Como eram as cores das antigas pinturas egípcias? Este museu vai mostrar

Um monumento de 2.700 anos, cujas paredes hoje exibem apenas a tonalidade bege do arenito, vai recuperar virtualmente parte de sua aparência original. A partir de 13 de novembro, o Museu Ashmolean, em Oxford, na Inglaterra, apresentará uma reconstrução digital da decoração pintada do Santuário do Rei Taharqa.
Por meio de projeções de luz, a instalação mostrará como o edifício provavelmente era no passado, com cores vibrantes, como azul, vermelho e amarelo. As tonalidades foram identificadas a partir de vestígios de pigmentos quase imperceptíveis a olho nu, preservados nas pedras ao longo dos séculos. Veja:
Como eram as cores das antigas pinturas egípcias? Este museu vai mostrar
Pigmentos revelam as cores originais
Construído entre 690 e 654 a.C., o santuário ficava no complexo religioso de Kawa, no norte do atual Sudão. A construção foi encomendada pelo rei Taharqa, que governou o Egito e o reino de Kush. Suas paredes foram decoradas com cenas que mostram o soberano fazendo oferendas às divindades, reforçando a relação entre poder político e devoção religiosa.
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Para recuperar a aparência do monumento, os pesquisadores analisaram os resíduos de tinta que permaneceram nas superfícies de arenito. Entre as técnicas empregadas estão a fotografia infravermelha e a imagem hiperespectral, que registra diferentes faixas de luz e permite identificar características dos materiais invisíveis em fotografias convencionais.
Uma das descobertas mais importantes foi a presença do azul egípcio, considerado o pigmento sintético mais antigo conhecido. Por ser produzido artificialmente, por meio de um processo de fabricação, ele se diferencia dos pigmentos obtidos diretamente da natureza. No santuário, a substância foi identificada por registros infravermelhos e parece ter sido utilizada em representações específicas de figuras reais e divindades.
Imagens contam a história de Taharqa
Além de decorar o santuário, as esculturas tinham uma função simbólica. A ideia era transmitir mensagens sobre a relação do rei com as divindades e legitimar seu poder como governante. Não à toa, segundo a revista Smithsonian, algumas cenas retratam episódios da própria história do monumento.
Em uma delas, Taharqa aparece ainda jovem, visitando as ruínas parcialmente soterradas de um templo anterior dedicado a Amon-Rá, uma das principais divindades do antigo Egito. Na representação, o futuro soberano promete restaurar o local.
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O rei também é retratado de diferentes maneiras, de acordo com as tradições políticas e religiosas às quais estava associado. Em uma das cenas, usa a coroa dupla, símbolo de seu domínio sobre o Alto e o Baixo Egito.
Já em outra, aparecem elementos ligados à tradição cuchita, como a cabeça de carneiro e as cobras. Os trajes, os símbolos e as oferendas ajudam a compreender a combinação de referências egípcias e cuchitas na arte e na religião daquele período.
Da escavação no Sudão ao museu inglês
Construído com 236 blocos de arenito, o Santuário de Taharqa foi escavado por arqueólogos britânicos na década de 1930. Embora a estrutura estivesse bem preservada, a pintura original já não era visível. Após a escavação, o monumento foi desmontado e acondicionado em cerca de 200 caixas de madeira, protegidas por fibras de palmeira. O transporte até a Inglaterra envolveu uma longa viagem.
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Os blocos seguiram pelo rio Nilo em uma barcaça, foram levados de trem até o Mar Vermelho e, de lá, embarcados rumo à Europa. Em 1936, o santuário chegou ao Museu Ashmolean, doado pelo governo sudanês em reconhecimento à contribuição do egiptólogo Francis Llewellyn Griffith para a arqueologia da região.
Hoje, o monumento é considerado o único edifício faraônico independente da Grã-Bretanha. Em 2026, sua chegada ao museu completa 90 anos – ocasião que motivou a criação da nova instalação.
Filmes complementam a visita
“Este monumento excepcional oferece uma visão fascinante da arte e da arqueologia do antigo Sudão”, afirma Liam McNamara, curador de Antiguidades e responsável pela área de Antigo Egito e Sudão no Ashmolean, em comunicado. Segundo ele, as projeções permitirão ao público conhecer a decoração original de maneira inédita.
A experiência será complementada por dois filmes produzidos especialmente para a exposição. O primeiro mostra a trajetória do monumento, desde sua construção e o período em que permaneceu soterrado até a escavação e as pesquisas que identificaram os pigmentos. Enquanto isso, o segundo apresenta as cenas esculpidas nas paredes, explicando a identidade do rei e das divindades representadas, além do significado dos trajes, símbolos e oferendas.
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(Por Arthur Almeida)






