Violência patrimonial: a face invisível da violência doméstica

Violência patrimonial: a face invisível da violência doméstica
Imagem Pessoal

Emirella Martins

Quando pensamos em violência doméstica, normalmente imaginamos agressões físicas, como hematomas e marcas visíveis pelo corpo. Com isso, ignoramos outros abusos que, embora não firam a integridade física de forma direta, violam a mulher de maneira silenciosa e, muitas vezes, invisível.

É o caso da violência patrimonial, que se manifesta no controle do dinheiro disfarçado de cuidado e na manipulação para tomada de decisões financeiras. Ela também ocorre quando proíbe de trabalhar, quando cria dependência financeira, na destruição de bens, na retenção de documentos e na criação de dívidas no nome da mulher. Além disso, envolve, como consequência, o isolamento social para evitar pedidos de ajuda e a humilhação por falta de renda. Esses exemplos deixam claro que a violência patrimonial é tão danosa quanto as formas física, psicológica, moral e sexual. E todas elas têm um ponto em comum: retiram a autonomia da mulher.

Além disso, a violência patrimonial nem sempre é percebida como abuso, por isso é pouco denunciada. Isso ocorre especialmente quando a falta de educação financeira faz a mulher acreditar que o homem domina mais o assunto, cenário agravado se a agressão acontece de forma isolada. Mas, essa prática geralmente acompanha a violência psicológica, podendo evoluir para agressões físicas e, em casos extremos, para o feminicídio.

A pesquisa Independência financeira e violência contra as mulheres: uma análise documental de relatórios institucionais brasileiros, realizada pela Universidade de Brasília, em 2025, verificou que 61% das mulheres não denunciam agressões por dependência financeira do agressor. E entre as práticas de abusos, 17,1% das mulheres são impedidas de trabalhar ou estudar e 10% não têm acesso ao próprio dinheiro.

Não se deve confundir a violência patrimonial com os desafios que casais enfrentam juntos para equilibrar as contas familiares ou alcançar propósitos em comum. Nesse tipo de abuso, existe um claro desequilíbrio de poder: o agressor manipula as finanças para atender aos próprios interesses, seja para impedir que a mulher saia da relação ou para obter proveito econômico, causando graves danos materiais e psicológicos à vítima.

Culturalmente, a mulher não era educada financeiramente para além do “governo doméstico da casa e os serviços a ele inerentes”, pois entendia que era “suficiente a nossa antiga regra: ler, escrever e contar”1. Muitas ainda acreditam nessa antiga lição e se julgam incapazes, permanecendo presas em uma gaiola com a porta aberta, esquecendo-se de que sabem voar.

Romper ciclos de violência exige estratégia. Quando falamos de violência patrimonial, o primeiro passo fundamental é buscar a autonomia financeira, desenvolvendo algo que gere renda própria – como o empreendedorismo – é uma excelente alternativa pois possibilita um retorno rápido, flexibilidade de tempo, além de resgatar a autoestima e a identidade da mulher.

Também é importante buscar orientação jurídica, acionar uma rede de apoio e fazer a denúncia formal na delegacia. Nesses momentos, guardar documentos pessoais e cópias de comprovantes financeiros em um local seguro é uma medida de proteção essencial.

Infelizmente, milhares de mulheres renunciam a suas escolhas pela dependência financeira. Meu desejo e o meu trabalho diário são para que todas sejam verdadeiramente livres. Que tenham o poder de escolher se querem permanecer, sair ou recomeçar, sem que isso vire motivação para a violência.

Emirella Martins – Coronel Veterana da PMMT, Mestranda em Violencia Doméstica y de Género, Pós-Graduada e palestrante na área.

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Astrogildo Aécio Nunes

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