Brasileiro recria face do faraó egípcio Seqenenre-Taa-II a partir de múmia

Brasileiro recria face do faraó egípcio Seqenenre-Taa-II a partir de múmia
Rosto de faraó é reconstituído em 3D por dupla de pesquisadores — Foto: Cicero Moraes e Michael Habicht

Por meio de softwares de aproximação e reconstrução facial forense, pesquisadores conseguiram chegar à aparência do faraó Seqenenre-Taa-II, que governou o Egito entre 1558 e 1553 a.C. As imagens resultantes do estudo foram publicadas na revista OrtogOnLineMag, em artigo assinado pelo designer 3D brasileiro Cícero Moraes e pelo arqueólogo suíço Michael Habicht.

Seqenenre-Taa-II

Conhecido como “o bravo”, Seqenenre-Taa-II foi morto há mais de 3.500 anos. Embora existam poucos registros do período, acredita-se que o seu reinado tenha coincidido com a ocupação do território do Egito pelos hicsos (povo originário das regiões da Síria e Canaã).

múmia do faraó é estudada desde 1886 e, ao longo dos anos, foi objeto de análise de muitos especialistas. Estima-se que, próximo da morte, tinha uma altura de 1,67m (± 3 cm) e 40 anos de idade.

Imagem postmortem com lesões — Foto: Cícero Moraes
Imagem postmortem com lesões — Foto: Cícero Moraes

Apesar de haver discordâncias entre os especialistas (como, por exemplo, em relação à ascendência de Seqenenre-Taa-II), todos concordam que o governante egípcio provavelmente morreu em decorrência de um golpe na cabeça. Chegou-se a essa conclusão pela observação de um ferimento logo acima do osso da sobrancelha da múmia.

Pelas anotações dos especialistas, o tamanho do corte varia de 54 a 70mm e foi causado por um machado afiado. As imagens do faraó geradas por Moraes e Habicht ilustram a lesão em seu rosto em uma versão que considera a violência que levou ao seu assassinato.

Imagem postmortem do faraó com machados — Foto: Cícero Moraes
Imagem postmortem do faraó com machados — Foto: Cícero Moraes

Como foram feitas as imagens?

A aproximação e reconstrução facial forense é uma técnica que gera e sugere a face de um indivíduo a partir de seu crânio. Não se trata de uma ferramenta de identificação de sujeito – como, por exemplo, testes de DNA ou análise da arcada dentária – mas, sim, de reconhecimento de características, o que, posteriormente, pode levar à identificação.

Como o crânio de Seqenenre-Taa-II apresenta algumas regiões comprometidas ou fora das suas posições originais, para que fosse reconstruído em um modelo 3D, o projeto de Moraes e Habicht precisou considerar os dados, imagens e mensurações das anotações históricas da múmia. Essas informações foram cruzadas em um desenho vetorial pelo software Inkscape.

Visão frontal (A) e inferior (B) da múmia de Seqenenre, na publicação de Smith (1912) — Foto: Cícero Moraes
Visão frontal (A) e inferior (B) da múmia de Seqenenre, na publicação de Smith (1912) — Foto: Cícero Moraes

Com isso, o crânio de um doador virtual foi importado e adaptado às dimensões particulares do faraó, em um processo de deformação anatômica. O processo de modelagem foi efetuado no software Blender 3D utilizando dados de tomografias computadorizadas de indivíduos vivos do continente africano.

Posição dos machados no crânio — Foto: Cícero Moraes
Posição dos machados no crânio — Foto: Cícero Moraes

Por meio dos registros sobre as lesões no rosto de Seqenenre-Taa-II, também foi possível fazer um estudo sobre o posicionamento da arma responsável pelo assassinato e, assim, verificar a deformação causada pela quebra dos ossos. Com isso, foi criada uma versão do rosto com os ferimentos e a representação do machado.

Em abordagem mais subjetiva do processo, os cabelos foram configurados seguindo as avaliações indicadas pelos especialistas em 1889 e 1912, que sugerem fios pretos, finos e cacheados. Por sua vez, para a coloração da pele, optou-se por seguir a pigmentação generalizada do ícone egípcio encontrado nas peças artísticas da época.

Visão frontal objetiva do faraó — Foto: Cícero Moraes
Visão frontal objetiva do faraó — Foto: Cícero Moraes

Diferentes formas de representação

Segundo os autores, as imagens geradas podem ser divididas em quatro grupos. Cada uma delas apresenta um objetivo específico e prioriza um aspecto do estudo realizado:

  • Imagens objetivas em vida: É a representação mais robusta e busca a maior objetividade dentre as modelagens físicas. Por isso, apresenta os olhos fechados, e não tem sobrancelhas ou cílios, pois não se sabe com certeza o formato dos olhos. A escala de cinza também distancia a pigmentação subjetiva daquilo que foi baseado nos registros oficiais;
  • Imagens coloridas em vida: São imagens com coloração da pele, olhos abertos, cílios e sobrancelhas. Trata-se de uma abordagem com elementos subjetivos, mas dado o contexto de apresentação, são mais compatíveis com a humanização necessária para comunicação com o público geral;
  • Imagens postmortem com machados: Imagens com os lábios levemente abertos, a língua entre os dentes, algumas lesões e deformação facial que levam em consideração a violência sofrida no momento da morte do faraó. A coloração apresenta uma face mais pálida e optou-se por não ilustrar a presença do sangue na cena;
  • Imagens postmortem com lesões: Imagens com os lábios levemente abertos, a língua entre os dentes, algumas lesões e deformação facial por conta delas, sem as potenciais armas que causaram os ferimentos. A coloração apresenta uma face mais pálida e, novamente, optou-se por não ilustrar a presença do sangue na cena.
Imagem colorida em vida do faraó — Foto: Cícero Moraes
Imagem colorida em vida do faraó — Foto: Cícero Moraes

(Por Redação Galileu)

Astrogildo Aécio Nunes

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