Bebê romano foi enterrado com substância mais valiosa que ouro há 1700 anos

Bebê romano foi enterrado com substância mais valiosa que ouro há 1700 anos
Enterrados há cerca de 1700 anos em York, na Inglaterra, à época ocupada pelos romanos, dois bebês receberam um tratamento funerário reservado às elites do Império Romano. Arqueólogos da Universidade de York descobriram que as crianças foram envoltas em um raro tecido tingido com púrpura tíria, um corante luxuoso que, na época, podia valer até três vezes mais que ouro.O material, adornado com fios dourados, foi encontrado em dois sepultamentos datados entre o final do século 3 e o início do século 4 d.C. Essa descoberta é a primeira vez que vestígios do corante púrpura foram identificados em restos têxteis romanos encontrados em York, e um dos poucos registros do pigmento em toda a Grã-Bretanha romana.Leia também: Menino de 13 anos encontra moeda grega do século 3 a.C. em plantação Pesquisadores descobrem ilha que não aparece em cartas náuticas Inédito: homem produz esperma a partir de tecido de testículo congelado na infânciaOs tecidos sobreviveram graças a um ritual funerário comum entre os romanos. Após os corpos serem vestidos e envoltos em mortalhas, gesso líquido era derramado sobre eles. Com o endurecimento gradual da substância, fragmentos de tecido, impressões e até resíduos químicos acabavam preservados por séculos.“Pela primeira vez, temos a confirmação do uso desse corante caro na York romana, o que indica que os habitantes ricos da cidade tinham acesso a mercadorias caras e exóticas vindas do outro lado do império”, afirmou a arqueóloga Maureen Carroll, diretora do projeto “Seeing the Dead”, em comunicado."Esta descoberta notável revela muito sobre a importância das crianças na York romana e a disposição da família em proporcionar ao seu bebê a melhor despedida possível em circunstâncias trágicas”, continua a pesquisadora.Origem da substância A púrpura tíria era produzida a partir da extração de secreções de milhares de moluscos marinhos do gênero Murex. O processo extremamente trabalhoso tornava o pigmento símbolo máximo de status social no mundo romano. O nome do corante vem da cidade fenícia de Tiro, localizada no atual Líbano, onde sua produção era concentrada.Vestígios do tecido foram encontrados em dois contextos funerários distintos: um bebê enterrado junto a dois adultos em um caixão de pedra, atualmente exposto no Yorkshire Museum, e outro sepultado em um caixão de chumbo.Para os cientistas, os achados também reforçam evidências que contradizem uma antiga interpretação histórica de que os romanos não lamentavam profundamente a morte de bebês. Embora leis e costumes da época desencorajassem manifestações públicas de luto infantil, em um contexto no qual cerca de três em cada dez crianças morriam antes do primeiro ano de vida, os sepultamentos sofisticados sugerem o contrário.“Vestígios de roxo nem sempre eram visíveis na superfície do gesso, mas a análise química nos presenteou com resultados surpreendentes”, explicou Jennifer Wakefield, pesquisadora responsável pelas análises laboratoriais.A peça foi descoberta durante uma escavação em 2023, por arqueólogos e voluntários — Foto: Wardell Armstrong A peça foi descoberta durante uma escavação em 2023, por arqueólogos e voluntários — Foto: Wardell Armstrong O estudo também destaca o trabalho conjunto entre a Universidade de York e o York Museums Trust. Segundo Adam Parker, curador de arqueologia do museu, a tecnologia usada na pesquisa permitiu revelar detalhes invisíveis até então.“A descoberta do corante púrpura e a pesquisa que ela inspirou estão proporcionando novas e empolgantes perspectivas sobre a York romana”, afirma Parker.Os pesquisadores também estão utilizando técnicas de análise como tomografias computadorizadas, raios X, espectrometria de massa e reconstrução digital em 3D para estudar os sepultamentos. Os invólucros de gesso preservam vestígios de tecidos, corantes, resinas e bandagens funerárias que, de outra forma, teriam desaparecido ao longo dos séculos.O objetivo maior do projeto é compreender por que os sepultamentos em gesso eram utilizados, quem recebia esse tipo de ritual funerário e como essas práticas moldavam a experiência da morte e do luto no Yorkshire romano. Nos próximos meses, os pesquisadores pretendem continuar analisando resíduos preservados em revestimentos de gesso de outros sítios arqueológicos de North Yorkshire em busca de novas pistas sobre práticas funerárias e relações sociais na Britânia romana.

Enterrados há cerca de 1700 anos em York, na Inglaterra, à época ocupada pelos romanos, dois bebês receberam um tratamento funerário reservado às elites do Império Romano. Arqueólogos da Universidade de York descobriram que as crianças foram envoltas em um raro tecido tingido com púrpura tíria, um corante luxuoso que, na época, podia valer até três vezes mais que ouro.

O material, adornado com fios dourados, foi encontrado em dois sepultamentos datados entre o final do século 3 e o início do século 4 d.C. Essa descoberta é a primeira vez que vestígios do corante púrpura foram identificados em restos têxteis romanos encontrados em York, e um dos poucos registros do pigmento em toda a Grã-Bretanha romana.18

Os tecidos sobreviveram graças a um ritual funerário comum entre os romanos. Após os corpos serem vestidos e envoltos em mortalhas, gesso líquido era derramado sobre eles. Com o endurecimento gradual da substância, fragmentos de tecido, impressões e até resíduos químicos acabavam preservados por séculos.

“Pela primeira vez, temos a confirmação do uso desse corante caro na York romana, o que indica que os habitantes ricos da cidade tinham acesso a mercadorias caras e exóticas vindas do outro lado do império”, afirmou a arqueóloga Maureen Carroll, diretora do projeto “Seeing the Dead”, em comunicado.

“Esta descoberta notável revela muito sobre a importância das crianças na York romana e a disposição da família em proporcionar ao seu bebê a melhor despedida possível em circunstâncias trágicas”, continua a pesquisadora.

Origem da substância

A púrpura tíria era produzida a partir da extração de secreções de milhares de moluscos marinhos do gênero Murex. O processo extremamente trabalhoso tornava o pigmento símbolo máximo de status social no mundo romano. O nome do corante vem da cidade fenícia de Tiro, localizada no atual Líbano, onde sua produção era concentrada.

Vestígios do tecido foram encontrados em dois contextos funerários distintos: um bebê enterrado junto a dois adultos em um caixão de pedra, atualmente exposto no Yorkshire Museum, e outro sepultado em um caixão de chumbo.

Para os cientistas, os achados também reforçam evidências que contradizem uma antiga interpretação histórica de que os romanos não lamentavam profundamente a morte de bebês. Embora leis e costumes da época desencorajassem manifestações públicas de luto infantil, em um contexto no qual cerca de três em cada dez crianças morriam antes do primeiro ano de vida, os sepultamentos sofisticados sugerem o contrário.

“Vestígios de roxo nem sempre eram visíveis na superfície do gesso, mas a análise química nos presenteou com resultados surpreendentes”, explicou Jennifer Wakefield, pesquisadora responsável pelas análises laboratoriais.

A peça foi descoberta durante uma escavação em 2023, por arqueólogos e voluntários — Foto: Wardell Armstrong
A peça foi descoberta durante uma escavação em 2023, por arqueólogos e voluntários — Foto: Wardell Armstrong

O estudo também destaca o trabalho conjunto entre a Universidade de York e o York Museums Trust. Segundo Adam Parker, curador de arqueologia do museu, a tecnologia usada na pesquisa permitiu revelar detalhes invisíveis até então.

“A descoberta do corante púrpura e a pesquisa que ela inspirou estão proporcionando novas e empolgantes perspectivas sobre a York romana”, afirma Parker.

Os pesquisadores também estão utilizando técnicas de análise como tomografias computadorizadas, raios X, espectrometria de massa e reconstrução digital em 3D para estudar os sepultamentos. Os invólucros de gesso preservam vestígios de tecidos, corantes, resinas e bandagens funerárias que, de outra forma, teriam desaparecido ao longo dos séculos.

O objetivo maior do projeto é compreender por que os sepultamentos em gesso eram utilizados, quem recebia esse tipo de ritual funerário e como essas práticas moldavam a experiência da morte e do luto no Yorkshire romano. Nos próximos meses, os pesquisadores pretendem continuar analisando resíduos preservados em revestimentos de gesso de outros sítios arqueológicos de North Yorkshire em busca de novas pistas sobre práticas funerárias e relações sociais na Britânia romana.

(Por Carina Gonçalves)

A descoberta oferece informações sobre a importância das crianças na York romana — Foto: University of York

 

Astrogildo Aécio Nunes

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