Como este peixe ancestral usava o pulmão para ouvir debaixo d’água

Como este peixe ancestral usava o pulmão para ouvir debaixo d’água
Reconstrução ultra detalhada de um dos fósseis de peixe analisados, com destaque para suas estruturas internas. Análise permitiu identificar estruturas de conexão entre o pulmão e os ouvidos internos — Foto: L. Manuelli, MHNG/Communications Biology

Ainda que boa parte da forma como sentimos o mundo tenha a ver com o cérebro, é comum que humanos associem órgãos específicos aos sentidos, como os olhos à visão e o paladar à língua. Mas e pulmões com a audição? Pode parecer improvável, mas alguns peixes pré-históricos, que viveram há 240 milhões de anos, usavam seus pulmões para detectar sons debaixo d’água.

Descritos como celacantos, esses peixes foram redescobertos por cientistas no século 20 e chamam a atenção por serem mais semelhantes a vertebrados terrestres do que a outros peixes. Enquanto espécies modernas respiram através de brânquias, os ancestrais celacantos possuíam um pulmão bem desenvolvido e coberto por placas ósseas.

Através de imagens de síncrotron – uma técnica de raio X ultra potente –, pesquisadores Museu de História Natural de Genebra e da Universidade de Genebra identificaram que o órgão do animal pré-histórico tinha mais do que adaptações respiratórias, contribuindo também para funções auditivas dos peixes. A descoberta foi publicada em fevereiro na revista científica Communications Biology.

Conexão entre pulmão e audição

Para comprovar as propriedades adicionais dos pulmões de celacantos antigos, os cientistas analisaram fósseis do período Triássico descobertos na região de Lorena, na França. Segundo comunicado, eles foram examinados pela Instalação Europeia de Radiação Síncrotron, um poderoso acelerador de partículas que permitiu a criação de imagens ultra precisas da estrutura interna dos fósseis preservados.

“As imagens revelaram um pulmão ossificado excepcionalmente bem preservado, apresentando estruturas ósseas semelhantes a asas em sua extremidade. Ao mesmo tempo, o estudo de embriões de celacantos modernos destacou um canal que conecta os órgãos da audição e do equilíbrio, localizados em ambos os lados do crânio”, descreve o comunicado.

Reconstrução da aparência de um celacanto que viveu há 240 milhões de anos, com estruturas internas que o ajudariam a ouvir debaixo d’água — Foto: A. Beneteau, L. Cavin, MHNG/Communications Biology
Reconstrução da aparência de um celacanto que viveu há 240 milhões de anos, com estruturas internas que o ajudariam a ouvir debaixo d’água — Foto: A. Beneteau, L. Cavin, MHNG/Communications Biology

Os cientistas sugerem que esse sistema funcionaria como um sistema sensorial completo em que ondas sonoras captadas pelo pulmão seriam transmitidas para os ouvidos internos, permitindo a percepção de sons debaixo d’água. Uma lógica semelhante pode ser observada em peixes de água doce modernos, que possuem uma conexão entre a bexiga natatória – importante na captação de ondas sonoras – e o ouvido interno.

Apenas duas espécies de celacantos do Triássico apresentaram esse tipo de formação que permitiria a funções auditivas através dos pulmões, mas a descoberta abre possibilidades de estudos sobre outros peixes com as mesmas propriedades e os caminhos evolutivos tomados para que essa adaptação se perdesse ao longo de milhões de anos.

“Essa capacidade auditiva provavelmente foi perdida gradualmente à medida que os ancestrais dos celacantos modernos se adaptaram a ambientes marinhos profundos. Seus pulmões regrediram, tornando esse sistema desnecessário”, diz Lionel Cavin, curador do Museu de História Natural de Genebra e um dos autores do estudo.

(Por Fernanda Zibordi)

Astrogildo Aécio Nunes

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