Empresa que operava consignado em MT aprisionava consumidores em dívidas crescentes com juros altos, aponta PF

Empresa que operava consignado em MT aprisionava consumidores em dívidas crescentes com juros altos, aponta PF
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A Capital Consig, instituição financeira que oferecia crédito a servidores públicos de Mato Grosso, o MT Card, teria transformado o cartão consignado em uma máquina de endividamento permanente, segundo a investigação da Polícia Federal. Consumidores recebiam dinheiro como se contratassem um empréstimo, mas eram vinculados a um cartão de crédito com juros elevados, descontos contínuos na folha e mecanismos que dificultavam a quitação da dívida.

Em algumas situações, os valores descontados mensalmente seriam insuficientes até mesmo para reduzir o principal do débito. Assim, servidores, aposentados e pensionistas continuavam pagando, mas viam a dívida permanecer aberta ou até crescer.

O modelo está sob investigação na Operação Fugazi, deflagrada nesta quarta-feira (15). A PF cumpriu 13 mandados de busca e apreensão em Mato Grosso, São Paulo e Rio Grande do Sul. A Justiça Federal também determinou o bloqueio de valores e o sequestro de bens móveis e imóveis relacionados aos investigados.

Além de possíveis fraudes contra consumidores, a investigação apura suspeitas de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional e lavagem de dinheiro. Até o momento, não houve condenação dos envolvidos.

A Capital Consig Sociedade de Crédito Direto S.A. é uma fintech sediada em São Paulo e autorizada pelo Banco Central a funcionar como instituição financeira desde novembro de 2020. A própria empresa se apresenta como especializada na concessão de crédito consignado, cartões consignados e operações de antecipação do saque-aniversário do FGTS.

Embora tenha sede fora de Mato Grosso, a Capital Consig mantinha operações ligadas às folhas de pagamento de servidores públicos do Estado. É justamente essa atuação que deu origem às denúncias encaminhadas por sindicatos em 2025.

Segundo a apuração, consumidores seriam procurados com a oferta de um cartão de crédito consignado. Na prática, porém, o produto funcionaria como um empréstimo: o valor era liberado por meio de operações chamadas de “tele saque”, mesmo sem o recebimento do cartão físico ou de faturas regulares.

A diferença estava na forma de pagamento. Em vez de parcelas determinadas, o desconto em folha poderia corresponder apenas ao valor mínimo da fatura. O restante permanecia sujeito aos juros do cartão, alimentando um débito de longa duração.

A PF investiga se os clientes receberam informações claras sobre a natureza do contrato, os juros cobrados, o prazo para encerramento da dívida e o destino dos descontos mensais.

Núcleo de grupo econômico

Os investigadores apontam a Capital Consig como núcleo de um grupo econômico que envolveria outras seis empresas: Clickdigital Participações, Clickbank Instituição de Pagamentos, Bemcardes Benefícios, ABCCARD Cartões, Quiz Holding e Cartos Sociedade de Crédito Direto.

A Cartos é outra instituição financeira autorizada pelo Banco Central. Conforme a investigação, ela teria fornecido parte da estrutura financeira utilizada para operacionalizar os contratos comercializados pela Capital Consig. O Banco Central mantém registro público da instituição e de suas tarifas.

A investigação partiu de uma representação feita pelo escritório do AFG&Taques, do ex-governador e candidato ao Senado Pedro Taques, em favor de seis sindicatos e uma federação de sindicatos de servidores do Estado (SINPAIG-MT, SINDES-MT, SINTEMA/MT, SINTESMAT, SINTEP/MT, SINPOL/MT e FESSP/MT)

Os sindicatos relataram ausência de cartões físicos e faturas, descontos sucessivos que não amortizavam as dívidas e operações que teriam sido apresentadas aos servidores de maneira diferente de seu funcionamento real.

A representação também questionou o crescimento patrimonial das empresas. O MPF encaminhou o caso à Polícia Federal, enquanto o Ministério Público de Mato Grosso abriu investigação civil para examinar possíveis práticas abusivas contra os servidores estaduais.

Outro lado

A Capital Consig negou irregularidades e classificou as medidas da operação como desnecessárias e desproporcionais. A empresa afirmou que é fiscalizada pelo Banco Central, passa por auditorias e entregará todos os documentos solicitados.

Também declarou que colabora com as autoridades, mantém suas atividades normalmente e possui mais de 2 mil colaboradores diretos e indiretos.

Redação RDM Brasília

Astrogildo Aécio Nunes

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