Terra Nova: A malfadada expedição ao Polo Sul que terminou em tragédia

Quando se fala sobre naufrágios que chocaram o mundo, imediatamente a maioria das pessoas volta o pensamento para o emblemático RMS Titanic, que afundou no Oceano Atlântico em abril de 1912 e vitimou mais de 1.500 pessoas. No entanto, no mesmo ano ocorreu outro episódio marítimo bastante brutal: a tragédia do Terra Nova.
Na época, o grupo britânico liderado pelo Capitão Robert Scott partiu em uma expedição com o objetivo de chegar ao Polo Sul do mundo, mas a missão acabou sendo malfadada. Eles até chegaram no objetivo, mas, infelizmente, todos morreram no percurso de regresso.
O naufrágio do Terra Nova — que afundou anos depois, durante a Segunda Guerra Mundial — só foi descoberto décadas depois, em 2012, a 170 metros de profundidade na costa da Groenlândia, pelo Schmidt Ocean Institute. Mas foi só mais recentemente que, finalmente, os entusiastas da arqueologia marítima foram agraciados com filmagens em detalhes do fundo do mar da região, que revelam os destroços do Terra Nova completamente tomados por vida marinha.
Corrida ao Polo Sul
Conforme repercute a BBC, o Terra Nova foi um dos melhores navios polares de seu tempo, e navegou por 60 anos. Ele tinha 57 metros de comprimento e, em algumas partes, seu casco de madeira chegava a ter um metro de espessura, que servia para ajudar a romper o gelo marinho.
O Capitão Scott e sua equipe — Edward Wilson, Henry Bowers, Lawrence Oates e Edgar Evans —, junto a outros tripulantes, embarcaram em Cardiff, no País de Gales, rumo à Antártida em 1910, em um programa científico abrangente, na intenção de serem os primeiros a chegar ao Polo Sul.

Após navegar por centenas de quilômetros, a tripulação finalmente chegou na Antártida em janeiro de 1912. No entanto, quando chegaram lá, descobriram que haviam sido derrotados na corrida: uma equipe norueguesa liderada por Roald Amundsen chegou lá primeiro, e fincou uma bandeira preta — hoje em exibição no Scott Polar Research Institute (SPRI), em Cambridge — em meio à vastidão branca do local.
Seus corações devem ter afundado ao ver esta bandeira negra em contraste com a brancura da Antártida”, afirmou à BBC o curador do museu polar do SPRI, David Waterhouse.
Tragédia
Após descobrirem a derrota, o grupo britânico logo deixou o navio e iniciou sua jornada científica para chegar à base de reabastecimento, antes de retornarem ao navio, que estava sob os cuidados dos outros tripulantes. No entanto, na viagem, acabaram encarando um clima bastante desfavorável, e um dos membros da tripulação, Edgar Evans, acabou morrendo após cair ao descer uma geleira.
Mais algumas semanas depois, Lawrence Oates deixou a tenda em que os homens se abrigavam e, segundo os registros do diário de Scott, disse “vou só lá fora e talvez demore um pouco”. No entanto, estas foram suas últimas palavras para os companheiros, e ele nunca mais foi visto.
Nesse momento, os restantes eram apenas Scott, Bowers e Wilson, que seguiram na missão e, em meio às adversidades, montaram um último acampamento. No entanto, acabaram presos por uma nevasca e com suprimentos cada vez mais escassos; o que acabou matando-os também.

O último acampamento do grupo foi descoberto por uma expedição posteriormente, a apenas 17 quilômetros de um depósito de reabastecimento onde poderiam ter comida e combustível.
“Em janeiro de 1913, o Terra Nova chegou ao Cabo Evans, na Antártida, para resgatar o grupo da costa, e eles esperavam resgatar o Capitão Scott e seu grupo no polo ao mesmo tempo”, disse Naomi Boneham, arquivista do SPRI, à BBC. “Mas quando chegaram descobriram a triste notícia”.
No diário de bordo de Scott, os registros indicam que os homens morreram de “exposição e carência”; e, então, o navio navegou para a Nova Zelândia com os outros tripulantes fora o grupo de Scott, onde o fim da expedição Terra Nova foi anunciado de maneira trágica ao mundo.
Observando a História
Após a expedição malfadada, o navio continuou em serviço por mais algum tempo, antes de afundar em 1943, enquanto transportava suprimentos para bases americanas em meio à Segunda Guerra Mundial.
“É uma história que realmente reúne o pacote completo: o heroísmo, a tragédia“, disse David Waterhouse à BBC. “E, eu acho, como britânicos, nós gostamos dos azarões, e eles chegaram muito perto de serem os primeiros a chegar ao polo e voltarem vivos”.

Hoje, os destroços do Terra Nova são vestígios de uma história marcada por glórias e uma tragédia brutal. Ele não está em boas condições de preservação, mas certamente toda a tragédia que o marcou contrasta com o cenário repleto de vida que ele abriga hoje. “Está cheio de peixes, tem corais crescendo nele — tornou-se um só com o oceano”, disse, por fim, o gerente de sistemas científicos da REV Ocean, Leighton Rolley.
(POR ÉRIC MOREIRA)






