Cirurgia íntima não é tabu: é sobre escuta, conforto e autonomia

Cirurgia íntima não é tabu: é sobre escuta, conforto e autonomia
Imagem Pessoal

 

BRUNA GHETTI

Por muito tempo, quando uma paciente trazia qualquer incômodo com a própria região íntima, aquele assunto chegava envolto em vergonha. Vinha acompanhado de silêncios longos, de palavras que custavam a sair, de uma culpa que ninguém tinha pedido para carregar. Como se o corpo feminino existisse para suportar, e não para ser cuidado.

Esse cenário está mudando. Não por modismo, não porque surgiu mais um procedimento na lista das tendências estéticas. Mas porque as mulheres estão, aos poucos, se dando permissão para olhar para si mesmas de outro jeito. Com mais atenção. Com mais honestidade. E com uma generosidade consigo mesmas que, durante muito tempo, lhes foi negada.

Falar de saúde íntima feminina é falar de coisas concretas: o desconforto que aparece na hora de escolher uma roupa, a dor durante o exercício, o incômodo que acompanha a vida sexual, a insegurança que vai minando a autoestima sem que a mulher consiga nomear exatamente de onde ela vem. São questões reais, que afetam o dia a dia de forma silenciosa, e que merecem ser levadas a sério.

A estética também tem seu lugar legítimo nessa conversa. Sentir-se bem com o próprio corpo não é frescura nem vaidade vazia. Faz parte de uma relação mais honesta e mais gentil consigo mesma.

A cirurgia íntima, que por muito tempo foi tratada com preconceito ou reduzida a algo superficial, precisa ser entendida dentro desse contexto maior. Há mulheres que convivem com hipertrofia dos pequenos lábios há anos. Outras lidam com alterações que vieram com o parto, com o envelhecimento, com o próprio tempo. E há ainda aquelas que chegam ao consultório trazendo inseguranças alimentadas por comparações impossíveis, por padrões que nunca foram reais.

É exatamente aí que a responsabilidade médica se torna mais importante. Antes de qualquer indicação cirúrgica, preciso escutar. Entender de onde vem aquela queixa, o que de fato está incomodando, o que essa mulher espera encontrar do outro lado dessa decisão. Porque nem toda queixa precisa de cirurgia. Muitas vezes, o que transforma não é o bisturi, mas o acolhimento, a orientação, o simples fato de ser ouvida de verdade.

Quando a cirurgia é indicada, ela precisa ser tratada com a seriedade de qualquer outro procedimento médico. Não é solução mágica. Não é capricho. E jamais deveria ser motivada por pressão de parceiro, de padrão, de qualquer voz que não seja a da própria mulher. É uma decisão pessoal, informada, consciente. Cada corpo é único, e não existe um modelo a ser atingido.

O que mais me chama atenção, na prática, não é o aumento da procura por esses procedimentos. É o que essa procura revela: mulheres fazendo perguntas que antes engoliam, recusando desconfortos que antes aceitavam como normais, ocupando espaço em consultórios para falar de si mesmas sem pedir desculpa por isso. Isso é uma mudança real.

Mas é preciso cuidado para que esse movimento não vire mais uma forma de cobrança disfarçada de liberdade. A escolha de fazer uma cirurgia íntima só faz sentido quando caminha ao lado da escolha de não fazer nada. Empoderamento de verdade é poder decidir sem culpa, sem medo, sem precisar justificar para ninguém.

Saúde íntima feminina não é sobre alcançar nenhum ideal. É sobre viver com conforto dentro do próprio corpo, com segurança e com dignidade. E quando uma mulher chega a esse lugar, seja qual for o caminho que escolheu, ela já deu o passo que mais importa.

BRUNA GHETTI é ginecologista, referência em tratamentos íntimos e longevidade

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Astrogildo Aécio Nunes

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