A política dos caroneiros: quando a tragédia vira palanque

A política dos caroneiros: quando a tragédia vira palanque
Reprodução/HNT

JOÃO EDISOM

Em momentos de grande comoção nacional seja a prisão de uma figura pública, seja um assassinato que choca o país há sempre aqueles políticos prontos para subir no caixote, apontar o dedo, tirar foto, gravar vídeo, e posar de defensores da “justiça”, da “ordem” ou da “democracia”. Não por convicção, mas por conveniência. São os caroneiros da crise, os oportunistas profissionais que transformam qualquer tragédia em palanque.

A recente prisão de Jair Bolsonaro ofereceu mais um desfile desse tipo de comportamento. Antes mesmo de qualquer análise séria, já havia políticos dos dois lados correndo para as câmeras, disputando quem seria o primeiro a capitalizar o acontecimento. Uns para dizer “eu avisei”, outros para posar como guardiões de um Brasil ameaçado, todos ávidos por curtidas, votos e manchetes.

Esse oportunismo é velho conhecido da ciência política, que chama isso de “estratégia de ganho imediato”. O economista e Nobel William Nordhaus já mostrava como líderes manipulam eventos dramáticos e emoções coletivas para preservar poder. Mas aqui não se trata de teoria: trata-se de espetáculo. Um espetáculo barato, feito às custas da dor alheia e da instabilidade nacional.

E não é só a ciência política que denuncia isso. A filosofia também aponta o estrago. Aristóteles dizia que o governante sem virtude transforma a cidade em palco de ambições pessoais. Hannah Arendt advertia sobre o perigo de a política virar pura aparência, uma grande encenação que esvazia o sentido da ação pública. Habermas lembrava que a política deveria ser diálogo racional, não propaganda emocional.

Pois bem: hoje vivemos precisamente o que eles temiam.

O Brasil virou um imenso palco onde cada tragédia é uma chance de autopromoção. Quando um político corre para gravar vídeo na porta de uma delegacia, não está pensando no país: está pensando em si. Quando publica nota inflamando sua base antes mesmo de os fatos serem esclarecidos, não está defendendo a justiça: está defendendo o próprio engajamento digital. Quando trata a prisão de alguém, qualquer alguém, como arma retórica, ele não busca verdade: busca audiência.

E aqui está o ponto central: o oportunista não tem lado. Só tem cálculo. Ele se pendura na crise como o parasita se pendura no hospedeiro. Para esse tipo de político, não existe reflexão, nuance ou responsabilidade. Existe apenas a chance de lucrar com o tumulto.

E quem paga o preço? A democracia.

Porque, enquanto os caroneiros ocupam as manchetes, a discussão séria desaparece. Ninguém fala sobre reformas estruturais. Ninguém discute instituições. Ninguém debate o que realmente importa. O país vira refém da histeria do dia, alimentada por aqueles que deveriam promover estabilidade, não caos.

O que está em jogo não é a prisão deste ou daquele, mas a degradação da esfera pública. Uma democracia não sobrevive quando seus representantes tratam o sofrimento nacional como oportunidade de marketing. Não há Estado de Direito que aguente tanto teatro.
Precisamos denunciar, desnaturalizar e rejeitar a política dos caroneiros. Não importa se o oportunista se diz de esquerda, direita ou centro: se ele usa a dor alheia para se promover, ele é parte do problema. E enquanto esse comportamento for recompensado eleitoralmente, a política brasileira continuará atolada na lama da superficialidade e do oportunismo.

Num país que precisa urgentemente de serenidade, projeto e responsabilidade, não há espaço para quem só aparece quando o acontecimento ou a tragédia dá Ibope.

(*) JOÃO EDISOM DE SOUZA é Analista político e professor universitário.

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