Casal de Mato Grosso troca corredores do Congresso pelas estradas mais isoladas da América do Sul

Durante muito tempo, Cuiabá carregou um apelido curioso. Isolada dos grandes centros do país, era tratada como o “fim do mundo”. Nada parecia tão distante como a Capital de Mato Grosso. Uma antiga revista salesiana chegou a brincar – ou fala sério – sobre essa condição geográfica ao afirmar no final de um texto sobre a missão dos padres: “No fim do mundo existe um morro. Atrás desse morro existe uma cidade. Essa cidade se chama Cuiabá.”
O tempo passou. As estradas encurtaram distâncias. Mas a expressão permaneceu na memória de muita gente. Quem viveu o Salesiano por volta do começo dos anos 70 deve se lembrar dessa referência. Talvez por isso a história da jornalista mato-grossense Roseane Nascimento tenha um simbolismo especial.
Natural de Rondonópolis, ela é o marido, Elson Jr, um especialista em Tecnologia da Informação, decidiram conhecer outro fim do mundo. De agora, o verdadeiro fim do mundo. Aquele que fica a mais de 7 mil quilômetros, no extremo sul da Argentina.
Juntos, percorreram 14 mil quilômetros – praticamente uma América do Sul sobre uma motocicleta BMW R 1250 GS até chegar a Ushuaia, cidade conhecida internacionalmente como a porta de entrada do Fim do Mundo.
A viagem durou pouco mais de 30 dias.
Porém, a aventura do casal começou muito antes de o motor ser ligado. Na verdade, existe uma história que escora essa aventura.
Durante quase quinze anos, Roseane e Elson viveram uma rotina completamente diferente. Construíram suas carreiras profissionais em Brasília, trabalhando nos bastidores da Câmara dos Deputados e do Senado, cada um na sua área. Fora do trabalho, porém, existia uma paixão que crescia silenciosamente: a paixão de viajar, colocar o pé na estrada, desvendar, conhecer.
A primeira grande aventura aconteceu ainda como mochileiros. Durante 25 dias, eles percorreram Bolívia, Chile e Peru. Conheceram o Salar de Uyuni, o Deserto do Atacama e Machu Picchu. Com eles, um casal de colegas de trabalho que também aceitaram aquele desafio.
Foi, em verdade, uma viagem transformadora. Mais do que visitar pontos turísticos, descobriram o prazer dos caminhos improvisados, das pequenas cidades, das conversas inesperadas e da liberdade de seguir viagem sem um roteiro rígido.
A moto apareceu em 2019. Os primeiros passeios foram curtos. Depois vieram viagens por Mato Grosso, pelo Sul do Brasil e, naturalmente, o desejo de seguir cada vez mais longe.
“Percebemos que aquela moto podia nos levar a lugares que até então existiam apenas nos nossos sonhos”
Roseane Nascimento, jornalista

Em 2024, decidiram repetir um roteiro conhecido. Mas de um jeito completamente diferente. Voltaram ao Salar de Uyuni e ao Deserto do Atacama. Agora, sobre duas rodas. O trecho mais difícil ligava Uyuni ao Atacama por uma das regiões mais isoladas do Altiplano boliviano. A maioria das agências recusou acompanhar a travessia. Outras aconselharam o casal a desistir. Somente uma empresa aceitou servir de apoio, mas não prometia nada.
Durante três dias, Roseane e Elson atravessaram uma paisagem quase sem vestígios de civilização. Não havia placas. Não havia estradas definidas. O GPS deixava de fazer sentido. Foram três dias completamente desconectados: sem internet, sem telefone, sem qualquer distração além da própria natureza. A altitude se aproximava dos cinco mil metros.
Nessa passagem, o frio chegava aos dez graus negativos. As câmeras descarregavam por causa das baixas temperaturas. Em um único dia, a motocicleta tombou quatro vezes. E, durante toda a travessia, eles não cruzaram com nenhuma outra moto.
Em compensação, conheceram paisagens que dificilmente serão esquecidas: salares intermináveis, lagoas cobertas por flamingos, vulcões, gêiseres, o Deserto de Dalí e uma fauna andina que parecia saída de um documentário.
No final, descrevera a travessia como uma das experiências mais marcantes de suas vidas. Até então!
Em janeiro agora, o casal iniciou a maior viagem de suas vidas. Saíram de Cuiabá, aquela que no passado era chamada de cidade que ficava atrás do morro do fim do mundo e que hoje quando seu nome é menciona todos começam a suar: calor, 34 graus na sombra.
E foi dessas condições que eles partiram. Passaram por Rondonópolis para se despedir da família – o que fazia algum sentido abstrato. E andaram. Da garupa, Roseane foi registrando cada momento.
“Fora os momentos em que ajudava Elson sobre alguma decisão a tomar, ocupava um lugar privilegiado, ‘confortável’ se assim pode dizer, porque apreciava cada paisagem. Mas nem tudo foi assim” – conta.
Cruzaram Uruguai, Argentina e Chile até alcançar Ushuaia. Na Ruta Nacional 3, descobriram que nenhuma imagem consegue traduzir o vento patagônico. Rajadas próximas de 100 quilômetros por hora empurravam constantemente a motocicleta para fora da pista. Algumas vezes, Elson precisava pilotar inclinado durante quilômetros, enquanto ela – como ela mesmo conta – fazia força para manter o equilíbrio enquanto o vento levantava seu capacete.
“Assistimos a muitos vídeos antes da viagem. Mas nenhum conseguiu mostrar o que realmente é enfrentar aquele vento. A frase que mais repetimos foi: ‘No YouTube era facinho’.”
Depois vieram a travessia do Estreito de Magalhães, as sucessivas aduanas entre Argentina e Chile e, finalmente, a chegada ao portal de Ushuaia. Ali, o destino deixou de ser apenas um lugar no mapa: representava todas as dificuldades vencidas até aquele momento.
Muito além da chegada
A volta para casa ainda reservava novos desafios. Vieram Torres del Paine, o Glaciar Perito Moreno, El Chaltén, o Fitz Roy, a Ruta 40. Veio os Caracoles, uma das estradas mais espetaculares da Cordilheira dos Andes.
Também houve dias extremamente difíceis, horas sem encontrar uma única pessoa. Sem árvores, sem posto de combustível, e, para um mundo que cobra conexão, sem sinal de telefone, logo, sem GPS.
No dia mais frio da viagem, as roupas ainda estavam molhadas da chuva da véspera. As mãos congelavam, os pés perdiam a sensibilidade, o corpo tremia involuntariamente.
Mesmo assim, bastava surgir um lago azul-turquesa, um grupo de guanacos atravessando a estrada ou um glaciar refletindo o sol para lembrar por que eles haviam escolhido estar ali.
“Uma das melhores coisas da viagem são as pessoas que conhecemos ao longo do caminho. Moradores e viajantes. Sempre atenciosos e interessados em saber sobre nossa viagem. Tiraram fotos, nos deram dicas sobre o trajeto, lugares para conhecer, comidas para experimentar. Trocamos experiências e viraram amigos da estrada. Essa é uma troca extraordinária” – assinala Elson.
A estrada fortaleceu o casamento
Roseane costuma dizer que, embora apenas um pilote, a viagem sempre pertence aos dois. As decisões são compartilhadas. Os medos também.
“Quando um de nós está chegando ao limite, o outro precisa perceber. A estrada nos ensinou a confiar ainda mais um no outro” – ela filósofa.
É hora de parar, respirar e até de replanejar para seguir viagem. Foi na estrada que descobriram que parceria também se mede em quilômetros.
Como jornalista, Roseane decidiu registrar cada expedição. As viagens deram origem a uma websérie publicada nas redes sociais e no YouTube. A proposta, segundo ela, não é vender uma aventura perfeita; é mostrar exatamente como ela acontece: com frio, quedas, imprevistos, mudanças de rota, e, claro, cansaço – muito cansaço. E muita improvisação.
“Viajar de moto não é desafiar o perigo. É aceitar que nem tudo estará sob controle”
Elson Jr.
O próximo destino
Obviamente, o mapa continua aberto sobre a mesa. Já está definido: o próximo roteiro será pelo Peru com sua épica Trilha Inca até Machu Picchu, o oásis de Huacachina para, o Cânion do Colca e tanto mais.
Toda vez que voltam para casa fazem a mesma promessa: descansar. Passam alguns dias, dormem, organizam as mala, e, inevitavelmente, abrem o mapa outra vez.
A pergunta nunca muda: “Quando partiremos?”.
Até lá, eles vão nutrindo realizar o grande sonho, que está ‘um pouco’ mais ao norte. Acreditem: o casal quer atravessar as três Américas de motocicleta até chegar ao Alasca.
Tudo bem! Depois de conhecer o Fim do Mundo, eles descobriram que os limites do mapa quase sempre existem apenas antes da partida.
SERVIÇO
Quando retornarem a estrada, ao invés de Google Maps, Windy e tantos outros aplicativos, as condições meteorológicas, as planilhas para controlar gastos, e a navegação nos sites para descobrir combustível mais barato, muitos deles não funcionando adequadamente, estarão a apenas um clique. Como TI, Elson Jr conta que desenvolveu um app que promete entregar tudo. “Por ai na Rota” pode ser baixado no endereço:
https://narota.poraidebig.com,br
EDILSON ALMEIDA | Redação RDM Brasília







