Defensoria da União pede retirada imediata de garimpeiros da Terra Indígena Sararé, em MT

Defensoria da União pede retirada imediata de garimpeiros da Terra Indígena Sararé, em MT
Garimpo tem provocado danos e riscos à integridade do Povo Katitãuhlu - ODOC

A Defensoria Pública da União (DPU) enviou, nesta terça-feira (8), uma recomendação a órgãos federais para a desintrusão (retirada de invasores) imediata da Terra Indígena (TI) Sararé, no estado do Mato Grosso, próxima à fronteira com a Bolívia.

Segundo dados do governo federal, o território ocupa o primeiro lugar no ranking de alertas de garimpo ilegal entre todas as TI do Brasil. Estima-se que 5 mil garimpeiros atuem na região. Além dos impactos à cultura e à autodeterminação do Povo Katitãuhlu, a atividade exploratória provoca danos ao meio ambiente e à subsistência dos indígenas.

A recomendação foi assinada pela Defensoria Nacional dos Direitos Humanos (DNDH), pela Defensoria Regional de Direitos Humanos no Mato Grosso (DRDH/MT) e pelo Grupo de Trabalho dos Povos Indígenas e enviada ao Ministério dos Povos Indígenas (MPI), Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), Polícia Federal, Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) e Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). O prazo para resposta, devidamente fundamentada, é de 15 dias úteis.

A Defensoria reuniu informações, por meio de ofícios enviados aos órgãos, sobre as operações já realizadas no território de Sararé para reprimir o avanço do garimpo ilegal, mas as iniciativas têm produzido apenas resultados temporários, tendo em vista que, após finalizadas, o garimpo retorna às atividades. O documento acrescenta ainda que “as operações costumam ocorrer com intensa reação violenta e armada por parte dos criminosos”, resultando em risco à integridade dos agentes e dos indígenas. A DPU destaca a necessidade de um plano de atuação mais complexo, com estruturas e ações integradas a longo prazo.

Além da imediata da desintrusão, a recomendação pede que sejam instituídas medidas urgentes de proteção ao Povo Indígena Katitãuhlu e ao território, diante da gravidade do cenário; ações definitivas de cessação do circuito de extração ilegal de garimpo, degradação socioambiental, desmatamento e invasão da TI; inclusão da Terra Indígena no calendário de desintrusões ainda no ano de 2025; e adoção de medidas estruturantes para assegurar providências efetivas em defesa dos povos e comunidades tradicionais do Mato Grosso.

Contexto

A TI Sararé é habitada por cerca de 200 indígenas Katitãuhlu, da etnia Nambikwara, organizados em diversas aldeias. O território, que tem acesso facilitado por estar às margens da BR-174, possui cerca de 67.420 hectares de extensão e foi demarcado em 1985. A TI está situada entre os municípios de Conquista D’Oeste, Nova Lacerda e Vila Bela da Santíssima Trindade, na região da fronteira oeste do Mato Grosso.

Embora a atividade garimpeira exista em Sararé desde a década de 1990, ela se intensificou nos últimos dois anos, conforme denúncias feitas pela Associação Indígena Sararé – Katitãurlu, do Povo Indígena Katitãuhlu (Nambikwara do Sararé). “As medidas adotadas até o momento não foram suficientes para impedir a violência estrutural e sistemática contra terras indígenas de menor dimensão, como é o caso da TI Sararé, o que continua a ameaçar a integridade e os direitos fundamentais da comunidade, configurando risco de dano irreparável”, aponta trecho do documento.

A recomendação destaca que, no ano de 2024, foram identificados 570 hectares de destruição pelo Sistema de Detecção do Desmatamento em Tempo Real (Deter), do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o que equivale a cerca de 570 campos de futebol. A facilitação do acesso ao território e ao escoamento do minério extraído também contribui para que a região tenha recorde de alertas de garimpo ilegal. Esta foi a TI com mais máquinas apreendidas e destruídas nos anos de 2023 e 2024.

Impactos

A associação dos indígenas, assistida pela Defensoria, aponta que a presença do garimpo na região tem impedido a manutenção do estilo de vida tradicional na comunidade, com interferência nas atividades cotidianas pelo barulho da operação e passagem das máquinas, além de impactos na realização de rituais e danças pelo medo constante em que vivem. A degradação do solo, da água, da vegetação e da fauna prejudicam a subsistência e a sobrevivência do Povo Katitãuhlu.

De acordo com o documento, o córrego Água Suja, principal recurso hídrico que atravessa a Terra Indígena Sararé, foi removido do leito original, “resultando em buracos e crateras profundas, algumas com mais de 20 metros de profundidade”. O Rio Sararé também já se encontra gravemente poluído pelos rejeitos de garimpo e do mercúrio pelo processo de lavra. Foi verificado no local o uso de mercúrio e cianeto no refino do minério. Ambos são compostos químicos comuns ao garimpo ilegal e extremamente tóxicos, que causam severos e irreversíveis danos à saúde e ao meio ambiente.

O aumento da violência, inclusive com a presença de facções e associações criminosas, também é uma marca da exploração ilegal. “Multiplicam-se os registros de ameaça de morte e de danos à integridade física dos indígenas, bem como os registros de danos e de ameaças de destruição das aldeias, já que o território está sendo ocupado, loteado e explorado ilegalmente”, diz o texto. Em fevereiro deste ano, os assistidos informaram à Defensoria que estão ainda mais frequentes os registros de tiros, e que a comunidade está em uma situação extremamente delicada e vulnerável.

(ODOC)

Astrogildo Aécio Nunes

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