O Brasil na Balança: Fatos, Projetos e a Escolha de 2026

Paulo Lemos
Há quem pergunte por que votar 13. A resposta não precisa ser construída com slogans, paixão partidária ou versões convenientes da história.
Basta olhar para aquilo que foi criado, para aquilo que foi ampliado e, principalmente, comparar o Brasil que chegou ao fim de 2022 com o Brasil de 2026.
Nem tudo começou com Lula. O SUS não foi criado pelo PT. O Pronaf, a Saúde da Família e o Fies também existiam antes de 2003.
Reconhecer isso é uma obrigação com a verdade. Mas também é verdade que governar não significa apenas inventar um programa.
Significa decidir se uma política será abandonada, mantida para poucos ou transformada em instrumento capaz de alcançar milhões de brasileiros.
Foi nos governos Lula e Dilma que nasceram ou ganharam estrutura nacional políticas como Bolsa Família, Prouni, Pronatec, Ciência sem Fronteiras, Luz para Todos, Farmácia Popular, Brasil Sorridente, Minha Casa, Minha Vida, Mais Médicos, Brasil Sem Miséria, Água para Todos, Bolsa Atleta, Bolsa Verde, Brasil Carinhoso, Cultura Viva e Casa da Mulher Brasileira.
Foi nesse período que surgiu o MEI, que o Fundeb foi instituído, que o PAC passou a organizar grandes investimentos públicos e que novas universidades, institutos e campi federais avançaram para cidades onde, por décadas, o ensino superior público parecia pertencer a outro Brasil.
Ao mesmo tempo, políticas anteriores foram ampliadas. O Pronaf passou a alcançar muito mais agricultores familiares. O Fies ganhou escala. A Saúde da Família avançou. A construção de cisternas tornou-se política pública de enorme alcance no semiárido.
A transposição do São Francisco saiu de uma discussão secular para grandes frentes de obras. A Ferrovia Norte-Sul avançou.
O salário mínimo voltou a ter ganhos reais que repercutiam não apenas na remuneração do trabalhador, mas nas aposentadorias e benefícios vinculados a ele.
É preciso lembrar disso porque política pública não é uma abstração. Luz elétrica chegando a uma comunidade é política.
Um filho de trabalhador entrando numa universidade pelo Prouni é política. Uma família recebendo as chaves de sua casa é política. Um médico chegando a uma cidade esquecida é política. Um agricultor tendo acesso a crédito é política. Medicamento gratuito é política. Comida na mesa é política.
E foi justamente parte dessa rede que começou a ser reconstruída a partir de janeiro de 2023.
Voltaram ou foram reformulados o Bolsa Família, Minha Casa, Minha Vida, Mais Médicos, Farmácia Popular, Luz para Todos e PAC. Surgiram o Pé-de-Meia e o Desenrola. A política de valorização do salário mínimo foi restabelecida.
Em 2026, o mínimo chegou a R$ 1.621. O Bolsa Família foi reajustado em 15%, elevando o benefício médio por família de R$ 675 para R$ 777 e o piso de R$ 600 para R$ 691.
Também deixou de ser promessa a isenção do Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil mensais.
Desde janeiro de 2026, a legislação determina redução capaz de zerar o IR devido nessa faixa, com desconto decrescente até R$ 7.350. Isso significa mais renda disponível justamente para quem vive do próprio trabalho.
Mas a comparação mais importante não está no nome dos programas. Está nos números.
No trimestre encerrado em dezembro de 2022, último mês do governo Bolsonaro, o desemprego estava em 7,9%. Havia 8,6 milhões de brasileiros procurando emprego e o rendimento médio real habitual do trabalho estava em R$ 2.808.
No trimestre encerrado em agosto de 2026, a taxa de desemprego caiu para 5,3%. O Brasil chegou a 103,5 milhões de pessoas ocupadas e o rendimento médio real habitual alcançou R$ 3.777, com crescimento real de 3,7% em um ano.
Não é detalhe estatístico.
Entre uma taxa de desemprego de 7,9% e outra de 5,3% existem milhões de histórias de pessoas que encontraram trabalho, recuperaram renda e voltaram a fazer planos.
O emprego com carteira também continua crescendo.
Apenas entre janeiro e agosto de 2026 foram criados, em termos líquidos, 1,134 milhão de postos formais. O país chegou a mais de 48,2 milhões de vínculos formais registrados pelo Novo Caged.
A inflação, que fechou 2022 em 5,79%, está em 4,58% nos doze meses encerrados em setembro de 2026.
Ainda é uma inflação que exige atenção, principalmente porque cada aumento de alimentos, aluguel ou energia pesa muito mais sobre quem ganha pouco. Mas está abaixo daquela registrada no encerramento do governo anterior.
Há também uma projeção que confirma a trajetória de recuperação.
Segundo o Fundo Monetário Internacional (FMI), o Brasil deve voltar a ser a oitava maior economia do mundo em 2027, ultrapassando Itália e Rússia, com um PIB estimado em US$ 2,80 trilhões. Em 2026, o país termina na décima posição, com US$ 2,655 trilhões.
A projeção, divulgada no relatório Perspectivas da Economia Mundial, indica que o Brasil deve se manter na oitava colocação até 2031.
E há um indicador que talvez diga mais sobre uma sociedade do que qualquer índice da Bolsa: a fome.
No governo Bolsonaro, o Brasil retornou ao Mapa da Fome da FAO. No relatório com dados de 2020–2022, a subnutrição atingiu 8,5% da população, o equivalente a 17,9 milhões de brasileiros — foi quando o país reingressou na lista da ONU após sete anos fora dela.
Foi nesse contexto que o país assistiu, em 2021, a um dos episódios mais emblemáticos do retrocesso social: a “fila do ossinho” em Cuiabá. Centenas de pessoas passaram a madrugar na porta de um açougue no bairro CPA II em busca de doações de ossos com resquícios de carne para se alimentarem.
O cenário ganhou proporção gigantesca com a crise econômica e o desemprego da pandemia e repercutiu nacional e internacionalmente — foi destaque no Jornal Nacional, no Fantástico e no Jornal Hoje, além de estampar a capa do jornal espanhol El País e circular por veículos de todo o mundo.
O episódio virou símbolo da fome e foi citado pelo próprio Lula à época como exemplo da irresponsabilidade do governo anterior.
Lula retornou ao poder em seu terceiro mandato e, mais uma vez, tirou o Brasil do Mapa da Fome. O país saiu da lista da FAO já em 2025, com menos de 2,5% da população em situação de subalimentação no triênio 2022–2024, e permaneceu fora dela no relatório de 2026.
A insegurança alimentar severa caiu para 0,6% no triênio 2023–2025 — o menor nível da série histórica, contra os 6,6% do triênio 2021–2023.
Na prática, milhões de pessoas deixaram de conviver com o espectro da fome e recuperaram a dignidade que havia sido perdida.
A comparação, porém, não se limita a programas sociais e indicadores de emprego. Ela aparece também na capacidade de o Estado tomar decisões estruturais, enfrentar crises e proteger a vida.
No terceiro mandato de Lula, o Congresso promulgou a Reforma Tributária (Emenda Constitucional 132/2023), que simplifica o sistema de impostos sobre o consumo após mais de três décadas de discussão.
O governo também enfrentou o avanço das apostas online: após regulamentar o setor em 2024, diante da constatação de que as regras não foram suficientes, publicou em setembro de 2026 uma Medida Provisória que proíbe a exploração, a oferta e a publicidade das bets no país.
Na mesma direção, o governo anunciou um pacote para microempreendedores individuais que prevê o perdão integral de dívidas inscritas na dívida ativa da União — cerca de R$ 12,6 bilhões devidos por aproximadamente 3,6 milhões de MEIs, com vigência a partir de 2027.
E quando o Rio Grande do Sul enfrentou a maior catástrofe climática de sua história, em maio de 2024, a resposta federal foi imediata.
Em um mês, o governo mobilizou R$ 62,5 bilhões em ações de resgate, assistência humanitária e reconstrução, com mais de 83 mil pessoas resgatadas pelas forças federais. A prioridade declarada pelo presidente foi explícita: salvar vidas.
O contraste com o governo anterior é inevitável — e não se resume a programas ou números.
Na pandemia, o Brasil assistiu ao oposto disso.
A CPI da Covid apontou que o governo Bolsonaro ignorou ofertas de vacinas e deixou de comprar 130 milhões de doses no momento em que elas estavam disponíveis. O anúncio presidencial em favor da vacinação veio com um “atraso fatal e doloroso” de 432 dias, quando o país já contava quase 470 mil mortos.
A obstrução à compra de imunizantes, a sabotagem da ciência e o estímulo a aglomerações foram apontados como parte de uma estratégia federal que contribuiu diretamente para a morte de centenas de milhares de brasileiros — o país terminou a pandemia com mais de 700 mil vidas perdidas.
Enquanto um governo agiu para salvar vidas diante da catástrofe, o outro atrasou a proteção que poderia tê-las evitado.
É impossível olhar para números assim e dizer que nada mudou.
Bolsonaro fez a reforma trabalhista e previdenciária retirando direitos da população. Lula conseguiu o pleito histórico do fim da escala 6×1, o que garante 2 dias de descanso remunerado, sem diminuição salarial, para quem optar trabalhar via CLT.
Isso significa que o Brasil resolveu todos os seus problemas?
Evidentemente não. Um governo sério também precisa ser julgado por aquilo que ainda não conseguiu resolver.
A economia perdeu velocidade em 2026. O PIB acumulado em quatro trimestres até o segundo trimestre cresce 1,9%. A Selic permanece muito alta, em 13,75% ao ano. A dívida pública cresceu. Investimentos precisam ganhar novo impulso. O custo do crédito continua sufocando famílias e empresas. Esses problemas existem e precisam ser enfrentados.
No entanto, debater a dívida pública exige maturidade e pragmatismo econômico, sem dogmas fiscais engessados.
Existe uma diferença fundamental entre se endividar para pagar o custeio da máquina pública e se endividar para investir no futuro do país.
Todas as grandes potências globais — como os Estados Unidos com suas rodovias interestaduais e incentivos de alta tecnologia, a China com sua infraestrutura de energia e ferrovias de alta velocidade, ou os países europeus no pós-guerra — utilizaram o endividamento estatal como indutor central do desenvolvimento econômico e social.
Quando o Estado se endivida para construir ativos reais — estradas, ferrovias, redes de energia limpa, parques tecnológicos, universidades e centros de inteligência artificial —, ele não está gerando um gasto fútil, mas criando patrimônio público que eleva a produtividade nacional e atrai o investimento privado.
O investimento em infraestrutura possui um elevado multiplicador econômico: reduz o “Custo Brasil”, aumenta a competitividade da indústria e do agronegócio, gera empregos e expande o PIB potencial.
No longo prazo, uma economia que cresce mais do que o custo de sua dívida estabiliza e reduz naturalmente a relação dívida/PIB por meio da maior arrecadação gerada pelo próprio dinamismo do país.
Reconhecer desafios fiscais é indispensável.
Mas uma coisa é debater como financiar o investimento estruturante com responsabilidade; outra completamente diferente é fingir que todos os governos produzem os mesmos resultados ou possuem as mesmas prioridades.
Há uma diferença de projetos.
Um projeto entende educação pública, saúde, habitação, emprego, inovação tecnológica, infraestrutura, salário, alimentação e redução da desigualdade como investimentos no povo brasileiro.
Outro pode enxergar essas políticas principalmente como despesas a serem reduzidas a qualquer custo.
Essa diferença aparece no orçamento, nas prioridades e, depois de algum tempo, aparece na vida das pessoas.
É por isso que a discussão sobre 2026 não deveria se resumir a gostar ou não de Lula, do PT ou de qualquer outro partido. Presidente da República não é escolhido para ser amigo, parente ou ídolo de ninguém. É escolhido para governar.
A pergunta relevante é outra: qual projeto melhora concretamente a vida de quem trabalha?
Quando se compara o fim de 2022 com o Brasil de agora, temos desemprego menor, renda real maior, mais empregos formais, salário mínimo maior, redução da pobreza e da insegurança alimentar, além de inflação abaixo daquela encontrada no último ano do governo anterior.
Ao mesmo tempo, permanecem desafios sérios no crescimento, nos juros, na dívida pública e no investimento.
É esse conjunto — e não uma fantasia de país perfeito — que deve ser colocado na balança.
Votar é escolher prioridades. É decidir quem deve ocupar o centro das decisões do Estado. É escolher se desenvolvimento significa apenas crescimento de indicadores isolados ou se significa crescimento acompanhado de emprego, salário, casa, universidade, tecnologia, infraestrutura, médico, medicamento e comida.
Por isso, quando alguém perguntar “por que 13?”, talvez a melhor resposta não seja um slogan.
Mostre os programas. Mostre os empregos. Mostre a renda. Mostre a universidade. Mostre a casa própria. Mostre o prato de comida. Mostre a vacina que salvou vidas. Mostre a resposta diante da catástrofe. Mostre a infraestrutura que constrói o futuro. Mostre a forma humanizada de tratar os trabalhadores e a população de forma geral.
Mostre os números E deixe o Brasil comparar.

Paulo Lemos é Advogado e Analista Político-social
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