Médicos afirma ter feito primeiro transplante de medula espinhal na Rússia

Um procedimento inédito realizado na Rússia pode representar um novo capítulo nas pesquisas sobre lesões na medula espinhal. Pela primeira vez, uma equipe médica afirma ter realizado um transplante de medula espinhal em um ser humano. As informações são da revista New Scientist, que confirmou a notícia datada pela agência estatal de notícias russa Kazinform.
A operação, que durou cerca de 12 horas, foi realizada na semana passada no Instituto de Pesquisa de Medicina de Emergência Sklifosovsky, em Moscou, sob a liderança do cirurgião Xiaoping Ren, do Segundo Hospital Afiliado da Universidade de Medicina Chinesa de Guangxi, na China.
O paciente, cuja identidade não foi divulgada, é um adulto que sofreu uma lesão medular completa após um trauma externo, três anos antes da cirurgia. Esse tipo de lesão geralmente provoca paralisia e perda de sensibilidade abaixo da região afetada. Não foram divulgadas informações sobre a localização exata da lesão.
Durante a operação, os médicos teriam removido a parte danificada da medula espinhal e a substituído por um segmento retirado de um doador com morte encefálica. Para conectar os tecidos, a equipe utilizou técnicas microcirúrgicas e uma substância chamada polietilenoglicol (PEG), que funciona como uma espécie de “cola” biológica.
“Informamos o paciente sobre todos os riscos potenciais e os possíveis resultados cirúrgicos; e seu estado atual é bom”, declarou Reb à revista New Scientist. Segundo o cirurgião, a equipe russa pretende publicar futuramente um documento detalhando a operação.
De acordo com a agência de notícias Kazinform, o prefeito de Moscou, Sergei Sobyanin, também confirmou que o paciente apresentava boas condições após a cirurgia. “Um paciente que corria o risco de ficar completamente imóvel agora tem uma chance de recuperação e está se sentindo bem”, disse Sobyanin. Ele destacou ainda a participação de especialistas chineses no procedimento.
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Como funciona a técnica?
A medula espinhal é responsável por transmitir sinais entre o cérebro e diferentes partes do corpo, permitindo movimentos e a percepção de estímulos. Quando ocorre uma lesão grave, essa comunicação pode ser interrompida, provocando perda de movimentos e sensibilidade.
Um dos maiores desafios para os cientistas é justamente restabelecer essa conexão. Isso porque as células da medula espinhal não se regeneram facilmente e os tecidos danificados podem sofrer deterioração progressiva após uma lesão.
Há anos, Ren e outros pesquisadores, incluindo o neurocirurgião Sergio Canavero, da Universidade Médica de Harbin, na China, investigam uma técnica que utiliza o PEG para tentar unir fibras nervosas seccionadas. A ideia é aproximar as extremidades dos tecidos e aplicar a substância para favorecer sua fusão. É como tentar conectar dois pedaços de espaguete seco, alinhando suas pontas na esperança de que algumas fibras consigam se unir.
Em experimentos anteriores com camundongos, cães e porcos, abordagens semelhantes apresentaram algum grau de recuperação dos movimentos. No entanto, esses resultados não garantem que a técnica funcione em humanos, especialmente quando envolve uma lesão antiga e tecido de um doador.
Por que a cirurgia preocupa os especialistas?
Embora o responsável pelo procedimento tenha afirmado que o paciente apresenta um bom estado de saúde, pesquisadores questionam se o transplante poderá realmente restaurar suas funções neurológicas.
Em entrevista à revista New Scientist Melissa Andrews, da Universidade de Southampton, na Inglaterra, manifestou preocupação com a segurança da cirurgia. Segundo ela, o paciente pode enfrentar uma recuperação difícil, com poucos benefícios e um risco elevado de infecção.
A pesquisadora explicou que a integração funcional de um segmento transplantado exigiria mais do que simplesmente unir as extremidades da medula espinhal. Seria necessário estimular a cicatrização dos tecidos, neutralizar moléculas que impedem o crescimento das fibras nervosas e promover novas conexões entre o tecido do doador e o do receptor. “Mesmo assim, na minha opinião, a chance de regeneração e recuperação funcional seria zero”, afirmou.
Outra questão é que as pesquisas anteriores se concentraram principalmente na reconexão de tecidos recém-seccionados, situação diferente da enfrentada pelo paciente russo, cuja lesão ocorreu há três anos.
Por enquanto, ainda não há evidências divulgadas de que o transplante tenha restaurado movimentos ou sensibilidade no receptor. Os detalhes técnicos e os resultados da cirurgia também aguardam publicação e avaliação de médicos independentes.
(Por Sarah Macedo)22






