Uma história forte transforma política em torcida*

*Jéssica Nunes
Aliás, as campanhas eleitorais costumam revelar muito sobre seus candidatos antes mesmo da apresentação das primeiras propostas. O lugar escolhido para a largada, as pessoas que caminham ao lado, as palavras utilizadas e até os silêncios ajudam a construir a narrativa que cada grupo pretende oferecer ao eleitor.
Foi exatamente isso que se viu no início oficial da disputa pelo Palácio Paiaguás.
Otaviano Pivetta decidiu começar a campanha em Lucas do Rio Verde, cidade onde consolidou sua trajetória pública e administrativa. Não se trata apenas de uma escolha geográfica. É uma opção carregada de simbolismo. Lucas representa a origem de um modelo de gestão que ajudou a projetar seu nome para a política e que hoje serve de referência para boa parte do discurso de continuidade administrativa defendido por sua candidatura. A trajetória de Pivetta em Lucas do Rio Verde é frequentemente associada aos grandes Índices de Desenvolvimento Humano, por meio de políticas públicas, de avanço econômico, planejamento urbano e gestão pública, elementos que passaram a integrar sua identidade política.
Ao seu lado está Gisela Simona. Sua presença altera o significado político da chapa. Pois se Pivetta representa excelência de gestão e experiência administrativa, Gisela leva para essa composição uma biografia construída em outro território: o do serviço público cotidiano e uma política de representação social.
Sua história começa muito distante dos gabinetes. Nasce no serviço público, no atendimento diário ao consumidor, ouvindo conflitos que raramente aparecem nas estatísticas econômicas. Durante mais de duas décadas no Procon de Mato Grosso construiu uma imagem pública associada à defesa do cidadão comum. Depois levou essa experiência para Brasília, onde, ao longo de 33 meses de mandato, concentrou sua atuação na defesa do consumidor, no enfrentamento à violência contra as mulheres e na atualização da legislação diante de novos desafios sociais.
Sua relatoria do Pacote Antifeminicídio talvez seja a síntese mais conhecida desse percurso, mas não a única. Gisela também participou de debates sobre fraudes financeiras, proteção do consumidor digital, regulamentação do spray de pimenta para mulheres e enfrentamento aos impactos sociais das apostas eletrônicas.
Sua chegada à disputa majoritária também amplia um debate antigo na política mato-grossense: o da presença feminina nos espaços de decisão. Num Estado cuja história política foi construída majoritariamente por homens, a presença de uma mulher negra, oriunda do serviço público e sem tradição familiar na política, altera o repertório simbólico da própria campanha.
Claro, não elimina desigualdades históricas nem encerra o debate sobre representatividade, mas insere novos elementos em uma disputa que tradicionalmente foi marcada por lideranças masculinas.
Há ainda outro aspecto interessante nessa composição. Enquanto Pivetta representa uma trajetória construída na administração pública municipal e estadual, Gisela traz consigo uma experiência profundamente ligada ao cotidiano das famílias, especialmente daquelas que mais dependem dos serviços públicos. Ao longo da carreira tornou-se conhecida justamente por atuar em temas que atingem diretamente consumidores, mulheres, aposentados e populações de menor renda.
Essa combinação entre gestão e proteção social tende a ocupar espaço importante no discurso da campanha.
Naturalmente, isso não elimina os desafios. Pois, claro, uma eleição para governador nunca é apenas um julgamento sobre a gestão que termina. É, sobretudo, uma disputa de projetos para o futuro. Assim, a campanha exigirá respostas para temas como segurança pública, saúde regionalizada, desenvolvimento equilibrado entre as diferentes regiões do Estado, geração de oportunidades e redução das desigualdades.
Também será uma campanha em que a disputa de narrativas ocorrerá diariamente nas ruas, nos debates e nas redes sociais, onde a velocidade da informação frequentemente supera o tempo da reflexão. Então, obviamente, é cedo para qualquer conclusão.
Mas o primeiro dia deixou uma mensagem clara: algumas campanhas escolhem começar por promessas. Outras preferem começar pela própria história.
Agora caberá aos eleitores decidir se essas histórias conseguem dialogar com o futuro que desejam para Mato Grosso.
Jéssica Nunes é jornalista
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