o futuro do agronegócio e colocou um alerta importante para os produtores de Mato Grosso: em um cenário de juros elevados, câmbio instável, dificuldades de crédito e tensões comerciais internacionais, o planejamento da compra de insumos pode ser tão estratégico quanto a própria decisão sobre o que plantar.
O tema foi acompanhado pela Associação dos Produtores de Soja e Milho de Mato Grosso (Aprosoja MT), por meio da Comissão de Defesa Agrícola, durante o 13º Congresso Brasileiro de Fertilizantes, realizado em 25 de agosto, em São Paulo. Promovido pela Associação Nacional para Difusão de Adubos (ANDA), o encontro teve como tema “O futuro dos fertilizantes: inovação para uma agricultura mais eficiente”.
Logo na abertura, foi anunciado o direcionamento de R$ 4 bilhões ao setor de fertilizantes dentro da terceira etapa do programa Brasil Soberano. O recurso integra um pacote de R$ 18,5 bilhões destinado a setores afetados por tensões comerciais, tarifas norte-americanas e crises geopolíticas, com linhas de financiamento e capital de giro, incluindo participação do BNDES.
Produzir mais não basta
Um dos principais recados apresentados no congresso foi que ampliar a produção nacional de fertilizantes, embora necessário, não será suficiente para resolver a vulnerabilidade brasileira.
O desafio passa também pela eficiência no uso dos nutrientes, pela inovação e por uma estratégia de longo prazo capaz de enfrentar as oscilações do mercado internacional.
Durante os debates, foram citados o fechamento de fábricas brasileiras nos últimos cinco anos e os riscos logísticos provocados pelas disputas comerciais entre China e Estados Unidos. Nesse cenário, a diversificação das fontes de fornecimento, especialmente por meio de relações comerciais com países asiáticos, aparece como uma das alternativas para reduzir riscos.
Para Mato Grosso, a discussão ganha peso ainda maior. O estado é uma potência na produção de soja e milho e possui uma agricultura altamente dependente da disponibilidade de fertilizantes, tornando o setor particularmente sensível a variações de preços, câmbio e logística.
A realidade financeira do produtor também ocupou espaço importante no congresso. Juros elevados, endividamento, clima, câmbio, aumento dos custos de produção e restrições de crédito formam uma combinação que torna cada decisão de compra mais relevante.
Os participantes destacaram ainda o crescimento da área plantada de soja e algodão em Mato Grosso e a possibilidade de que, em 2027, a demanda por fertilizantes supere a oferta.
O acesso ao crédito aparece como uma preocupação especialmente para pequenos produtores. Outro ponto levantado foi a redução das doses de fósforo em determinadas áreas, medida que poderá exigir reposição na próxima safra.
Nesse contexto, uma mesma estratégia não necessariamente serve para todo o estado. As condições de mercado, disponibilidade de produto e capacidade financeira precisam ser analisadas de acordo com cada região produtora.
Indústria nacional e gás natural
A reindustrialização e a descarbonização também foram apresentadas como caminhos para ampliar a capacidade produtiva brasileira e inserir o país em cadeias globais de menor intensidade de carbono.
O debate regulatório trouxe ainda novidades importantes. O PLP 114/2026, discutido durante a abertura do congresso, foi sancionado dois dias depois e transformado na Lei Complementar nº 235, de 27 de agosto de 2026.
A legislação afasta, entre 2027 e 2031, a cobrança do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) sobre mercadorias destinadas a projetos aprovados no programa de desenvolvimento da indústria de fertilizantes.
Também esteve em discussão o Profert, programa voltado à redução da dependência externa de nitrogenados. Entre os obstáculos apontados estão justamente a oferta e a competitividade do gás natural, um dos elementos fundamentais para a produção nacional desses fertilizantes.
O produtor precisa se antecipar
Para a Aprosoja MT, acompanhar essas discussões significa observar de perto fatores que interferem diretamente na formação do custo das lavouras de soja e milho em Mato Grosso.
A elevada dependência externa deixa o produtor exposto às variações do dólar, aos gargalos logísticos, às decisões de grandes fornecedores internacionais e às mudanças provocadas pelo cenário geopolítico.
A conclusão levada do congresso é de que essa dependência não será eliminada no curto prazo. Por isso, enquanto investimentos e políticas públicas buscam ampliar a produção nacional, o produtor precisa trabalhar com planejamento.
Antecipar a aquisição de fertilizantes, acompanhar as condições de crédito, observar o comportamento dos preços e avaliar o momento de comercialização da produção passam a ser decisões cada vez mais conectadas.
No campo, eficiência deixou de significar apenas produzir mais. Em um mercado global marcado por incertezas, significa também comprar melhor, planejar antes e reduzir a exposição aos riscos que estão muito além da porteira.
Fonte: CenárioMT






