Como funciona o cérebro de quem fala dois idiomas? Este estudo analisou

Como funciona o cérebro de quem fala dois idiomas? Este estudo analisou
Estudo corrobora com a ideia de que a gramática é sustentada por um mecanismo cerebral compartilhado e flexível, que opera em todos os idiomas — Foto: Pexels

Quem fala dois idiomas usa o mesmo mecanismo cerebral para aplicar regras gramaticais, independentemente da língua escolhida. Essa é a principal conclusão de um estudo da Universidade de Nova York, nos Estados Unidos, publicado no dia 1º de julho no Journal of Neuroscience. Ao analisar a atividade cerebral de pessoas fluentes em inglês e espanhol, os pesquisadores descobriram que o cérebro não parece manter um “sistema de gramática” separado para cada idioma, como se acreditava inicialmente.

“Nossa pesquisa sugere que o cérebro possui um único motor gramatical que alimenta todos os idiomas que falamos — em vez de motores separados para cada um”, explica Esti Blanco-Elorrieta, professora assistente de psicologia e neurociência da NYU e autora sênior do estudo, em comunicado. “Mostramos que os mesmos padrões cerebrais sustentam a gramática em inglês e espanhol, indicando que a linguagem humana pode ser construída a partir de cálculos neurais que transcendem qualquer idioma específico.”

Para chegar a tais resultados, a equipe acompanhou, milissegundo a milissegundo, a atividade cerebral de 23 participantes bilíngues enquanto eles realizavam um exercício simples de transformar palavras do singular para o plural, em inglês e em espanhol. O resultado foi que o padrão observado nos dois idiomas era o mesmo. Isso, inclusive, quando os voluntários precisaram aplicar as regras gramaticais típicas do idioma a palavras inventadas, sem significado conhecido.

Experimento em ação

A gramática é o conjunto de regras que organiza uma língua. É ela que permite, por exemplo, indicar se uma palavra está no singular ou no plural, ou se uma ação aconteceu no passado ou no presente. Até agora, cientistas não sabiam ao certo se pessoas bilíngues acionavam sistemas diferentes do cérebro para cada idioma.

O novo estudo, porém, indica que isso não acontece. Ele sugere que a mesma rede de áreas cerebrais parece ser responsável por processar a gramática em mais de uma língua. “O que é empolgante é que encontramos evidências de que o cérebro pode reutilizar o mesmo mecanismo subjacente em diferentes idiomas, em vez de construir sistemas separados para cada um”, aponta Blanco-Elorrieta, em nota da Society for Neuroscience.

Esse mecanismo compartilhado funciona mesmo quando os idiomas apresentam diferenças na forma como constroem palavras. Em inglês, por exemplo, basta acrescentar a letra “s” para formar o plural de “book” (“livro”), que se torne “books” (“livros”. Em outras línguas, como o árabe, a transformação pode ocorrer no interior da palavra, alterando sons e sílabas.

Os resultados mostraram que o cérebro utiliza um mecanismo neural comum para a gramática em diferentes idiomas, mesmo quando as palavras diferem em som ou estrutura — Foto: Pexels
Os resultados mostraram que o cérebro utiliza um mecanismo neural comum para a gramática em diferentes idiomas, mesmo quando as palavras diferem em som ou estrutura — Foto: Pexels

Para observar o cérebro em funcionamento, a equipe utilizou a magnetoencefalografia, um exame não invasivo que registra os pequenos campos magnéticos produzidos pela atividade dos neurônios. Na prática, a técnica permite identificar quais regiões cerebrais estão ativas em intervalos de milissegundos.

Durante o experimento, os participantes ouviam palavras como “boat” (em inglês) e “barco” (em espanhol) e precisavam transformá-las no plural: “boats” e “barcos.” Em seguida, os pesquisadores repetiram o teste utilizando cognatos — palavras semelhantes em diferentes idiomas — e pseudopalavras, que são termos inventados e sem significado prévio.

Uma das pseudopalavras utilizadas foi “paple”. O objetivo de apresentar essas falas palavras era descobrir se o cérebro continuaria aplicando as mesmas regras gramaticais mesmo diante de expressões que os participantes nunca tinham visto antes.

A resposta foi sim. Segundo os autores, a atividade cerebral observada permaneceu praticamente a mesma, o que reforça a ideia de que a gramática funciona como um mecanismo reutilizável, e não como um conjunto de regras armazenadas separadamente para cada idioma.

Implicações do estudo

Embora a pesquisa tenha analisado apenas falantes de inglês e espanhol, os resultados podem ter implicações para a aprendizagem de idiomas. Se o cérebro realmente utiliza um mecanismo compartilhado, aprender uma nova língua pode exigir menos esforço do que se imaginava, já que não seria necessário construir um sistema gramatical completamente novo.

“Do ponto de vista da aprendizagem de idiomas, se for verdade que existe um mecanismo universal para a linguagem, então pode ser mais fácil aprender novos idiomas se você já domina um idioma”, afirma Blanco-Elorrieta.

Os autores pontuam, no entanto, que ainda é cedo para tirar conclusões definitivas. O estudo avaliou apenas dois idiomas relativamente próximos em sua estrutura, e ainda não se sabe se o mesmo fenômeno ocorre em combinações mais distintas, como mandarim e árabe ou japonês e português.

Especialistas que não participaram da elaboração da pesquisa, ouvidos pela revista Smithsonian, salientam que os resultados ajudam a consolidar uma mudança importante na forma como o bilinguismo é estudado. Além disso, eles observam que suas conclusões são consistentes com estudos anteriores, mesmo que ainda precisem ser confirmadas em um número maior de idiomas.

Outras pesquisas recentes já tinham levantado a hipótese de que o cérebro pode armazenar conceitos de maneira independente da língua utilizada. Agora, o novo trabalho sugere que algo semelhante pode acontecer com a gramática. Se essa hipótese for confirmada, os cientistas acreditam que ela poderá abrir caminho para avanços em áreas como o ensino de idiomas, a reabilitação de pacientes com distúrbios da linguagem e a compreensão de como o cérebro humano desenvolveu sua capacidade de comunicação.

Por Arthur Almeida

Astrogildo Aécio Nunes

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