Raro pingente de Elisabeth 1ª feito em âmbar vai a leilão por até R$ 1 milhão

Um raro pingente de âmbar com um retrato da rainha Elisabeth 1ª, da Inglaterra, produzido por volta do ano 1600, será leiloado pela Sotheby’s, em Londres, na próxima quarta-feira (1º), com valor estimado entre £100 mil e £150 mil (cerca de R$ 686 mil a R$ 1,03 milhão na cotação atual). Em formato de coração, a joia é considerada um dos mais sofisticados objetos em âmbar já produzidos no início do século 17 e pode ter sido confeccionada por Hans Klingenberg ou Georg Schreiber, dois dos mais renomados mestres entalhadores da corte prussiana.
A peça chama atenção pela combinação entre refinamento artístico e inovação técnica. Em seu interior, ela abriga um retrato minúsculo da monarca esculpido em relevo — técnica conhecida como camafeu, em que a imagem é talhada de forma tridimensional sobre um material sólido. O efeito visual é reforçado por uma cavidade escavada na parte posterior do âmbar, funcionando como uma espécie de lente natural que faz o rosto da rainha parecer maior e suspenso dentro da pedra.
Joia que desafia os séculos
Os especialistas situam a produção do pingente em Königsberg, importante centro de lapidação de âmbar na costa do Mar Báltico, atual Kaliningrado. Na virada do século 16 para o 17, o material era conhecido como “ouro do Báltico” por sua raridade e elevado valor comercial, sendo reservado quase exclusivamente às cortes europeias.
Embora o material do retrato ainda não tenha sido identificado com absoluta certeza, análises por microscopia e fluorescência de raios-X, uma técnica que identifica a composição química de um objeto sem causar danos, descartaram que a escultura tenha sido feita em marfim ou osso. Os pesquisadores consideram mais provável que ela tenha sido talhada em âmbar branco ou em um material composto.
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A casa de leilões atribui a autoria da peça a Hans Klingenberg ou Georg Schreiber, dois dos maiores artesãos especializados em âmbar da época. A principal evidência está nas semelhanças técnicas e estilísticas entre o pingente e um famoso tabuleiro de jogos pertencente ao rei Carlos 1º, da Inglaterra, considerado uma das grandes obras da arte em âmbar renascentista. Essas características fazem de Schreiber o candidato mais provável à autoria.
Tal avaliação é reforçada pelo historiador Richard Kulka, citado no catálogo da Sotheby’s. “As obras de Schreiber apresentam alguns dos exemplos mais elegantes e elaborados da técnica em que microrelevos finamente esculpidos em âmbar branco eram colocados atrás de peças translúcidas de âmbar”, explica.
Símbolos de poder e memória
O retrato de Elisabeth 1ª foi inspirado em uma gravura produzida por Crispijn de Passe, o Velho, em 1592, baseada, por sua vez, em um retrato pintado a partir da observação direta da soberana pelo miniaturista Isaac Oliver. O artista, porém, introduziu uma alteração significativa: acrescentou ao peito da rainha uma grande rosa, referência à Rosa Tudor, símbolo da dinastia fundada por Henrique 7º.
No verso do pingente aparece um papagaio, elemento associado à Virgem Maria e à pureza na tradição cristã. Para os estudiosos, trata-se de uma referência deliberada à imagem da “Rainha Virgem”, construída por Elisabeth 1ª ao longo de seu reinado como parte de sua estratégia política.
Durante a Europa dos séculos 16 e 17, o âmbar era muito mais do que uma pedra ornamental. A resina fossilizada era vista como um material dotado de propriedades protetoras e terapêuticas, além de representar riqueza e prestígio. Por isso, objetos produzidos com ela eram frequentemente utilizados como presentes diplomáticos entre famílias reais.
Essa percepção aparece em uma carta enviada em 1607 pelo diplomata escocês William Bruce à rainha Ana, da Dinamarca. Ao descrever um retrato em âmbar do rei Jaime 1º, Bruce escreveu que a peça havia sido feita com “uma pedra preciosa que Vossa Majestade mais ama no mundo” e acrescentou que o material era “considerado muito benéfico para o corpo, por emitir um aroma quando há perigo ou veneno presente”.
Da coleção de um mecenas ao leilão
A procedência documentada do pingente remonta ao século 19, quando ele passou a integrar a coleção do político escocês John Malcolm, 1º Barão Malcolm de Poltalloch. Reconhecido como um dos maiores colecionadores britânicos de sua época, Malcolm reuniu obras de artistas como Michelangelo, Rafael, Rembrandt, Rubens e Canaletto.
Essa joia permaneceu na herança da família até 2025, quando foi adquirida por um colecionador particular que agora a coloca novamente no mercado, mais de quatro séculos após sua criação.
(Por Arthur Almeida)






