Maior colônia de pinguins do mundo perde 63% dos casais de uma espécie

Maior colônia de pinguins do mundo perde 63% dos casais de uma espécie
O título de maior colônia de pinguins agora pertence à colônia de pinguins-de-adélia, no Cabo Adare, no Mar de Ross, após uma queda de 68% no número de casais de pinguins-de-barbicha na Ilha Zavodovski — Foto: Pexels

Há mais de uma década, a ilha vulcânica de Zavodovski, na Antártida, é acompanhada de perto por pesquisadores. Afinal ela é – ou melhor, era – conhecida por abrigar a maior colônia de pinguins do mundo. O cenário, no entanto, agora é outro: enquanto a população de pinguim-macaroni (Eudyptes chrysolophus) cresceu mais de 28% entre 2011 e 2016, o número de pinguins-de-barbicha (Pygoscelis antarcticus) caiu quase 63%, passando de aproximadamente 542 mil para 201 mil casais.

Esses resultados começaram a ser observados em 2023, quando toda a região foi documentada com um drone. As imagens capturadas foram combinadas com capturas feitas por satélite, com intervalos de cinco anos entre os anos de 2011 e 2025. Os resultados foram, então, publicados no dia 7 de outubro na revista científica Current Biology.

A preocupação é especialmente direcionada aos pinguins-de-barbicha. Não só porque eles tiveram a maior queda em relação ao número de indivíduos, mas também porque poderão precisar ser reclassificados globalmente de espécie “pouco preocupante” para “em perigo”, conforme os critérios de extinção animal.

O que aconteceu?

O vilão para esses acontecimentos é um velho conhecido de todos nós: o aumento da temperatura do planeta. Especificamente no habitat desses animais, a mudança climática tem se manifestado pelo aquecimento das águas oceânicas.

Você também deve se lembrar que esse fator é o responsável pelo derretimento das geleiras e, logo, sem mais litros de água doce para você e para o resto do mundo. Mas, além da questão hídrica, o calor reduz o suprimento de krill na Antártida. O problema é que esses minúsculos crustáceos são a principal fonte de alimentação dos pinguins-de-barbicha.

Distribuição em alto mar de pinguins marcados com rastreadores via satélite — Foto: Current Biology
Distribuição em alto mar de pinguins marcados com rastreadores via satélite — Foto: Current Biology

Os cientistas têm usado os pinguins como um indicador da saúde geral do ecossistema na Antártida há anos. Afinal, as mudanças na temperatura, na química ou nos padrões climáticos do oceano têm alterado populações além da dos pinguins, como as de krill (mencionada acima) e peixes. E como tudo está interligado de uma forma, um problema puxa o outro.

No caso da redução de disponibilidade de krills para os pinguins-de-barbicha, os cientistas até chegaram a analisar outros dados e fatores. No entanto, eles não encontraram evidências de que a erupção vulcânica de 2016 na Ilha Zavodovski ou a competição com frotas pesqueiras e demais animais tenham sido tão responsáveis quanto o aquecimento das águas.

A distribuição e a extensão das colônias de pinguins na Ilha Zavodovski são mostradas em azul e as de pinguins-macaroni em magenta durante (A) 2011, (B) 2016, (C) 2020–2022 e (D) 2025 — Foto: Current Biology
A distribuição e a extensão das colônias de pinguins na Ilha Zavodovski são mostradas em azul e as de pinguins-macaroni em magenta durante (A) 2011, (B) 2016, (C) 2020–2022 e (D) 2025 — Foto: Current Biology

Quando lançaram aos céus o drone que capturou imagens de cerca de 70% do território, os pesquisadores se depararam com milhares de pinguins para contar. Obviamente a contagem manual era impraticável, então eles desenvolveram um algoritmo para processar as imagens dos drones. O algoritmo também distinguiu automaticamente as duas espécies: os pinguins-de-barbicha apresentavam uma coloração azulada, com anéis de guano ao redor de seus ninhos, enquanto os pinguins-macaroni tinham dorsos pretos mais escuros.

Agora, os pinguins-macaroni ultrapassaram os pinguins-de-barbicha e se tornaram a espécie de pinguim mais abundante de Zavodovski, marcando a maior mudança populacional registrada em um único local na Antártica. Sua dieta variada lhes confere maior flexibilidade, permitindo que se aventurem mais longe em correntes mais quentes para se alimentar.

Pinguins como indicadores

E o que tudo isso significa para o restante do planeta? Bom, os pinguins não são apenas aquelas aves simpáticas que parecem estar sempre vestidas para uma ocasião formal, eles também funcionam como termômetros da saúde dos oceanos. Quando suas populações mudam drasticamente, os sinais podem indicar que algo não vai bem em toda a cadeia alimentar.

No caso de Zavodovski, a queda dos pinguins-de-barbicha e o crescimento dos pinguins-macaroni mostram que nem todas as espécies respondem da mesma maneira às mudanças ambientais. Enquanto algumas conseguem se adaptar à nova disponibilidade de alimentos, outras ficam mais vulneráveis.

A mudança também serve de alerta para a conservação da biodiversidade. Afinal, perder mais de 250 mil casais reprodutores em uma única ilha não é pouca coisa. E, embora os pinguins-macaroni pareçam estar levando a melhor nessa disputa, isso não significa que o ecossistema esteja em boas condições. Uma espécie prosperar enquanto outra entra em declínio pode ser justamente um sinal de que o ambiente está mudando de forma significativa.

(Por Júlia Sardinha)

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