Capacitação em hanseníase forma agentes para diagnóstico precoce e deve alcançar todo estado

Capacitação em hanseníase forma agentes para diagnóstico precoce e deve alcançar todo estado
Foto: Matheus Cassimiro/Assessoria de Gabinete

O primeiro-secretário da Assembleia Legislativa de Mato Grosso (ALMT), deputado estadual Dr. João (MDB), abriu nesta quarta-feira (15), no auditório Milton Figueiredo, na sede do Parlamento, a 1ª Capacitação em Hanseníase para Agentes Comunitários de Saúde, dando início a um projeto piloto que pretende qualificar 86 profissionais de Várzea Grande e, posteriormente, expandir a iniciativa para os 142 municípios do estado, com foco na identificação precoce, diagnóstico e tratamento da doença.

A ação, de acordo com o primeiro-secretário, é resultado da atuação da Frente Parlamentar de Atenção à Hanseníase da ALMT, criada pelo parlamentar. “O ponto de partida é a capacitação de 86 agentes comunitários de saúde, com a ampliação posterior para profissionais de enfermagem e médicos, formando uma rede preparada para identificação precoce, diagnóstico e tratamento da doença. É uma virada de chave no tratamento de hanseníase em Mato Grosso”, afirmou.

Dr. João explicou que o objetivo é alcançar todos os 142 municípios de Mato Grosso por meio de um cronograma estruturado e regionalizado, com treinamentos organizados por polos que reúnem diversas cidades. Para viabilizar a iniciativa, ele informou a destinação de R$ 2 milhões, por meio de emenda à Lei Orçamentária Anual (LOA), já disponibilizados à Secretaria de Estado de Saúde.

O deputado defendeu que a estratégia busca retirar o estado da posição negativa nos índices da doença no país, promovendo qualidade de vida à população e garantindo que nenhuma região fique desassistida no processo de erradicação da hanseníase.

O conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso (TCE) e presidente da Comissão de Saúde da Corte, Guilherme Maluf, disse que o enfrentamento à hanseníase tem sido tratado como um dos pontos prioritários de controle pelo órgão. Segundo ele, foi estruturado um plano de ação específico para combater a doença, já apresentado e aprovado no âmbito do Tribunal, com foco na ampliação do diagnóstico precoce e na redução dos casos negligenciados.

Durante agenda na Assembleia Legislativa, Maluf ressaltou a importância da capacitação de profissionais da saúde como estratégia essencial no combate à doença. A formação de mais de 80 agentes comunitários de saúde de Várzea Grande, conforme pontuou, permitirá ampliar a identificação de casos nas comunidades, enfrentando um dos principais desafios da hanseníase: o diagnóstico tardio, que contribui para a manutenção da cadeia de transmissão.

O conselheiro também enfatizou que a iniciativa integra um conjunto de ações articuladas pelo TCE, a partir da Nota Recomendatória nº 9, elaborada pela Comissão de Saúde. O documento orienta gestores públicos sobre medidas necessárias para o enfrentamento da doença, considerada milenar e ainda cercada por forte estigma social, o que dificulta o acesso ao tratamento e a busca por diagnóstico.

Maluf destacou ainda a atuação conjunta com o Legislativo estadual, especialmente com a criação da frente parlamentar de combate à hanseníase, liderada pelo deputado Dr João. Segundo ele, a articulação institucional tem produzido resultados concretos, como o início das capacitações e o fortalecimento das políticas públicas voltadas ao tema.

Outro ponto considerado fundamental pelo conselheiro é a garantia de recursos financeiros para a execução das ações. Ele afirmou que foram destinados cerca de R$ 2 milhões no orçamento estadual para apoiar políticas de combate à hanseníase, reforçando que não é possível avançar na área da saúde pública sem investimento. Nesse contexto, o Tribunal de Contas também recomendou a criação de frentes e mecanismos institucionais que assegurem a continuidade das ações de enfrentamento à doença.

A fisioterapeuta e assessora do Ministério da Saúde, Geisa Campos, afirmou que o papel estratégico dos Agentes Comunitários de Saúde (ACS) é como elo entre a população e os serviços de saúde, especialmente no enfrentamento à hanseníase. Segundo ela, esses profissionais são fundamentais na identificação precoce de casos suspeitos, na divulgação dos sinais e sintomas da doença e na orientação sobre a importância do tratamento e da avaliação de contatos intradomiciliares nas unidades básicas.

Campos afirmou ainda que a capacitação abordará diagnóstico, tratamento e a atuação integrada das equipes da atenção básica, reforçando a relevância do trabalho coletivo em um estado como Mato Grosso, considerado endêmico, onde a busca ativa de casos é essencial para o controle da doença.

O promotor de Justiça de Mato Grosso, Milton Mattos da Silveira, destacou o papel estratégico dos agentes comunitários de saúde e de endemias no fortalecimento das políticas públicas, especialmente no enfrentamento de doenças, que segundo ele, tem atuação decisiva em ações como a vacinação, em que o contato direto com a população contribui para ampliar a adesão.

“Esse trabalho de convencimento feito nas visitas domiciliares é uma das formas mais eficazes de melhorar os índices de saúde”, afirmou. Para o promotor, a capacitação contínua desses agentes permite identificar precocemente possíveis casos de endemias e encaminhá-los rapidamente para atendimento médico, garantindo maior eficiência no tratamento.

Milton Mattos também ressaltou que o elevado número de registros de hanseníase em Mato Grosso está diretamente relacionado à política ativa de testagem adotada no estado. De acordo com ele, enquanto outras regiões ainda enfrentam subnotificação por falta de exames, Mato Grosso consegue mapear melhor a incidência da doença, o que possibilita ações mais eficazes de combate.

O promotor enfatizou ainda a importância da união entre as instituições, como Assembleia Legislativa, Ministério Público do Estado (MPE), Tribunal de Contas e o governo estadual, destacando investimentos já realizados e superiores a R$ 2 milhões no enfrentamento da doença. “Com essa integração de esforços, tenho convicção de que vamos avançar no controle e, futuramente, vencer essa grave enfermidade”, concluiu.

O agente comunitário de saúde de Várzea Grande, Júlio César de Carvalho, que atua há 14 anos na Comunidade Sadia 3, relatou que o trabalho de acompanhamento domiciliar tem sido fundamental para a identificação de casos de hanseníase no município. Segundo ele, as visitas periódicas às residências permitem observar sinais iniciais da doença e encaminhar rapidamente os pacientes para avaliação médica.

De acordo com o agente, o cenário mudou ao longo dos anos, principalmente com a ampliação do acesso ao tratamento. “Antes não tinha esse acompanhamento como hoje. Agora, quando há suspeita, o médico vai até a casa do paciente, faz a avaliação e inicia o tratamento”, explicou. Ele destaca que o atendimento domiciliar facilita a adesão e garante maior controle da doença.

Júlio César atua na região da Sadia 3 e atende também outras comunidades próximas, como Pé de Galinha, Umuarama e São José do Vista Alegre. Nessas localidades, o trabalho integrado entre agentes de saúde e equipes médicas tem fortalecido as ações de prevenção, diagnóstico e tratamento da hanseníase.

A representante da Secretaria de Estado de Saúde (SES-MT), Janaina Pauli, disse que é necessário somar esforços para reduzir o número alarmante de pacientes que abandonam o tratamento da hanseníase em Mato Grosso. Segundo ela, o estado historicamente apresenta caráter endêmico devido à busca ativa de casos, mas o principal desafio atual é o abandono terapêutico, agravado pelo estigma da doença.

Nesse contexto, ressaltou a parceria com a Assembleia Legislativa para capacitar agentes comunitários de saúde, que atuam como ponte na sensibilização de pacientes que, muitas vezes, evitam procurar atendimento por vergonha, apesar de o tratamento ser gratuito pelo Sistema Único de Saúde (SUS). “É preciso alcançar 100% de cura dos casos notificados, fortalecendo o enfrentamento integrado desse problema de saúde pública no estado”, disse Pauli.

A secretária de Saúde do município de Várzea Grande, Valéria Nogueira, afirmou que do empenho contínuo do município no enfrentamento à hanseníase, ressaltando que, desde 2019, a gestão tem atuado de forma ativa e estratégica para garantir maior eficiência e eficácia nas ações de saúde pública.

Segundo ela, a doença ainda representa um problema grave e recorrente, especialmente em razão da interrupção do tratamento por parte dos pacientes. Nesse contexto, enfatizou a importância do trabalho dos agentes comunitários de saúde na busca ativa e no acompanhamento dos pacientes, como medida fundamental para assegurar a adesão ao tratamento e, consequentemente, reduzir a disseminação da doença.

Astrogildo Aécio Nunes

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