Polêmica das Antenas | Fotos aéreas mostram recuperação ambiental na Chapada e reforçam alerta de ambientalistas

Polêmica das Antenas | Fotos aéreas mostram recuperação ambiental na Chapada e reforçam alerta de ambientalistas
Cachoeira Véu-de-Noiva continua sendo o cartão-postal mais conhecido de Mato Grosso. | Foto: Mário Friedlander

As fotografias aéreas produzidas pelo ambientalista Mario Friedlander contam uma história muito diferente daquela que uma observação apressada poderia sugerir. Separadas por 36 anos, as imagens do Vale do Rio Coxipózinho, onde está localizada a Cachoeira Véu-de-Noiva, registram um processo de recuperação ambiental que se tornou visível graças à criação e à proteção do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães.

Na fotografia de 1989, ano de criação da unidade de conservação, a paisagem apresenta extensas áreas abertas, estradas e sinais evidentes de ocupação humana. O cenário reflete um período em que a região ainda sofria os impactos da expansão desordenada e da ausência de mecanismos efetivos de proteção.

Já a imagem de 2025 revela uma realidade distinta. A cobertura vegetal avançou sobre áreas antes degradadas, o vale recuperou parte de sua integridade ecológica e a vegetação voltou a ocupar espaços que pareciam perdidos. A diferença é tão marcante que as fotografias se transformaram em uma espécie de testemunho visual da importância da conservação ambiental.

Para Friedlander, o comparativo demonstra que a criação do parque produziu resultados concretos. A regeneração observada ao longo das últimas décadas não ocorreu por acaso. Ela foi resultado de restrições ao uso inadequado da área, ações de fiscalização, recuperação natural dos ecossistemas e da permanente mobilização de pesquisadores, ambientalistas e da sociedade civil.

É justamente por isso que cresce a reação contra a proposta de instalação de antenas e novas estruturas dentro da unidade de conservação. Para os críticos do projeto, a discussão vai muito além da tecnologia ou da comunicação. O receio é que intervenções em áreas sensíveis acabem comprometendo um processo de recuperação ambiental construído ao longo de mais de três décadas.

As imagens revelam uma pergunta inevitável, vinda especialmente dos ambientalistas: se a natureza precisou de 36 anos para recuperar parte do que havia sido perdido, qual é o risco de permitir novas intervenções justamente em uma área que se tornou símbolo da recuperação ambiental da Chapada?

Outro aspecto que chama atenção é o silêncio do Conselho Consultivo do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães. Criado para reunir representantes da sociedade civil, órgãos públicos, pesquisadores, comunidades locais e setores ligados ao turismo e ao meio ambiente, o colegiado tem entre suas atribuições discutir e acompanhar decisões que afetam a unidade de conservação. Até o momento, porém, não houve manifestação pública do conselho sobre a proposta das antenas, apesar da intensa repercussão do tema.

A Cachoeira Véu-de-Noiva continua sendo o cartão-postal mais conhecido de Mato Grosso. Mas o que as imagens revelam é que a verdadeira riqueza da Chapada está além da paisagem. Ela está na capacidade de um ecossistema de se regenerar quando lhe é dada a oportunidade.

Para muitos ambientalistas, a polêmica das antenas não trata apenas de uma obra. Trata-se de decidir se a Chapada dos Guimarães continuará sendo um exemplo de recuperação ambiental ou se passará novamente a conviver com intervenções capazes de comprometer um patrimônio que levou décadas para ser reconstruído.

Astrogildo Aécio Nunes

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Posso ajudar?