Cientistas descobrem oceano escondido sob a superfície de lua de Urano

Urano tem 27 luas conhecidas, todas batizadas com nomes de personagens literários. Entre elas está Miranda, uma homenagem à personagem de A Tempestade, de William Shakespeare. Em um estudo recente, pesquisadores sugerem que essa lua pode abrigar um oceano subterrâneo.
Cientistas mapearam rachaduras e sulcos na superfície de Miranda e propuseram que essas formações teriam sido causadas pela presença de um oceano entre 100 e 500 milhões de anos atrás. A descoberta foi publicada no dia 15 de outubro na revista Planetary Science Journal.
A pesquisa indica que o oceano da lua de Urano tinha pelo menos 100 km de profundidade. Ele era coberto por uma crosta de gelo de até 30 km de espessura e preenchia quase metade do satélite, que tem um raio de 235 km.
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Imagens capturadas em 1986 pela sonda Voyager 2, da Nasa, mostram atividade geológica recente, com terreno sulcado de escarpas ásperas e áreas com crateras. Isso sugere que Miranda pode ter sido tectonicamente ativa, e que essas estruturas seriam consequência de forças de maré e aquecimento dentro da lua.
“Isso ajuda a construir a história de que algumas dessas luas de Urano podem ser realmente interessantes – e que pode haver vários mundos oceânicos em torno de um dos planetas mais distantes do nosso Sistema Solar, o que é empolgante e bizarro”, disse Tom Nordheim, cientista planetário do Laboratório de Física Aplicada (APL) da Universidade Johns Hopkins, nos Estados Unidos, em comunicado.
Forças de maré
Os pesquisadores acreditam que as forças de maré entre Miranda e suas luas vizinhas foram a chave para a formação de um oceano subterrâneo. Essas forças são causadas pela gravidade: quando uma lua orbita um planeta, ela é puxada para cima e para baixo por esse planeta e pelas outras luas ao seu redor.
Esses puxões podem se intensificar em uma configuração chamada ressonância orbital, que ocorre quando há uma relação fixa entre os períodos de órbita de duas ou mais luas. Por exemplo, no caso de Júpiter, as luas Io e Europa têm uma ressonância de 2:1. Ou seja, a lua Europa completa uma volta a cada duas voltas de lo em torno do planeta.
A movimentação cria forças que mantêm um oceano sob a superfície de Europa e, além disso, gera atrito e calor, mantendo o interior das luas quente. Mas não só isso: a atividade ainda deforma esses satélites e cria tensões que racham a superfície, levando a características geológicas que observamos em imagens.
Oceano congelado?
Quando a configuração orbital sai de sincronia, o interior da lua passa a esfriar e solidificar. Mas, no caso de Miranda, é provável que o oceano não tenha congelado completamente. Se ainda estivesse gélido, haveria rachaduras que não foram observadas nesse satélite.
Com isso, os cientistas concluíram que a lua, que orbita o penúltimo planeta do sistema solar, pode ter hoje um oceano abaixo de sua superfície nos dias atuais. Ainda que raso, “a sugestão de um oceano dentro de uma das luas mais distantes do sistema solar é notável”, destacou Nordheim.
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Miranda é a menor lua das cinco grandes luas de Urano e tem cerca de um sétimo do tamanho da nossa Lua. Isso somado à sua idade avançada era considerado sinal de que ela seria uma bola de gelo. O mesmo se pensava da lua Encélado, de Saturno, até se descobrir que ela abrigava um oceano e processos geológicos ativos.
“Não saberemos com certeza se ela [Miranda] tem um oceano até voltarmos e coletarmos mais dados”, alegou Nordheim. “Estamos extraindo o máximo de ciência que podemos das imagens da Voyager 2. Por enquanto, estamos entusiasmados com as possibilidades e ansiosos para voltar a estudar Urano e suas possíveis luas oceânicas em profundidade.”
Miranda foi descoberta em 1948 por Gerald Kuiper. Antes dela, as duas primeiras luas de Urano haviam sido descobertas em 1787, nomeadas Oberon e Titânia (em homenagem ao rei e à rainha das fadas em Sonho de uma Noite de Verão, de Shakespeare). Mais tarde, em 1851, foram descobertas as luas Ariel e Umbriel (nomes de personagens de um poema do britânico Alexander Pope). Eventualmente, outros satélites de Urano foram identificados a partir de telescópios e da viagem de Voyager 2 em 1986.
(Beatriz Herminio)






