Sobre a concomitância das eleições e a capacidade autodestrutiva da política

Sobre a concomitância das eleições e a capacidade autodestrutiva da política
Divulgação/HNT

OLIVEIROS MARQUES

Uma das desvantagens de avançar na idade é que, se não se viu de tudo, já se viu muita coisa. Nunca presenciei a produção de salsichas, mas por quase duas décadas acompanhei de perto como as leis são feitas. E, nesse tempo, pude concluir que tudo é possível – inclusive a política jogar contra si própria.

A capacidade autoagressora desenvolvida pelos políticos é algo surpreendente. No afã de uma vitória momentânea, não conseguem ver um palmo à frente do nariz e acabam cavando suas próprias covas. Ou não foi exatamente isso que fizeram alguns representantes do quase jazido PSDB, ao patrocinarem um discurso criminalizante da política na tentativa de atacar o PT? O resultado foi o surgimento de aberrações como o bolsonarismo e a morte do próprio PSDB, que perdeu o eleitorado médio e de falsa moral que antes orbitava em torno do tucanato.

É o que se busca repetir agora com a proposta de concentrar as eleições – da vereança à Presidência da República – em um único dia. Trata-se de um ataque direto ao exercício pleno da democracia e ao próprio processo político, que exige tempo, debate e capacidade de formulação em diferentes níveis. Se essa proposta avançar, será um desastre para o debate democrático, para a formação cidadã e para o equilíbrio entre os entes federativos.

Eleição unificada é uma anomalia no federalismo. Com a sobreposição de campanhas e temas, o debate local será inevitavelmente sufocado pelo peso da eleição presidencial. O que estará em disputa, na prática, será a figura dos grandes líderes nacionais, e não os projetos de cidade, as propostas de desenvolvimento urbano ou as soluções para problemas concretos do território em que as pessoas vivem.

Mais grave ainda é o empobrecimento geral do debate político. Quando tudo vira plebiscito nacional, não há espaço para a reflexão, para o contraditório e muito menos para a construção de consensos locais. A política vira torcida. E onde há torcida, não há diálogo – há grito, vaia e meme.

Por fim, essa mudança canibaliza também o debate federativo. Os municípios deixarão de ser ouvidos e os estados serão reduzidos a coadjuvantes num roteiro de confronto nacional. O efeito prático é o esvaziamento da representação local e o fortalecimento de lideranças centralizadas, invariavelmente desconectadas da realidade do país profundo.

É mais uma vez a política cavando sua cova, minando os próprios pilares que sustentam a democracia. A unificação das eleições pode parecer prática, econômica, eficiente – mas a democracia não é uma linha de produção. Ela exige tempo, escuta, diversidade e autonomia. Ignorar isso é cometer o mesmo erro de sempre: jogar contra si mesma.

(*) OLIVEIROS MARQUES é sociólogo, publicitário e comunicador político.

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Astrogildo Aécio Nunes

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