Descoberta “galinha do inferno” que pode ser 1º dinossauro comedor de frutas

Um dinossauro de bico semelhante ao de um papagaio pode ter sido um dos primeiros dinossauros não avianos adaptados ao consumo de frutas. Nomeada de Infernogallus jamesi, expressão que, traduzida, significa “galinha do inferno”, a espécie viveu na América do Norte há cerca de 66 milhões de anos e pesava aproximadamente 12 kg.
A hipótese foi apresentada por pesquisadores em um estudo publicado no dia 10 de outubro na revista Nature Communications. Nele, a análise de um crânio quase completo revelou características que sugerem que o animal era capaz de processar alimentos macios com movimentos da mandíbula semelhantes aos de alguns papagaios modernos.
Fóssil raro ajuda a desvendar a alimentação
O exemplar foi originalmente descoberto em 2011, na Formação Hell Creek, uma área geológica rica em fósseis que abrange partes de Montana, Dakota do Sul e Dakota do Norte, nos Estados Unidos, além de regiões do Canadá.
A espécie pertence à família Caenagnathidae, grupo de dinossauros com características semelhantes às das aves, como corpo esguio e bico sem dentes. Seus esqueletos leves e ossos delicados raramente são preservados de maneira completa, o que dificulta a investigação de seus hábitos alimentares.
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Para estudar o fóssil, a equipe liderada pelo paleontólogo Gregory Funston, da Universidade Stony Brook, em Nova York, utilizou tomografias computadorizadas para reconstruir digitalmente partes do crânio e da mandíbula que haviam sido esmagadas. Os pesquisadores também examinaram as regiões onde os músculos se conectavam aos ossos, comparando-as com estruturas de aves atuais e de outros dinossauros.
“O crânio cabe na palma da mão”, conta Tom Dudgeon, paleontólogo do Museu Real de Ontário, no Canadá, e um dos autores do estudo, em entrevista à revista Science. “Dá para ver claramente o bico; dá para ver onde ficava o olho. É impressionante.”
Movimento da mandíbula dá pistas sobre a dieta
Os resultados indicaram que o Infernogallus jamesi provavelmente não dependia de uma mordida forte para triturar os alimentos. Em vez de movimentar a mandíbula principalmente para cima e para baixo, o animal parece ter sido capaz de deslizá-la para a frente e para trás.
Os cientistas também identificaram cristas e sulcos no interior do bico, estruturas que poderiam ajudar a comprimir e triturar alimentos de consistência macia. A ausência de pedras estomacais no fóssil reforça essa interpretação. Conhecidas como gastrólitos, essas pedras são engolidas por alguns animais e auxiliam na trituração dos alimentos durante a digestão. “Quando observamos as aves modernas, vemos apenas um grupo com todas essas especializações reunidas: os papagaios, que se alimentam obrigatoriamente de frutas”, afirma Dudgeon.
A equipe propõe que o animal talvez consumisse principalmente drupas, frutos que apresentam um caroço duro envolvendo a semente, cercado por polpa macia. Cerejas, pêssegos e ameixas são exemplos desse tipo de fruto.
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Essa hipótese não significa que os pesquisadores tenham encontrado restos de frutas no fóssil. A conclusão se baseia na anatomia do crânio e no funcionamento provável da mandíbula, características que permitem inferir quais alimentos o animal conseguia processar.
Tal achado também abre novas possibilidades para compreender a relação entre a evolução das plantas e a diversificação dos dinossauros. As plantas com flores começaram a surgir há cerca de 130 milhões de anos e, ao longo do tempo, desenvolveram uma variedade crescente de frutos.
Os pesquisadores observaram uma coincidência entre a diversificação dos oviraptorossauros e mudanças na evolução de frutos maiores e mais carnudos. Essa associação pode indicar que a disponibilidade de novos alimentos favoreceu adaptações em algumas linhagens de dinossauros, embora não comprove uma relação direta de causa e efeito.
Questões em aberto
Apesar das evidências anatômicas, ainda não é possível afirmar que o Infernogallus jamesi se alimentava exclusivamente de frutas. A hipótese dos pesquisadores se baseia no formato do crânio, na estrutura dos músculos e nos movimentos prováveis da mandíbula, mas essas características também podem estar associadas ao consumo de outros vegetais macios, como brotos e botões.
Para além disso, os fósseis não fornecem evidências diretas de quais frutos faziam parte da dieta do dinossauro. A comparação com papagaios atuais ajuda a formular uma hipótese sobre seus hábitos alimentares, mas não comprova que os dois grupos consumiam os mesmos tipos de alimento.
Outra questão em aberto é se esses dinossauros contribuíram para a dispersão das sementes, transportando-as para outros locais após ingerir os frutos. Os próprios autores reconhecem que ainda não está claro qual foi o papel desses animais na expansão das plantas frutíferas no fim do Cretáceo.
Assim, embora a descoberta amplie o conhecimento sobre a diversidade alimentar dos dinossauros, novas evidências serão necessárias para determinar o quanto as frutas representavam na dieta da espécie e como ela interagia com as plantas de seu ambiente.
(Por Arthur Almeida)






