Da curiosidade ao caos: os efeitos da pornografia na saúde mental de crianças e adolescentes

Da curiosidade ao caos: os efeitos da pornografia na saúde mental de crianças e adolescentes
Imagem Pessoal

CHRISTIANE INDAIÁ

Quem tem mais de 30 anos se lembra das bancas de revista e de todas aquelas capas disputando nossa atenção. Havia uma banca em quase toda esquina. Quem nunca deu uma paradinha só para ler uma novidade bombástica sobre alguém famoso ou ler uma notícia impactante? Quem nunca parou para comprar álbuns e figurinhas ou cartões telefônicos? E as revistas de receitas, costura, caça-palavras, palavras cruzadas…? A variedade sempre foi grande, e, para os que buscavam conteúdo adulto, era preciso procurar lá no fundo da banca ou pedir para o dono camuflar um exemplar entre as folhas do jornal.

Quem tinha tal preferência precisava sair de casa para comprar. Existia uma certa dificuldade para consumir esse tipo de artigo. Hoje, essas produções, sejam fotos ou vídeos, estão a um clique de distância, e é sobre esse clique entre crianças e adolescentes que eu escrevo hoje.

Embora a curiosidade sobre sexo seja uma parte normal do desenvolvimento, a exposição regular à pornografia, especialmente desde cedo, pode ter sérios impactos negativos no desenvolvimento emocional, social e neurológico de crianças e adolescentes.

A maioria deles acessa o conteúdo num clique muito antes de os pais começarem a falar com os filhos sobre o assunto; algumas famílias nem tocam nessa pauta. A Common Sense Media relatou que 73% dos adolescentes de 13 a 17 anos consumiram esse material on-line, com mais da metade relatando que foram expostos pela primeira vez antes dos 13 anos. Embora os meninos adolescentes tendam a ter níveis mais altos de exposição do que as meninas da mesma faixa etária, a pornografia é um problema para todos os adolescentes, independentemente do gênero.

O cérebro adolescente é programado para novidades e recompensas. Quando exposto a conteúdo altamente estimulante como este, ele responde com picos de dopamina, o neurotransmissor do “bem-estar”. Com o tempo, o cérebro pode se adaptar a esse nível de estímulo, criando um ciclo de desejos e abstinência que espelha outros tipos de vícios: álcool, drogas, jogos de azar etc.

A pornografia não afeta apenas o cérebro. Ela pode influenciar a forma como os adolescentes pensam sobre seus corpos, seus relacionamentos e sua autoestima. A exposição a conteúdo violento ou degradante contido em parte desse material pode distorcer as expectativas sobre sexo e consentimento, levando à confusão, vergonha e/ou comportamento de risco, diz a psicóloga infantil Nicole Beurkens.

O UNICEF está alarmado com a enorme quantidade de material disponível online, incluindo conteúdo cada vez mais extremo, que é facilmente acessível a crianças de todas as idades. Os esforços para regular o conteúdo e restringir o acesso das crianças a ele não acompanharam as mudanças tecnológicas que alteraram profundamente o cenário para o consumo desse material.

Embora muitas jurisdições tenham efetivamente restringido o acesso de crianças e adolescentes à mídia não digital, inclusive tornando ilegal a distribuição desse produto para crianças ou a exposição intencional delas a este material, os esforços para fazer o mesmo em ambientes digitais não têm sido eficazes.

A juíza da Vara da Infância e Juventude do TJRJ, Vanessa Cavalieri, afirma que os casos de estupros coletivos cometidos entre adolescentes em escolas são mais comuns do que se possa imaginar. Algo que chama a atenção é que o crime é planejado e sua execução é filmada. Ao terem acesso às imagens, ela e sua equipe perceberam que os envolvidos reproduzem claramente cenas que viram em vídeo de sexo explícito, ao qual eles não deveriam sequer ter acesso.

Ainda segundo a delegada, esses jovens simplesmente repetem o comportamento apresentado no contexto pornográfico. Ela faz um alerta sobre plataformas que promovem um ambiente virtual de quase anonimato, que facilitam práticas ilegais e agravam comportamentos violentos entre os jovens, já que não há moderação de conteúdo.

A exposição precoce de crianças à pornografia pode levar a problemas de saúde mental, sexismo e objetificação, violência sexual e outros resultados negativos. Entre outros riscos, quando as crianças assistem a vídeos que retratam atos abusivos e misóginos, elas podem vir a ver esse comportamento como normal e aceitável.

No caso dos adolescentes investigados na Vara da Infância e Juventude do Rio, ao serem avaliados por psiquiatras a pedido da Justiça, esses jovens já apresentam critérios para a psicopatia, como transtornos de personalidade e conduta: não apresentam remorso, nem empatia, nem sensibilidade e não se arrependem de nada.

Vale lembrar que, no início de março deste ano, Vitor Hugo Oliveira Simonin, de 18 anos, um dos jovens envolvidos no estupro coletivo de uma garota de 17 anos no Rio de Janeiro, se apresentou na delegacia com uma camiseta onde se podia ler a frase Regret Nothing (Não se arrependa de nada), citação usada por grupos da ‘’machosfera’’ como um lema de seu comportamento violento e misógino.

Em julho de 2025, o Ministério da Educação Britânico anunciou uma nova disciplina nas escolas: Misoginia e Masculinidade Positiva. O objetivo é reduzir pela metade os casos de violência contra mulheres em até 10 anos.

Um estudo revelou que a maior concentração de homens misóginos está entre adolescentes, ou seja, temos mais adolescentes misóginos do que homens adultos e idosos com este perfil. O mesmo estudo aponta que o acesso precoce ao tema e a comunidades da “machosfera” estão diretamente ligados ao comportamento assustador desses jovens.

Diante desse cenário, ignorar o impacto disso no desenvolvimento de crianças e adolescentes torna-se uma omissão perigosa. Entre a falta de diálogo dentro de casa, a facilidade de acesso no ambiente digital e a dificuldade de regulação, forma-se um terreno fértil para distorções profundas sobre afeto, consentimento e respeito. É urgente que a família e a sociedade assumam seu papel de informar, orientar e proteger, antes que o aprendizado venha das piores referências possíveis.

Christiane Indaiá – Graduada em Letras – Português – Inglês – Literatura UNIVALE – Universidade Vale do Rio Doce
Professora especialista em Língua Inglesa (24 anos de experiência em cursos livres e ensino fundamental I e II)
Experiência em preparatório para FCE Cambridge Exam
Certificada Cambridge
Pós-graduanda em Comunicação Assertiva pela PUC Minas

*Os artigos são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião do Aef News.

Astrogildo Aécio Nunes

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