A lógica da perversidade no pós-eleitoral: “você é livre para votar — desde que vote em quem eu mandar”

A lógica da perversidade no pós-eleitoral: “você é livre para votar — desde que vote em quem eu mandar”
Fotos: Divulgação

Paulo Lemos

O regime nazista compreendeu muito cedo que a perseguição política e social também poderia ser exercida pelo bolso.

Empresas pertencentes a judeus foram identificadas, marcadas e submetidas a campanhas de boicote; profissionais foram afastados de suas atividades; trabalhadores e dirigentes judeus perderam seus empregos; negócios foram progressivamente excluídos da vida econômica alemã.

Antes mesmo de a barbárie atingir suas formas mais extremas, a asfixia econômica já era utilizada como instrumento de segregação, intimidação e submissão.

Evidentemente, seria historicamente irresponsável equiparar o Brasil contemporâneo à Alemanha nazista ou reduzir a singularidade e a dimensão do Holocausto.

O que merece ser observado, porém, é a perversidade de um método: transformar a sobrevivência econômica de uma pessoa em instrumento de punição por aquilo que ela é, pensa ou escolhe politicamente.

Por isso é tão lamentável assistir, no Brasil pós-eleitoral, a trabalhadores ameaçados ou demitidos por causa de seu voto, comerciantes hostilizados, profissionais submetidos a campanhas de boicote e cidadãos constrangidos dentro da própria família ou comunidade porque exerceram livremente um direito político.

Quando alguém pretende decidir quem pode trabalhar, vender, comprar, contratar ou manter o próprio sustento de acordo com sua escolha eleitoral, já não está simplesmente manifestando uma divergência política. Está tentando impor submissão econômica como preço para o exercício da cidadania.

Essa lógica também dialoga com uma herança profundamente brasileira: o coronelismo. Durante décadas, o chamado voto de cabresto se sustentou justamente na dependência econômica e social.

O patrão, o proprietário de terras ou o chefe político local procurava transformar emprego, moradia, crédito, proteção ou acesso a recursos em instrumentos de controle eleitoral. A mensagem era simples e brutal: quem depende de mim deve votar como eu mando.

Há ainda uma reminiscência de uma sociedade construída sobre séculos de escravidão, na qual determinados grupos se acostumaram à ideia de que poder econômico também lhes conferiria poder sobre a vontade, a consciência e até a dignidade de outras pessoas.

A democracia rompe exatamente com essa concepção. O empregado não pertence ao patrão. O filho não pertence aos pais. A esposa não pertence ao marido. O beneficiário de uma política pública não pertence ao governante. E o eleitor não pertence a ninguém.

Democracia não significa aceitar eleições apenas quando vence o nosso candidato. Significa reconhecer no outro a mesma liberdade política que reivindicamos para nós mesmos.

Quem ameaça, constrange ou pune economicamente alguém porque não votou conforme suas ordens não está defendendo liberdade. Está exigindo subserviência.

O voto verdadeiramente democrático é aquele depositado sem medo de perder o emprego, sem receio de retaliação familiar, sem ameaça econômica, sem violência e sem qualquer tipo de coação.

Uma sociedade de cidadãos livres não pode admitir que o emprego, o salário, o comércio ou a sobrevivência de uma família sejam transformados em armas de revanche eleitoral.

O nome disso não é liberdade de opinião. É intolerância convertida em instrumento de dominação.

E toda democracia digna desse nome precisa reagir quando alguém tenta substituir a liberdade do voto pela velha lógica do cabresto: “você é livre para votar — desde que vote em quem eu mandar.”

Paulo Lemos é advogado e analista político-social

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