Amizade entre humanos e cães existia nas Américas há 12 mil anos, indicam fósseis

Amizade entre humanos e cães existia nas Américas há 12 mil anos, indicam fósseis
Pesquisador François Lanoë após ajudar a desenterrar esta mandíbula canina de 8.100 anos no interior do Alasca em junho de 2023 — Foto: Zach Smith

Hoje em dia é comum as pessoas tratarem seus cachorros como “parte da família“, rodeando seus pets de amor e petiscos. Um novo estudo mostra que este vínculo próximo entre nós e os cães surgiu há pelo menos 12 mil anos — cerca de 2 mil anos antes do que havia sido registrado nas Américas.

A pesquisa conduzida por especialistas nos Estados Unidos foi publicada nesta quinta-feira (4) na revista Science AdvancesO estudo com base em dois vestígios arqueológicos do Alasca traz novas informações sobre como os povos indígenas nas Américas interagiam com os primeiros cães e lobos.

“Pessoas como eu, que se interessam pelo povoamento das Américas, estão muito interessadas em saber se aqueles primeiros americanos vieram com cães”, conta em comunicado o principal autor do estudo, François Lanoë, professor assistente de pesquisa na Universidade do Arizona.

Ossos da Era Glacial

A pesquisa analisou dois fósseis: um osso da perna inferior de um canino adulto desenterrado em 2018 no sítio arqueológico Swan Point, no Alasca; e uma mandíbula canina de 8,1 mil anos, descoberta em um local próximo chamado Hollembaek Hill, em junho de 2023.

Segundo Josh Reuther, arqueólogo do Museu do Norte da Universidade do Alasca, a pesquisa sobre os caninos foi realizada em parceria com comunidades no Vale Tanana, no Alasca, onde os arqueólogos trabalham desde a década de 1930.

O conselho Healy Lake Village Council, que representa o povo indígena Mendas Cha’ag, autorizou o teste genético dos dois fósseis de caninos estudados. Seus membros há muito consideram os cães companheiros místicos, segundo conta Evelynn Combs, representante do grupo. “Eu sei que ao longo da história, esses relacionamentos [entre cães e humanos] sempre estiveram presentes. Eu realmente amo que possamos olhar para o registro e ver que, milhares de anos atrás, ainda tínhamos nossos companheiros”, ela declara.

Espécimes selecionados do Pleistoceno terminal/Holoceno inicial (C. lupus/familiaris) — Foto: Science Advances/François Lanoë et.al
Espécimes selecionados do Pleistoceno terminal/Holoceno inicial (C. lupus/familiaris) — Foto: Science Advances/François Lanoë et.al

Petisco de salmão

Uma datação por radiocarbono no fóssil de Swan Point mostrou que o canino estava vivo há cerca de 12 mil anos, perto do fim da Era Glacial. Além disso, uma análise química nesse osso e no fóssil de Hollembaek Hill revelou indícios de proteínas de salmão.

Isso significa que o canino comia o peixe regularmente — o que não era típico dos caninos da época, que caçavam quase exclusivamente animais terrestres.

O maxilar e o osso da perna, vistos aqui em uma varredura composta, ambos mostraram contribuições substanciais de proteínas de salmão em testes de laboratório, levando os pesquisadores a concluir que humanos alimentaram os cães com o peixe — Foto: François Lanoë/University of Arizona School of Anthropology
O maxilar e o osso da perna, vistos aqui em uma varredura composta, ambos mostraram contribuições substanciais de proteínas de salmão em testes de laboratório, levando os pesquisadores a concluir que humanos alimentaram os cães com o peixe — Foto: François Lanoë/University of Arizona School of Anthropology

Mas como esses cães ancestrais estavam comendo peixe? A resposta é simples: humanos estavam os alimentando com a iguaria. “Essa é a prova cabal porque eles não estão realmente atrás de salmão na natureza”, afirma o coautor do estudo, Ben Potter, arqueólogo da Universidade do Alasca Fairbanks.

Era mesmo um cachorro?

Os pesquisadores acreditam que o canino de Swan Point pode estabelecer os primeiros relacionamentos próximos conhecidos entre humanos e caninos nas Américas. Contudo, Lanoë explica que os fósseis desse local e de Hollembaek Hill podem ser muito antigos para serem geneticamente relacionados a outras populações de cães mais recentes conhecidas.

Mesmo que não sejam cachorros tais como os modernos, os animais em questão poderiam ter sido lobos domesticados, conforme o pesquisador. “Em termos de comportamento, eles parecem ser como cães, pois comem salmão fornecido por pessoas”, afirma. “Mas, geneticamente, eles não estão relacionados a nada que conhecemos”.

Mandíbula canina de 8.100 anos desenterrada no interior do Alasca em junho de 2023. O fóssil, junto com um osso da perna de 12.000 anos descoberto em um local próximo, são as primeiras evidências de que os ancestrais dos cães formaram relacionamentos próximos com humanos nas Américas — Foto: Zach Smith
Mandíbula canina de 8.100 anos desenterrada no interior do Alasca em junho de 2023. O fóssil, junto com um osso da perna de 12.000 anos descoberto em um local próximo, são as primeiras evidências de que os ancestrais dos cães formaram relacionamentos próximos com humanos nas Américas — Foto: Zach Smith

(Por Vanessa Centamori)

Astrogildo Aécio Nunes

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