Quando o livre exercício do voto vira alvo de truculência e autoritarismo depois das eleições

Quando o livre exercício do voto vira alvo de truculência e autoritarismo depois das eleições
Fotos: Divulgação

Paulo Lemos

A eleição termina quando o último voto é contado. A intolerância, porém, pode sobreviver às urnas. Em uma democracia, ninguém deveria perder emprego, cliente, vínculo familiar, segurança ou a própria vida por ter escolhido um candidato.

O problema não é abstrato. Depois da eleição de 2022, listas de boicote contra empresas e profissionais identificados como eleitores de Lula circularam em cidades de pelo menos 13 estados e do Distrito Federal. Em 2026, o fenômeno reapareceu. Em Lucas do Rio Verde, Mato Grosso, mensagens divulgadas pela imprensa mostraram participantes de grupos de WhatsApp organizando listas de comerciantes supostamente ligados a Lula e defendendo retaliações.

No trabalho, o Ministério Público do Trabalho contabilizou 1.937 denúncias de assédio eleitoral até 26 de outubro, além de ações judiciais, liminares e termos de ajustamento. Pressionar alguém por sua opção política não é simples “debate acalorado”: quando existe relação de poder e ameaça econômica, a liberdade do voto passa a ser atingida.

Nas universidades, mensagens investigadas em outubro mencionaram incêndios, explosivos, agressões e ameaças contra estudantes envolvidos em manifestações favoráveis a Lula. Na Universidade Federal Fluminense, duas pessoas foram indiciadas. Casos ou denúncias semelhantes alcançaram outras instituições.

A violência também tem vítimas fatais. Em 2018, Moa do Katendê foi morto após uma discussão eleitoral em Salvador; seu assassino foi condenado a 22 anos. Em 2022, Marcelo Arruda, militante petista, foi morto em Foz do Iguaçu por Jorge Guaranho, apoiador de Bolsonaro, posteriormente condenado a 20 anos. No mesmo ano, em Confresa, Mato Grosso, Benedito Cardoso dos Santos, apoiador de Lula, foi assassinado depois de uma discussão política com Rafael Silva de Oliveira, apoiador de Bolsonaro, condenado posteriormente a 14 anos.

No último fim de semana eleitoral, Mato Grosso voltou a registrar um episódio gravíssimo. Em Campo Novo do Parecis, o investigador Emilson Ormond Souza foi morto depois que um homem fez, segundo a Polícia Civil, uma pergunta “de cunho político” e abriu fogo após ouvir a resposta. O suspeito foi preso, e a motivação permanece sob investigação.

Em Santos, o engenheiro ambiental Marcelo de Oliveira Rocha, de 28 anos, morreu em 26 de outubro após ser espancado depois de participar de um ato favorável a Lula. A Polícia Civil investiga o crime. Familiares levantaram possível motivação política e homofóbica, hipóteses ainda não oficialmente comprovadas.

A esse ambiente se soma agora um componente institucional preocupante. Flávio Bolsonaro perdeu o segundo turno para Lula por aproximadamente 4,4 milhões de votos, com 59,8 milhões contra 64,2 milhões. Mesmo assim, anunciou que não reconheceria o resultado e que buscaria sua anulação. O próprio PL, no dia seguinte, reconheceu oficialmente a vitória proclamada pelo TSE.

Dois dias após a eleição, Flávio chegou aos Estados Unidos, segundo aliados e fontes ouvidas pela imprensa, apesar de decisão do ministro Alexandre de Moraes que determinava a entrega de seus passaportes e proibia sua saída do Brasil. A Polícia Federal havia cancelado os documentos depois do descumprimento do prazo. Aliados chegaram a falar na possibilidade de ele organizar sua atuação política no exterior, e um apoiador afirmou que Flávio lideraria a oposição a partir dos Estados Unidos.

A semelhança histórica merece ser registrada com precisão. Jair Bolsonaro também não reconheceu formalmente sua derrota em 2022, deixou o Brasil antes da posse do sucessor e, anos depois, foi condenado definitivamente pelo Supremo Tribunal Federal por participação e liderança na tentativa de golpe de Estado destinada a impedir a posse do governo eleito. A recusa em reconhecer um resultado proclamado pela Justiça Eleitoral repete um padrão de contestação institucional que, no caso anterior, precedeu acontecimentos extremamente graves.

Lideranças políticas têm responsabilidade sobre o ambiente público que ajudam a produzir.

A democracia é testada justamente quando o outro vota diferente e continua sendo reconhecido como cidadão, colega, vizinho, amigo ou familiar.

É preciso respeitar a vontade do eleitor e aceitar o resultado das urnas, de maneira civilizada e pacífica, sem barbárie e truculência.

A eleição acaba. O direito de viver em paz depois dela há de ser observado por todos.

Paulo Lemos é advogado e analista político

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