Efeito da maçã podre pode fazer um grupo inteiro perder o controle, aponta estudo

Efeito da maçã podre pode fazer um grupo inteiro perder o controle, aponta estudo
A expressão “maçã podre” pode ter fundamento científico. Estudo com 750 participantes mostrou que observar outras pessoas quebrando regras pode incentivar novas transgressões e até levar indivíduos a ultrapassarem as infrações que testemunharam. — Foto: Giuseppe CUZZOCREA/ unsplash

O chamado efeito da “maçã podre” ajuda a explicar como a quebra de regras pode influenciar o comportamento coletivo. Um estudo, publicado na revista científica Proceedings of the Royal Society B, mostrou que observar infrações cometidas por outras pessoas pode estimular transgressões ainda maiores, especialmente quando a quebra de regras são mais graves e vêm de pessoas com as quais os indivíduos compartilham afinidades políticas.

“Mas, na verdade, em muitos casos, somos muito influenciados pelo que os outros estão fazendo”, afirmou Lucas Molleman, líder do estudo e membro da Universidade de Amsterdã, ao The Guardian, que comentar a ideia de que as pessoas tomam decisões de maneira inteiramente independente.

Como o experimento foi realizado

Para investigar a influência social sobre a quebra de regras, os pesquisadores recrutaram 750 participantes nos Estados Unidos, divididos aproximadamente em partes iguais entre republicanos e democratas. Todos participaram de um experimento on-line que envolvia uma tarefa visual e recompensas financeiras.

Os voluntários precisavam observar uma estrela cadente animada que percorria uma sequência de 100 quadrados. A tarefa consistia em identificar aquele que apresentava maior intensidade de brilho. A escolha correta não era necessariamente a mais lucrativa: os participantes recebiam recompensas maiores quando selecionavam quadrados à direita da resposta correta e menores quando escolhiam posições à esquerda.

Essa diferença criava um incentivo para descumprir as instruções em busca de ganhos financeiros. Depois da escolha inicial, cada participante recebia informações sobre a decisão de outra pessoa, incluindo se ela havia respeitado as regras, a gravidade de uma eventual infração e sua filiação política. Em seguida, podia rever a própria resposta. O procedimento foi repetido seis vezes.

Os resultados mostraram que a disposição para transgredir já estava presente antes mesmo de os participantes observarem o comportamento alheio: 23% das escolhas iniciais envolveram quadrados associados à maior recompensa. Dessa forma, a exposição às decisões de outras pessoas também influenciou as escolhas seguintes. Observar alguém seguindo as regras reduziu ligeiramente a tendência de infringir as instruções. Já presenciar pequenas violações que proporcionavam vantagens financeiras aumentou essa tendência, embora de maneira discreta.

O efeito mais expressivo apareceu quando os participantes observaram infrações mais flagrantes. Nesses casos, eles passaram a desrespeitar as regras em maior medida e, por vezes, ultrapassaram o nível de transgressão que haviam observado.

Quando a transgressão se espalha

Para os pesquisadores, os resultados ajudam a explicar como comportamentos individuais podem se intensificar em um grupo. Se uma pessoa observa outra ultrapassando determinado limite e decide ir ainda mais longe, sua atitude pode servir de referência para novos participantes, criando uma sequência de violações progressivamente mais graves.

A equipe também realizou simulações computacionais para investigar como esse mecanismo poderia funcionar em grupos maiores. Os modelos indicaram que uma minoria de indivíduos dispostos a intensificar as infrações poderia desencadear uma escalada coletiva.

“Uma minoria de indivíduos que intensificam as ações, ultrapassando os limites das violações das regras que observam, pode fazer com que todo um coletivo perca o controle”, disse Molleman.

O fenômeno, contudo, não foi observado em todos os participantes. Cerca de um terço seguiu as regras de maneira consistente, mesmo quando isso significava abrir mão da recompensa financeira mais alta. O dado indica que a influência social não determina necessariamente as decisões individuais.

A afinidade política faz diferença

Outro resultado importante foi a influência da identificação política. Segundo os pesquisadores, o efeito do comportamento alheio foi mais robusto quando os participantes compartilhavam a mesma inclinação política da pessoa observada.

O achado sugere que a disposição para imitar ou incorporar determinadas condutas não depende apenas da ação em si, mas também de quem a pratica. A identificação com um grupo pode tornar o comportamento de seus integrantes uma referência mais relevante para as próprias decisões.

Essa interpretação também ajuda a compreender por que a expressão “maçã podre” pode ser insuficiente para explicar violações coletivas. Em determinadas circunstâncias, o problema não se limita a um indivíduo que desrespeita regras: a maneira como outras pessoas interpretam e reproduzem essa conduta também pode contribuir para sua disseminação.

O comportamento humano é mais complexo

Apesar dos resultados, os pesquisadores ressaltam que o experimento não permite concluir que toda violação de regras observada na vida real provocará uma reação semelhante. A tarefa era abstrata, realizada on-line e sem penalidades para quem descumprisse as instruções. Por isso, ainda é necessário investigar até que ponto os resultados se aplicam a situações concretas, como ambientes de trabalho, instituições políticas e outros contextos sociais.

O professor Stephen Reicher, da Universidade de St Andrews, na Escócia, que não participou do estudo, chamou a atenção para os limites da interpretação dos resultados. Segundo ele, a pesquisa não demonstra simplesmente que as pessoas reproduzem o comportamento que testemunham. A influência depende da identidade de quem age e da relação entre os indivíduos e os grupos envolvidos.

“Isso é importante porque implica que, por exemplo, não nos envolvemos em tumultos simplesmente porque vemos outros se envolvendo”, afirmou Reicher. “Na verdade, muitas pessoas que presenciam tumultos reagem ajudando na limpeza após os mesmos.”

A observação reforça que a influência social pode produzir respostas diferentes diante de uma mesma situação. Em vez de um contágio automático, o comportamento coletivo parece depender de fatores como identificação, interpretação do contexto e decisões individuais.

(Por Carina Gonçalves)

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