Fóssil de dinossauro brasileiro de 115 milhões de anos preservou vestígios de sangue

Fóssil de dinossauro brasileiro de 115 milhões de anos preservou vestígios de sangue
O Aratasaurus museunacionali viveu na região do sertão nordestino há 115 milhões de anos — Foto: Victor O. Leshyk

Em 2008, pesquisadores brasileiros encontraram, na bacia do Araripe, no sertão do Ceará, um fóssil de dinossauro de 115 milhões de anos da espécie Aratasaurus museunacionali. Depois, alguns fragmentos de ossos foram enviados para diferentes universidades ao redor do mundo. E o mais curioso é que um deles manteve preservados traços de glóbulos vermelhos, também chamados de hemácias, que são responsáveis pelo transporte de oxigênio e gás carbônico no corpo.

A descoberta foi feita por uma equipe internacional de pesquisadores liderada por Kliti Grice, da Universidade Curtin, na Austrália, conta com a participação de cientistas da Universidade Regional do Cariri (URCA) e do Museu Nacional/Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Um artigo foi que descreve os achado foi publicado na última segunda-feira (2) na revista Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).

Segundo a equipe, o fóssil permitiu que eles isolassem os vestígios de hemácias que estavam em um pedaço do osso da perna do animal. “Encontrar vestígios bioquímicos associados a componentes biológicos em um fóssil de mais de 100 milhões de anos nos ajuda a ampliar nossa compreensão sobre o que pode ser preservado ao longo do tempo”, diz Alexander Kellner, pesquisador do Museu Nacional/UFRJ, em comunicado enviado à GALILEU. “É uma oportunidade de investigar a história desses animais para além dos ossos e de suas características anatômicas. Uma descoberta de ponta envolvendo cientistas do INCT PALEOVERT – o primeiro dedicado a fósseis de vertebrados que é financiado pelo CNPq” diz.

O estudo é revolucionário, pois é muito difícil que os chamados “tecidos moles”, como vasos sanguíneos, fibras de colágeno e outras biomoléculas, sobrevivam à fossilização. A pesquisa sobre essas estruturas era considerada impossível, mas agora pode tomar novos rumos.

“Pesquisas como esta mostram a importância de integrar diferentes áreas do conhecimento para responder a questões complexas sobre a história da vida na Terra. A colaboração entre instituições brasileiras e estrangeiras permite combinar conhecimentos e técnicas para extrair novas informações de materiais que já fazem parte do nosso patrimônio científico”, destaca Antônio Álamo Feitosa Saraiva, da URCA.

O fragmento de osso enviado à universidade australiana pertencia ao pé do dinossauro — Foto: Universidade Curtin/Reprodução
O fragmento de osso enviado à universidade australiana pertencia ao pé do dinossauro — Foto: Universidade Curtin/Reprodução

Como os pesquisadores encontraram os traços de sangue

Para entender de onde os cientistas encontraram os traços de hemácias, é importante entender exatamente como elas são formadas. Hemácias, ou glóbulos vermelhos, são constituídos, principalmente, de hemoglobina, uma proteína vermelha responsável pelo transporte de gás pelo corpo. Dentro da hemoglobina há o heme, a molécula que foi encontrada pelos pesquisadores nos ossos do dinossauro.

A pesquisadora Kliti Grace afirma, em à ABC News, que “ninguém jamais encontrou heme dentro de uma célula sanguínea fossilizada“. Apesar disso, a equipe não tinha muitas expectativas quando recebeu o fragmento.

“Eles [os pesquisadores] não faziam ideia de que haveria células sanguíneas ou heme lá dentro”, disse ela. “Não parecia nada de especial, mas depois descobrimos que o osso era composto por quase 80% de heme”

Kliti Grice foi a principal responsável pelo estudo — Foto: Universidade Curtin/Reprodução
Kliti Grice foi a principal responsável pelo estudo — Foto: Universidade Curtin/Reprodução

Para realmente compreender se os compostos orgânicos presentes no fóssil eram realmente do dinossauro, foram necessários diversos testes. O fragmento foi cortado em vários pedaços e colocado em uma solução de ácido clorídrico para remover toda a rocha que o circundava.

Na parte de fora, foram encontrados diversos sedimentos com clorofila, molécula presente somente em plantas, o que significava que aquele pedaço havia sido contaminado por algas e não serviria para a pesquisa. Mas a verdadeira surpresa veio do lado de dentro, onde os pesquisadores não só descartaram a contaminação por algas, como também encontraram os vestígios de heme.

“Eu estava pulando de alegria”, diz Grice, à New Scientist. “Corri até a sala do diretor da escola e estava tão empolgada que ele me deu um uísque para me acalmar. Ninguém nunca tinha visto glóbulos vermelhos de dinossauro em alta resolução antes”.

(Por Gabriela Barbosa)

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