O Poder da Identidade: Do Feminicídio ao Bullying Feminino

Emirella Martins
Nomear é dar identidade para algo, e a partir disso distinguir das demais, de acordo com as suas próprias características e compreender sua existência. Não necessariamente criar uma realidade factual, pois, no caso que tratamos, sua existência é concreta, apesar das resistências. Refiro-me a identificação de todos os tipos de violências contra as mulheres, inclusive o feminicídio.
Isso me faz lembrar de um episódio bem ilustrativo. Certa vez, palestrando sobre o Programa de Policiamento Patrulha Maria da Penha [da Polícia Militar de Mato Grosso], um policial militar em pé, no fundo da sala, inquieto, fez sua contribuição dizendo que antigamente não havia feminicídios nem mortes de mulheres como atualmente. Segundo ele, foi apenas depois que criaram “essas” leis, que as mulheres “começaram a morrer”.
Tive que concordar, em partes, com sua ideação. De fato, antigamente não existia o termo feminicídio. A morte de mulheres não possuía esta identidade específica, apesar de ocorrerem e a violência doméstica estar presente como fundamento. Agora, é possível distingui-las de outros tipos de morte, caracterizá-las, quantificá-las e compreender essa existência, buscando por ações efetivas para o seu fim.
Recentemente, outro comportamento ganhou identidade. O Wollying, termo em inglês que podemos ‘abrasileirar’ para Bullying Feminino.
Wollying é formado pela união de woman (mulher) e bullying (agressões intencionais e repetitivas, praticadas por um indivíduo ou grupo contra alguém que não consegue se defender). O termo nomeia a violência emocional, a competitividade tóxica e os ataques silenciosos praticados entre mulheres em ambientes sociais ou profissionais.
Esse comportamento é demonstrado por ações pequenas e repetidas, como insultos sobre aparência, apelidos pejorativos, isolamento social premeditado, ataques pelas redes, competição disfarçada de amizade, até mesmo comentários objetivando prejudicar a imagem da mulher. Quem nunca presenciou algum destes episódios?
De forma inédita, o debate sobre este assunto foi provocado pela delegação brasileira junto a CSW70 (70ª Sessão da Comissão sobre a Situação da Mulher) da ONU em Nova York, ocorrido em março. Mas, no Brasil, o tema já é tratado no Programa de Combate à Intimidação Sistemática (Bullying) e pelo Projeto de Lei 4330/2024, que visam incluir o wollying na Semana Escolar de Combate à Violência contra a Mulher.
O fato é que esta conduta tem como base a violência psicológica, perpetuada por um sistema que ensinou as mulheres a competirem entre si. Onde deveria haver empatia, instalou-se a rivalidade, Por isso, não basta apenas reconhecer a condição feminina; é preciso compreender essas dinâmicas para impedir sua continuidade.
Emirella Martins – Coronel Veterana da PMMT, Mestranda em Violencia Doméstica y de Género, Pós-Graduada e palestrante na área.
Os artigos assinados são de responsabilidade dos autores e não refletem necessariamente a opinião do site de notícias Aef News






