Este local da Terra possui rochas muito parecidas com as da Lua

Este local da Terra possui rochas muito parecidas com as da Lua
Uma enorme formação rochosa semelhante à da Lua se destaca na paisagem cor de ferrugem do sul de Madagascar nesta impressionante fotografia tirada da Estação Espacial Internacional. — Foto: NASA

Uma formação rochosa no sul de Madagascar chamou a atenção pela sua composição ser semelhante à de rochas que formam as regiões mais brilhantes da Lua. Fotografado por um astronauta a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS, na sigla em inglês), o maciço de Saririaky se destaca na paisagem árida da região e oferece pistas sobre processos geológicos que transformaram a crosta terrestre há centenas de milhões de anos. A imagem foi registrada em 28 de agosto, durante a Expedição 75 da ISS, e divulgada pelo Observatório da Terra da NASA.

A formação é composta principalmente por anortosito, uma rocha ígnea que também é abundante nas terras altas lunares. Segundo estudosgeológicos, sua origem remonta ao final do Pré-Cambriano, há pelo menos 600 milhões de anos. Atualmente, a área exposta ocupa aproximadamente 100 quilômetros quadrados.

Embora seja frequentemente associada à Lua, a anortosita também ocorre em diferentes partes da Terra, como o leste do Canadá, a Escandinávia, o sul da Índia e Madagascar. No caso de Saririaky, sua coloração clara contrasta com as rochas ao redor, tornando a formação facilmente identificável quando observada do espaço.

Como se forma uma rocha semelhante às lunares?

A anortosita é uma rocha ígnea intrusiva, formada quando o material rochoso derretido esfria e se solidifica abaixo da superfície. Esse resfriamento lento permite que os minerais desenvolvam cristais relativamente grandes.

Na Lua, a origem de rochas desse tipo está associada a um processo muito mais antigo. Há mais de 4 bilhões de anos, o satélite natural provavelmente tinha sua superfície coberta por um vasto oceano de magma. À medida que esse material esfriava, determinados minerais cristalizavam e se acumulavam nas camadas superiores, contribuindo para a formação da crosta lunar primitiva.

Essas rochas compõem boa parte das terras altas brilhantes da Lua, regiões claras que podem ser observadas da Terra sem a necessidade de instrumentos. Amostras coletadas durante as missões Apollo permitiram que cientistas investigassem sua composição e reconstruíssem parte da história geológica do satélite.

Na Terra, depósitos de anortosito ajudam a ampliar essas investigações. Como as amostras lunares disponíveis são limitadas, estudar formações terrestres com características semelhantes permite compreender melhor os processos envolvidos na formação e na evolução dessas rochas. Um exemplo está nas montanhas Beartooth, em Montana, nos Estados Unidos, onde existem depósitos com composição comparável à de anortositos lunares.

Vestígios de um supercontinente

Além de sua semelhança com as rochas da Lua, o maciço de Saririaky está inserido em uma região que preserva evidências de intensas transformações tectônicas. A formação fica em uma zona de cisalhamento dúctil, área em que as rochas podem se deformar sob temperaturas e pressões elevadas, dobrando-se e esticando-se gradualmente em vez de simplesmente se romperem. Esse processo pode alterar a estrutura e a textura dos minerais e está associado ao metamorfismo, conjunto de transformações físicas e químicas que as rochas sofrem sem necessariamente derreter.

Estudos geológicos identificaram estruturas aproximadamente paralelas, orientadas de norte a sul, nas rochas da região. Esses padrões são indícios da deformação que afetou a crosta terrestre durante eventos tectônicos antigos.

Parte dessas transformações é associada à formação de Gondwana, um supercontinente que reuniu territórios que hoje correspondem a regiões da África, da Índia, de Madagascar, da Austrália e da Antártida, entre outras áreas. A aproximação e a colisão de massas continentais provocaram pressões e temperaturas capazes de remodelar extensas porções da crosta.

Pesquisadores também propuseram que outro maciço de anortosito, situado aproximadamente 60 quilômetros ao norte de Saririaky, pode ter feito parte de uma única estrutura rochosa no passado. Segundo essa hipótese, forças tectônicas teriam esticado e fragmentado o corpo original, separando-o em segmentos.

O fenômeno é conhecido como boudinagem, processo no qual uma camada ou massa rochosa mais resistente se divide em blocos alongados durante a deformação do material ao redor. Se essa interpretação estiver correta, as duas formações podem preservar vestígios das forças envolvidas na reorganização dos continentes durante a formação de Gondwana.

Uma janela para a história da Terra e da Lua

A fotografia de Saririaky mostra como estruturas geológicas antigas podem permanecer expostas na superfície terrestre mesmo após centenas de milhões de anos de transformações. Sua composição também reforça a importância de investigar rochas terrestres para compreender materiais encontrados em outros corpos celestes.

Apesar das semelhanças, a idade e a história geológica da formação de Madagascar são diferentes das das terras altas lunares, que remontam aos primeiros estágios da evolução do satélite. A comparação entre elas permite investigar características minerais compartilhadas sem pressupor que tenham se formado pelos mesmos processos ou na mesma época.

A imagem da NASA foi produzida com uma câmera digital Nikon Z9 equipada com uma lente de 400 milímetros. O registro, identificado como ISS075-E-85249, foi fornecido pela Instalação de Observação da Terra da Tripulação da ISS e pela Unidade de Ciências da Terra e Sensoriamento Remoto do Centro Espacial Johnson. A fotografia passou por recorte e ajustes de contraste, além da remoção de artefatos ópticos.

(Por Carina Gonçalves)

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