Como eram as cores das antigas pinturas egípcias? Este museu vai mostrar

Como eram as cores das antigas pinturas egípcias? Este museu vai mostrar
Pesquisadores descobriram vestígios de azul egípcio no monumento. Trata-se do pigmento sintético mais antigo do mundo, que era tipicamente usado para colorir divindades e membros da realeza — Foto: Fisher Studios, 2026 – cortesia do Museu Ashmolean, Universidade de Oxford

Um monumento de 2.700 anos, cujas paredes hoje exibem apenas a tonalidade bege do arenito, vai recuperar virtualmente parte de sua aparência original. A partir de 13 de novembro, o Museu Ashmolean, em Oxford, na Inglaterra, apresentará uma reconstrução digital da decoração pintada do Santuário do Rei Taharqa.

Por meio de projeções de luz, a instalação mostrará como o edifício provavelmente era no passado, com cores vibrantes, como azul, vermelho e amarelo. As tonalidades foram identificadas a partir de vestígios de pigmentos quase imperceptíveis a olho nu, preservados nas pedras ao longo dos séculos. Veja:

Como eram as cores das antigas pinturas egípcias? Este museu vai mostrar

Pigmentos revelam as cores originais

 

Construído entre 690 e 654 a.C., o santuário ficava no complexo religioso de Kawa, no norte do atual Sudão. A construção foi encomendada pelo rei Taharqa, que governou o Egito e o reino de Kush. Suas paredes foram decoradas com cenas que mostram o soberano fazendo oferendas às divindades, reforçando a relação entre poder político e devoção religiosa.

O santuário foi escavado por arqueólogos na década de 1930 — Foto: Fisher Studios, 2026 – cortesia do Museu Ashmolean, Universidade de Oxford

O santuário foi escavado por arqueólogos na década de 1930 — Foto: Fisher Studios, 2026 – cortesia do Museu Ashmolean, Universidade de Oxford

Para recuperar a aparência do monumento, os pesquisadores analisaram os resíduos de tinta que permaneceram nas superfícies de arenito. Entre as técnicas empregadas estão a fotografia infravermelha e a imagem hiperespectral, que registra diferentes faixas de luz e permite identificar características dos materiais invisíveis em fotografias convencionais.

Uma das descobertas mais importantes foi a presença do azul egípcio, considerado o pigmento sintético mais antigo conhecido. Por ser produzido artificialmente, por meio de um processo de fabricação, ele se diferencia dos pigmentos obtidos diretamente da natureza. No santuário, a substância foi identificada por registros infravermelhos e parece ter sido utilizada em representações específicas de figuras reais e divindades.

Imagens contam a história de Taharqa

Além de decorar o santuário, as esculturas tinham uma função simbólica. A ideia era transmitir mensagens sobre a relação do rei com as divindades e legitimar seu poder como governante. Não à toa, segundo a revista Smithsonian, algumas cenas retratam episódios da própria história do monumento.

Em uma delas, Taharqa aparece ainda jovem, visitando as ruínas parcialmente soterradas de um templo anterior dedicado a Amon-Rá, uma das principais divindades do antigo Egito. Na representação, o futuro soberano promete restaurar o local.

Identificação dos pigmentos coloridos em cada parte do mural — Foto: Fisher Studios, 2026 – cortesia do Museu Ashmolean, Universidade de Oxford
Identificação dos pigmentos coloridos em cada parte do mural — Foto: Fisher Studios, 2026 – cortesia do Museu Ashmolean, Universidade de Oxford

O rei também é retratado de diferentes maneiras, de acordo com as tradições políticas e religiosas às quais estava associado. Em uma das cenas, usa a coroa dupla, símbolo de seu domínio sobre o Alto e o Baixo Egito.

Já em outra, aparecem elementos ligados à tradição cuchita, como a cabeça de carneiro e as cobras. Os trajes, os símbolos e as oferendas ajudam a compreender a combinação de referências egípcias e cuchitas na arte e na religião daquele período.

Da escavação no Sudão ao museu inglês

Construído com 236 blocos de arenito, o Santuário de Taharqa foi escavado por arqueólogos britânicos na década de 1930. Embora a estrutura estivesse bem preservada, a pintura original já não era visível. Após a escavação, o monumento foi desmontado e acondicionado em cerca de 200 caixas de madeira, protegidas por fibras de palmeira. O transporte até a Inglaterra envolveu uma longa viagem.

O mural retrata o rei fazendo oferendas a várias divindades egípcias — Foto: Fisher Studios, 2026 – cortesia do Museu Ashmolean, Universidade de Oxford
O mural retrata o rei fazendo oferendas a várias divindades egípcias — Foto: Fisher Studios, 2026 – cortesia do Museu Ashmolean, Universidade de Oxford

Os blocos seguiram pelo rio Nilo em uma barcaça, foram levados de trem até o Mar Vermelho e, de lá, embarcados rumo à Europa. Em 1936, o santuário chegou ao Museu Ashmolean, doado pelo governo sudanês em reconhecimento à contribuição do egiptólogo Francis Llewellyn Griffith para a arqueologia da região.

Hoje, o monumento é considerado o único edifício faraônico independente da Grã-Bretanha. Em 2026, sua chegada ao museu completa 90 anos – ocasião que motivou a criação da nova instalação.

Filmes complementam a visita

“Este monumento excepcional oferece uma visão fascinante da arte e da arqueologia do antigo Sudão”, afirma Liam McNamara, curador de Antiguidades e responsável pela área de Antigo Egito e Sudão no Ashmolean, em comunicado. Segundo ele, as projeções permitirão ao público conhecer a decoração original de maneira inédita.

A experiência será complementada por dois filmes produzidos especialmente para a exposição. O primeiro mostra a trajetória do monumento, desde sua construção e o período em que permaneceu soterrado até a escavação e as pesquisas que identificaram os pigmentos. Enquanto isso, o segundo apresenta as cenas esculpidas nas paredes, explicando a identidade do rei e das divindades representadas, além do significado dos trajes, símbolos e oferendas.

O processo de reconstrução da cor do mural é bastante detalhado — Foto: Fisher Studios, 2026 – cortesia do Museu Ashmolean, Universidade de Oxford
O processo de reconstrução da cor do mural é bastante detalhado — Foto: Fisher Studios, 2026 – cortesia do Museu Ashmolean, Universidade de Oxford

(Por Arthur Almeida)

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