Novo vírus gigante pode revelar pistas sobre a origem das células complexas

Novo vírus gigante pode revelar pistas sobre a origem das células complexas
Pesquisadores relatam a descoberta do furtivovírus, um vírus gigante que infecta amebas, e esclarecem as relações evolutivas entre vírus gigantes — Foto: Universidade de Ciências de Tóquio

Embora estejam entre as entidades biológicas mais abundantes do planeta, os vírus não fazem parte da chamada árvore da vida celular, que conecta todos os organismos vivos conhecidos a um ancestral comum. Essa exclusão alimenta, há décadas, debates sobre sua origem e seu papel na evolução da vida.

Agora, pesquisadores japoneses anunciaram a descoberta de um novo vírus gigante que pode lançar luz sobre essa questão. Batizado de furtivovírus, o microrganismo infecta amebas e apresenta uma forma inédita de interação com o núcleo das células hospedeiras. O estudo, publicado na revista Journal of Virology, também propõe a criação de uma nova família viral, chamada provisoriamente de Manesviridae.

A descoberta foi liderada pelo professor Masaharu Takemura e pelo doutorando Jiwan Bae, da Universidade de Ciências de Tóquio. Segundo Takemura, compreender a relação entre vírus gigantes e células hospedeiras pode revelar aspectos fundamentais da própria evolução biológica.

“Embora esses vírus pertençam ao mesmo grupo, eles usam o núcleo da célula de maneiras diferentes. Se pudermos entender como os vírus gigantes e as células hospedeiras interagem e evoluem juntos, poderemos obter novas informações sobre a importância dos vírus como organismos vivos e como podemos coexistir com eles”, diz o pesquisador em comunicado.

Nova descoberta dos vírus gigantes

Essa ideia ganhou atenção após a descoberta do mimivírus Acanthamoeba polyphaga em 2003, o primeiro vírus gigante conhecido. A descoberta chamou atenção porque revelou vírus muito maiores e mais complexos do que se imaginava até então, com genomas extensos e características incomuns para organismos virais.

Atualmente, esses microrganismos fazem parte do filo Nucleocytoviricota, um grupo altamente diversificado que reúne diferentes classes, ordens, famílias e espécies de vírus de DNA de grande porte. Muitos deles interagem diretamente com o núcleo das células hospedeiras e formam estruturas especializadas conhecidas como fábricas virais, onde ocorre a produção de novas partículas.

O furtivovírus foi isolado a partir de amostras de água doce coletadas na cidade japonesa de Kamakura. Em laboratório, os cientistas utilizaram a ameba Vermamoeba vermiformis como hospedeira para observar seu comportamento e sequenciar seu material genético.

As análises mostraram que o vírus possui um genoma com cerca de 560 mil pares de bases, colocando-o entre os gigantes do mundo viral. Mas o aspecto mais intrigante foi sua estratégia de reprodução.

Enquanto alguns vírus gigantes preservam o núcleo celular durante a infecção e outros o rompem para criar áreas de replicação no citoplasma, o furtivovírus rompe a membrana nuclear, mas continua produzindo novas partículas virais dentro do material remanescente do núcleo, conhecido como nucleoplasma.

História evolutiva

A comparação entre o furtivovírus e outros vírus gigantes revelou um possível retrato da evolução dessas interações. O medusavírus realiza toda a replicação dentro de um núcleo intacto. Já o ushikuvírus rompe a estrutura nuclear e transfere a produção de novas partículas para o citoplasma. O furtivovírus parece ocupar uma posição intermediária entre essas duas estratégias.

“Ao comparar três vírus que utilizam o núcleo celular de maneiras diferentes, o medusavírus, que se replica no núcleo; o ushikuvírus, que rompe a membrana nuclear e cria seu próprio sítio viral no citoplasma; e o furtivovírus, descoberto neste estudo, que rompe a membrana nuclear, mas cria um sítio viral no núcleo remanescente, podemos observar a trajetória evolutiva de interação entre o núcleo celular e esses novos vírus”, explica Takemura.

Os resultados reforçam a hipótese de que vírus gigantes próximos podem desenvolver estratégias bastante distintas ao longo da evolução, mesmo mantendo uma origem comum. Além de mostrar a possibilidade de que vírus ancestrais tenham participado da origem das células eucarióticas, aquelas que compõem animais, plantas e fungos.

Em 2001, Takemura propôs a chamada teoria do núcleo celular derivado de vírus, segundo a qual o núcleo das células eucarióticas poderia ter surgido a partir de antigos vírus. Pouco depois, o microbiologista australiano Philip Bell apresentou uma hipótese semelhante, conhecida como teoria da eucariogênese viral.

Ao propor a criação da família Manesviridae e de uma nova ordem que reúna seus integrantes e parentes próximos, os pesquisadores acreditam estar acrescentando um novo ramo à árvore genealógica dos vírus gigantes.

(Por Carina Gonçalves)

Astrogildo Aécio Nunes

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