Bico de tucano e mais: os tesouros enterrados nesta tumba de 5 mil anos do Peru

O Ministério da Cultura do Peru anunciou, na última semana, a descoberta de uma tumba no edifício “Huaca de los Ídolos”, localizado no sítio arqueológico de Áspero. A região é conhecida por abrir as ruínas de uma cidade pesqueira antigamente ocupada pela civilização Caral (3000-1800 a.C.).
As ossadas encontradas durante as escavações foram identificadas como sendo uma mulher com idade entre 20 e 35 anos. Ela apresenta uma boa preservação de pele, cabelos e unhas – uma condição rara nesta área, onde normalmente apenas restos de esqueletos são recuperados.
Em comunicado, os especialistas destacam que o corpo foi envolto em vários materiais, incluindo tecidos de algodão, esteiras de junco e um painel bordado com penas de arara, delicadamente dispostas em uma rede, sobre feixes de fibras vegetais. Sobre sua cabeça, ainda repousa um cocar feito de fibras com feixes de fios torcidos.
O painel de penas bordadas é um dos exemplos mais antigos de arte plumária na Cordilheira dos Andes. Por isso, os pesquisadores indicam que este achado pode ser visto como um indicador do alto nível de desenvolvimento de técnicas especializadas que existiam na civilização Caral.
Mulher em posição de prestígio social
Como parte do enxoval funerário, foram depositados quatro cestos de junco, uma agulha com desenhos incisos, uma concha de caracol da Amazônia, um tecido de lã, uma rede de pesca, cerca de trinta batatas-doces e instrumentos de tecelagem. No espaço inferior da tumba ainda reside um bico de tucano incrustado com contas verdes e marrons, que se destaca entre as oferendas.
Já no seu espaço superior, encontram-se três mates em formato de garrafa e outra cesta sobre uma esteira feita de plantas. As características desses itens, bem como a complexidade do tratamento funerário sugerem que a mulher era uma figura de alta posição social.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2025/S/h/A88SZhRxeGILBzJIwzMg/1155155-caral-4.jpg)
Por sua vez, isso reforça as hipóteses de que, nessa antiga sociedade andina, as mulheres podiam alcançar altos cargos políticos ou simbólicos. Atualmente, tal possibilidade é um dos focos de investigação dos arqueólogos do sítio, bem como alguns aspectos relacionados à saúde, morte, dieta e origem da civilização.
A civilização Caral não possuía um sistema de escrita conhecido, o que atrapalha os estudiosos de identificarem os nomes ou títulos que as pessoas possuíam naquele contexto, lembra o site Live Science. Assim, eles precisam se basear nos achados arqueológicos para determinar como o povo vivia, por isso tamanha a sua importância.
Civilização Caral
Desde 2005, Áspero tem sido palco de escavações. Próximo da descoberta mais recente, já foram encontrados outros dois sepultamentos importantes. São eles: a “Dama dos Quatro Tupus” (2016), escavado 3 metros ao norte; e o “Homem de Elite” (2019), a 1,25 metros ao norte.
Por sua localização estratigráfica, acredita-se que os três exemplares correspondem ao mesmo período de ocupação. Seu agrupamento também é considerado muito semelhante aos enterramentos posteriores de nobres que foram documentados no assentamento de La Galgada, em Tablachaca, Áncash.
/i.s3.glbimg.com/v1/AUTH_fde5cd494fb04473a83fa5fd57ad4542/internal_photos/bs/2025/Z/F/cLFUsrQDCSRdEk4kw4vQ/1155155-caral-6.jpg)
Áspero, encontra-se a 700 metros do Oceano Pacífico e possui uma área de 18,8 hectares. Ali já foram identificados 22 conjuntos arquitetônicos que atestam a organização social de seus habitantes durante o período de formação e desenvolvimento da civilização Caral.
Estudos anteriores sugerem que a população estava envolvida principalmente na produção marinha e em trocas de curta e longa distância – evidenciadas pela existência de artefatos da selva e das montanhas nas câmaras funerárias. Provavelmente, o “comércio” se dava por meio de redes de interação intercultural em condições de paz e benefício compartilhado
(Por Arthur Almeida)






