Antártida é casa para micróbios que não existem em nenhum outro lugar da Terra

Antártida é casa para micróbios que não existem em nenhum outro lugar da Terra
Pesquisadores compararam mais de 100 cepas de bactérias da Antártida com quase 500 vindas de outras regiões do mundo — Foto: Hugo Sykes/Pexels

Quando se fala em espécies exclusivas da Antártida, animais adaptados ao frio extremo podem ser os primeiros a vir à mente. Mas uma parte única da biodiversidade do continente está escondida no solo. Pesquisadores encontraram evidências de que determinadas bactérias presentes em território antártico são endêmicas, ou seja, não são encontradas naturalmente em nenhum outro lugar da Terra.

A descoberta, que foi publicada em 31 de agosto na revista Proceedings of the National Academy of Sciences, contraria uma antiga ideia da microbiologia de que, devido à facilidade com que organismos microscópicos podem se dispersar por grandes distâncias, eles estariam distribuídos por todo o planeta. Micróbios podem ser transportados pela atmosfera ou pelas correntes oceânicas, por exemplo. A Antártida, no entanto, há tempos era considerada uma possível exceção por seu isolamento geográfico e pelas condições extremas de seu ambiente.

Para investigar essa possibilidade, cientistas liderados pelo pós-doutorando Nick Dragone analisaram bactérias do grupo Arthrobacter. Esses microrganismos são encontrados em solos de diversas regiões do mundo, dos trópicos à Antártida, e podem ser cultivados em laboratório — característica importante para que a equipe pudesse estudar como diferentes cepas respondem às condições ambientais.

Análise de cepas diversas

Os pesquisadores analisaram mais de 100 cepas originárias da Antártida e quase 500 de outros locais ao redor do mundo. Além de amostras do continente gelado, foram considerados ambientes igualmente frios ou secos, como o Planalto Tibetano, Svalbard, no Ártico, e o Deserto do Atacama, no Chile. A intenção era descobrir se as bactérias antárticas realmente eram diferentes daquelas encontradas em regiões com condições semelhantes.

Primeiro, a equipe sequenciou os genomas das cepas de Arthrobacter encontradas nas amostras de solo da Antártida. Depois, comparou suas características genômicas com as de bactérias presentes em amostras de outras partes do mundo, disponíveis em bancos de dados públicos. O resultado foi significativo: cerca de 90% das cepas identificadas na Antártida não foram encontradas em nenhum outro lugar da Terra.

Os cientistas também cultivaram cepas de Arthrobacter em laboratório e reproduziram algumas das condições hostis encontradas no continente, como baixas temperaturas e aridez. De maneira geral, as bactérias antárticas apresentaram crescimento mais lento, mas grande resistência. Segundo os pesquisadores, os experimentos indicam que esses microrganismos não apenas são exclusivos da região, como também possuem adaptações próprias para sobreviver naquele ambiente.

“Se descobrirmos que estamos procurando por microrganismos endêmicos, um bom lugar para começar é a Antártica, porque é um continente inteiro geograficamente isolado”, disse Noah Fierer, coautor do estudo, em comunicado. “Ela também possui condições únicas, não encontradas tipicamente em outros ambientes de solo. O frio é a característica mais óbvia, mas também a extrema aridez; a Antártica é um deserto.”

Os resultados também abrem caminho para investigar se o mesmo padrão aparece em outros grupos de microrganismos. Até então, segundo Fierer, apenas alguns micróbios endêmicos foram identificados em ambientes muito específicos. Encontrar organismos distintos espalhados pela Antártida sugere que populações microbianas exclusivas também podem existir em outras partes do planeta.

A descoberta amplia ainda a maneira como a biodiversidade antártica pode ser encarada. “Tendemos a pensar em biodiversidade em termos de pinguins, focas e baleias, mas isto mostra que algumas das espécies mais distintas da Antártida são microscópicas”, afirmou Byron Adams, coautor do estudo e professor de biologia da Universidade Brigham Young, nos Estados Unidos, em comunicado. Para os pesquisadores, preservar a biodiversidade do continente significa, portanto, proteger também a história biológica escondida em pequenas porções de seu solo.

“Já sabíamos que uma grande diversidade de micróbios consegue sobreviver às condições inóspitas da Antártida. Agora sabemos que alguns desses micróbios também são exclusivos da Antártida e estão singularmente adaptados à vida no continente austral”, completou Fierer.

(Por Sarah Macedo)

Astrogildo Aécio Nunes

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