Afinal, as minas do Rei Salomão poluíam o ambiente? O que diz este estudo

Um novo estudo conduzido por especialistas da Universidade de Tel Aviv concluiu que as minas de cobre do Rei Salomão não prejudicaram a saúde de trabalhadores, tampouco representam riscos aos moradores modernos que vivem perto da região. Os resultados renderam a publicação de um artigo na edição de novembro da revista Scientific Reports.
Para verificar os danos ao meio ambiente, os profissionais recolheram amostras geoquímicas em locais de produção de cobre no Vale de Timna, que remontam ao século 5 a.C. e à era dos reis bíblicos Davi e Salomão. Além disso, eles ainda revisaram a literatura sobre o assunto para confirmar a extensão da poluição na região.
“Inspecionamos dois grandes locais de produção de cobre no Vale de Timna, um da Idade do Ferro e da era do Rei Salomão e outro próximo que é cerca de 1500 anos mais velho”, afirma Erez Ben-Yosef, coautor do projeto, em comunicado. “Nosso estudo foi muito extenso. Coletamos centenas de amostras de solo de ambos os locais para análises químicas, criando mapas de alta resolução da presença de metais pesados na região”.
Foi assim que eles descobriram que os níveis de poluição nos locais de mineração de cobre de Timna são extremamente baixos e confinados aos locais dos antigos fornos de fundição – calculados em menos de 200 partes por milhão (ppm) a poucos metros do forno. Para fins de comparação, a Agência de Proteção Ambiental dos EUA define áreas industriais como seguras para trabalhadores em até 1200 ppm e áreas residenciais como seguras para crianças em 200 ppm.
Implicações das descobertas
De acordo com a equipe, o novo estudo contradiz uma série de artigos publicados desde a década de 1990 sobre a poluição supostamente causada pela antiga indústria do cobre. “Demonstramos que isso não é verdade. A poluição em Timna é muito restrita espacialmente, e é provável que apenas aqueles que trabalham diretamente na fornalha tenham sofrido com a inalação de vapores tóxicos, enquanto a uma curta distância, o solo é totalmente seguro”, ressalta Ben-Yosef.
Essa correspondência encontrada entre a distribuição espacial das concentrações de cobre e chumbo no solo indica ainda que os metais estão “presos” na escória e outros resíduos industriais. Na prática, isso significa que tal condição os impede de lixiviar para o solo e afetar plantas ou humanos.
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Além do levantamento geoquímico, os arqueólogos também conduziram uma revisão abrangente da literatura existente. Por meio dessa, eles apontaram que as hipóteses sobre a poluição global durante o período pré-romano carecem de evidências sólidas.
“Houve uma tendência na década de 1990, que apresentou a produção antiga de cobre como a primeira instância de poluição industrial”, explica Omri Yagel, pesquisador líder do estudo. “Tais declarações ganham manchetes e atraem bolsas de pesquisa, mas projetam desnecessariamente os problemas modernos de poluição no passado”.
Mais do que isso, a nova pesquisa ainda indica que a literatura tende a usar o termo ‘poluição’ para descrever qualquer vestígio de atividade metalúrgica antiga, e isso levou à suposição equivocada de que as indústrias de metal eram prejudiciais aos humanos desde seus primórdios – o que é patentemente falso. Mesmo quando a produção de metal era em larga escala, tornando-se parte integrante da civilização humana, era a indústria de chumbo tóxico que causava a poluição global, não necessariamente outros metais.
Um estudo da década de 1990 argumentou, por exemplo, que vestígios de cobre encontrados em núcleos de gelo da Groenlândia viajaram pela atmosfera de locais como Timna. Essa alegação, no entanto, não foi corroborada por nenhum estudo subsequente.
“Como pesquisadores que enfrentam os severos desafios ambientais do nosso tempo, como as mudanças climáticas, muitas vezes tendemos a procurar problemas semelhantes no passado ou presumir que o dano ambiental tem sido uma consequência inevitável da atividade humana desde a revolução agrícola”, reitera Yagel. “No entanto, devemos ser cautelosos. Embora possamos rotular alguns pedaços de escória no chão como ‘poluição’, não devemos confundir esse resíduo localizado com poluição ambiental regional ou global”.
(Por Arthur Almeida)






