Canibalismo era comum em funerais na Europa há 15 mil anos, diz estudo

Canibalismo era comum em funerais na Europa há 15 mil anos, diz estudo
Restos humanos de toda a região noroeste da Europa indicam que o canibalismo era uma prática funerária — Foto: The Trustees of the Natural History Museum, Londres

Um novo estudo publicado nesta quarta-feira (4) na revista Quaternary Science Reviews revela que alguns grupos humanos que viviam há 15 mil anos na Europa comiam seus mortos — não por fome ou necessidade, mas como parte de sua cultura.

Os pesquisadores descobriram restos de ossos humanos com marcas de cortes, quebras e indícios de mastigação humana em todo continente. Eles foram atribuídos à cultura Magdaleniana, tradição cultural que também esteve presente na Caverna de Gough, sítio paleolítico no sudeste da Inglaterra. Este local, que fica no desfiladeiro de Cheddar, é mais famoso pela descoberta de crânios humanos com 15 mil anos que foram moldados no possível formato de copos, além de ossos que foram roídos por outros humanos.

Mas os especialistas descobriram que o canibalismo não era algo que acontecia só na Caverna de Gough. Na verdade, a prática era possivelmente compartilhada por outros humanos no final do Paleolítico Superior. “Em vez de enterrar seus mortos, essas pessoas estavam os comendo”, afirma Silvia Bello, especialista do Museu de História Natural de Londres, que fez parte da pesquisa, em comunicado.

Um crânio humano da Caverna de Gough foi moldado em xícara após ter sua carne removida — Foto: The Trustees of the Natural History Museum, Londres
Um crânio humano da Caverna de Gough foi moldado em xícara após ter sua carne removida — Foto: The Trustees of the Natural History Museum, Londres

Bello conta que a prática fazia parte de um “comportamento funerário difuso entre os grupos magdalenianos”. Contudo, o canibalismo não durou muito, já que os mortos passaram a ser enterrados por membros de outra cultura, atribuída aos chamados “epigravetianos” (em inglês, Epigravettian).

Alguns dos ossos humanos da Caverna de Gough mostram evidências de terem sido trabalhados, o que implica que o canibalismo tinha uma função ritualística — Foto: Curadores do Museu de História Natural, Londres
Alguns dos ossos humanos da Caverna de Gough mostram evidências de terem sido trabalhados, o que implica que o canibalismo tinha uma função ritualística — Foto: Curadores do Museu de História Natural, Londres

Para contextualizar melhor a Caverna de Gough, William Marsh, pesquisador do Museu de História Natural de Londres, revisou todos os sítios arqueológicos europeus atribuídos às culturas magdaleniana e epigravetiana. Ele encontrou 59 lugares da época dessas populações, sendo que dois tinham evidências combinadas de enterro e canibalismo.

O que Marsh percebeu foi que a prática de comer os mortos era frequente: estava em locais em toda a Europa ocidental e central e até o Reino Unido. Então, ele e Bello procuraram por análises genéticas feitas nos restos mortais europeus.

Pesquisa descobriu que as evidências do canibalismo humano estavam bastante localizadas no noroeste da Europa durante o Paleolítico Superior — Foto: William Marsh
Pesquisa descobriu que as evidências do canibalismo humano estavam bastante localizadas no noroeste da Europa durante o Paleolítico Superior — Foto: William Marsh

Os cientistas descobriram que os dois grupos que praticavam diferentes comportamentos funerários eram populações geneticamente distintas. O grupo genético “GoyetQ2”, associado à região da fronteira entre a França e a Espanha, comia seus mortos. Já a ancestralidade “Villabruna” era composta por indivíduos da região ítalo-balcânica que faziam enterros mais comuns.

Tal fato sugere que, quando a prática de comer os mortos terminou e os enterros mais convencionais se tornaram comuns no noroeste da Europa, isso não ocorreu por meio de uma disseminação de ideias, mas sim pela substituição de povos.

“A ancestralidade e o comportamento funerário associados aos magdalenianos foram trocados pela ancestralidade e comportamento funerário associados aos epigravetianos. Isso indica uma substituição populacional, à medida que os grupos epigravetianos migraram para o noroeste da Europa”, explica Marsh.

Mais estudos devem ser conduzidos para aprofundar os conhecimentos sobre os antigos funerais europeus que envolviam canibalismo. Marsh e seus colegas querem entender, por exemplo, se esses humanos canibalizados eram parentes uns dos outros ou se estavam comendo pessoas de fora de seus grupos imediatos.

(Por Redação Galileu)

Astrogildo Aécio Nunes

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