Ninguém escolhe aquilo que não consegue imaginar

Ninguém escolhe aquilo que não consegue imaginar
Imagem Pessoal

Andréa Fernandes da Rocha

Lembro de uma menina, ainda no início da minha carreira, que tinha pavor das festas da escola. Não por causa do barulho ou da quantidade de pessoas. O momento mais difícil era quando a música começava e todos os colegas se levantavam para dançar.

Ela permanecia sentada. Encolhida. Repetia baixinho que não queria, que estava com dor de barriga, que preferia apenas assistir.

Mas, ao observá-la com mais atenção, percebi que não era falta de vontade.

Era como se ela não conseguisse se imaginar ali, dançando, sem que algo desse errado. Quando tentava projetar aquela cena, sua imaginação parecia encontrar apenas o erro, o riso dos outros, o passo fora do tempo.

Ela não escolhia ficar sentada.

Naquele momento, permanecer sentada parecia ser a única possibilidade que conseguia enxergar para si mesma.

Essa experiência me fez pensar em uma pergunta que continua me acompanhando:

Como alguém escolhe aquilo que nem consegue imaginar?

Quando falamos em autonomia, geralmente pensamos em escolhas. Escolher a roupa, os amigos, a profissão ou os caminhos da vida.

Mas talvez as escolhas sejam apenas a parte visível de um processo que começa muito antes.

Uma criança que sonha em ser veterinária, astronauta, professora ou jogadora de futebol só consegue desejar esses caminhos porque, em algum momento, eles passaram a existir como possibilidades em sua imaginação.

O problema é que a imaginação não nasce no vazio.

Ela nasce das experiências que ajudam a criança a construir significados sobre quem ela é e sobre aquilo que acredita ser capaz de fazer.

Cada experiência de participação amplia um pouco o repertório de possibilidades que a criança consegue imaginar para si mesma.

Quando participa de uma brincadeira, quando é ouvida em casa, quando experimenta algo novo, quando percebe que consegue superar um desafio ou contribuir para um grupo, ela não está desenvolvendo apenas habilidades.

Está construindo significados.

Pouco a pouco, pode começar a pensar:

“Eu consigo.”

“Minha opinião importa.”

“Talvez eu possa tentar.”

Mas o movimento também pode acontecer na direção oposta.

Uma criança que acumula experiências de fracasso, rejeição, humilhação ou exclusão pode começar a restringir o próprio horizonte de possibilidades.

Não apenas participa menos.

Passa a imaginar menos.

Aquela criança que antes levantava a mão já não consegue se imaginar falando.

A que foi repetidamente rejeitada já não consegue se imaginar fazendo novos amigos.

A que ouviu durante anos que não era capaz já não consegue se imaginar tentando novamente.

Pouco a pouco, o problema deixa de ser apenas o que ela faz.

Passa a ser aquilo que acredita ser possível.

Talvez uma das tarefas mais importantes dos adultos não seja apenas ensinar habilidades.

Seja preservar e ampliar o campo das possibilidades que uma criança consegue imaginar para si mesma.

Porque ninguém exerce autonomia sobre aquilo que nem sequer consegue imaginar como possível.

E toda vez que ajudamos uma criança a participar, experimentar e ocupar novos espaços, fazemos mais do que desenvolver competências.

Ampliamos o horizonte das possibilidades que ela consegue enxergar para si mesma.

Andréa Fernandes da Rocha é terapeuta ocupacional, autora do livro Pequenos e Decisivos Passos na Infância (Alta Books/Minotauro) e escreve sobre desenvolvimento infantil, participação, autonomia e parentalidade.

Instagram: @andrea.desenvolvimentoinfantil

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Astrogildo Aécio Nunes

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